quarta-feira, 27 de abril de 2016

JURAMENTO ANTI-MODERNISTA

  Eu,                  , firmemente abraço e aceito cada e todas as definições  feitas e declaradas pela autoridade inerrante da Igreja, especialmente estas verdades principais que são diretamente opostas aos erros hodiernos. 
  Antes de mais nada eu professo que Deus, a origem e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão a partir do mundo criado (Cf. Rom. 1, 20), ou seja, das obras visíveis da criação, como uma causa a partir de seus efeitos, e que, portanto, sua existência também pode ser demonstrada.
  Segundo: eu aceito e reconheço as provas exteriores da revelação, ou seja, os atos divinos e especialmente os milagres e profecias como os sinais mais seguros da origem divina da Religião Cristã e considero estas mesmas provas bem adaptadas à compreensão de todas as eras e de todos os homens, até mesmo os de agora.
  Terceiro: eu acredito com fé igualmente firme que a Igreja, guardiã e mestra da Palavra Revelada, foi instituída pessoalmente pelo Cristo histórico e real quando Ele viveu entre nós, e que a Igreja foi construída sobre Pedro, o Príncipe da hierarquia apostólica, e seus sucessores pela duração dos tempos.
  Quarto: eu sinceramente mantenho que a Doutrina da Fé nos foi transmitida desde os Apóstolos pelos Padres ortodoxos com exatamente o mesmo significado e sempre com o mesmo propósito. Assim sendo, eu rejeito inteiramente a falsa representação herética de que os dogmas evoluem e se modificam de um significado para outro diferente do que a Igreja antes manteve. Condeno também todo erro segundo o qual, no lugar do divino Depósito que foi confiado à Esposa de Cristo para que ela o guardasse, há apenas uma invenção filosófica ou produto de consciência humana que foi gradualmente desenvolvida pelo esforço humano e continuará a se desenvolver indefinidamente.
  Quinto: eu mantenho com certeza e confesso sinceramente que a Fé não é um sentimento cego de religião que se alevanta das profundezas do subconsciente pelo impulso do coração e pela moção da vontade treinada para a moralidade, mas um genuíno assentimento da inteligência com a Verdade recebida oralmente de uma fonte externa. Por este assentimento, devido à autoridade do Deus supremamente verdadeiro, acreditamos ser Verdade o que foi revelado e atestado por um Deus pessoal, nosso Criador e Senhor.
  Além disso, com a devida reverência, eu me submeto e adiro com todo o meu coração às condenações, declarações e todas as proibições contidas na Encíclica Pascendi e no Decreto Lamentabili, especialmente as que dizem respeito ao que é conhecido como a história dos dogmas.
  Também rejeito o erro daqueles que dizem que a Fé mantida pela Igreja pode contradizer a história, e que os dogmas católicos, no sentido em que são agora entendidos, são irreconciliáveis com uma visão mais realista das origens da Religião Cristã.
 Também condeno e rejeito a opinião dos que dizem que um cristão erudito assume uma dupla personalidade - a de um crente e ao mesmo tempo a de um historiador, como se fosse permissível a um historiador manter coisas que contradizem a Fé do crente, ou estabelecer premissas que, desde que não haja negação direta dos dogmas, levariam à conclusão de que os dogmas são falsos ou duvidosos.
  Do mesmo modo, eu rejeito o método de julgar e interpretar a Sagrada Escritura que, afastando-se da Tradição da Igreja, da analogia da Fé e das normas da Sé Apostólica, abraça as falsas representações dos racionalistas e sem prudência ou restrição adota a crítica textual como norma única e suprema.
  Além disso, eu rejeito a opinião dos que mantêm que um professor ensinando ou escrevendo sobre um assunto histórico-teológico deve antes colocar de lado qualquer opinião preconcebida sobre a origem sobrenatural da Tradição católica ou a promessa divina de ajudar a preservar para sempre toda a Verdade Revelada; e que ele deveria então interpretar os escritos dos Padres apenas por princípios científicos, excluindo toda autoridade sagrada, e com a mesma liberdade de julgamento que é comum na investigação de todos os documentos históricos profanos. 
  Finalmente, declaro que sou completamente oposto ao erro dos modernistas, que mantém nada haver de divino na Tradição sagrada; ou, o que é muito pior, dizer que há, mas em sentido panteísta, com o resultado de nada restar a não ser este fato simples - a colocar no mesmo plano com os fatos comuns da história - o fato, precisamente, de que um grupo de homens, por seu próprio trabalho, talento e qualidades continuaram ao longo dos tempos subsequentes uma escola iniciada por Cristo e por Seus Apóstolos.
  Prometo que manterei todos estes artigos fielmente, inteiramente e sinceramente e os guardarei inviolados, sem me desviar em nenhuma maneira por palavras ou por escrito. Isto eu prometo, assim eu juro, para isso Deus me ajude, e os Santos Evangelhos de Deus que agora toco com minha mão. 

                                (São Pio X, Papa).
  

terça-feira, 26 de abril de 2016

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO (término do capítulo)

   36. CONFUSÃO DE IDEIAS.

   Ainda não entramos de cheio na refutação da teoria da salvação só pela fé. Fizemos apenas um resumo da doutrina católica sobre a salvação, para esclarecer certos pontos em que se confundem os nossos adversários que não estão perfeitamente ao par da nossa doutrina. Mas bastou ao leitor ver o texto das Escrituras em que se exige a observância dos mandamentos para conseguir o Céu, não podendo alcançá-lo os que cometem certas faltas graves, bastou ver a insistência com que a Bíblia nos assegura que Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras, sem fazer acepção de pessoas, para observar como é inexata a doutrina da que só a fé é que salva e de que as boas obras não influem na salvação. Queremos dizer apenas algumas palavras sobre uma confusão que fazem os protestantes a respeito do perigo de envaidecimento para aqueles que fazem boas obras, sabendo que elas terão a sua recompensa.

   Os protestantes viram um texto de São Paulo (Efésios II-8 e 9) em que o Apóstolo nos ensina que a concessão da graça primeira, ou seja, a passagem do pecador do estado de pecado para o estado de justiça, pela graça santificante se realiza de graça e não em atenção a nossas obras, para que ninguém se glorie. Teremos ocasião de comentar atentamente e de vagar esse texto num capítulo especial que versará sobra a graça primeira. Daí aprenderam de oitiva a dizer que a glória do Céu não se alcança pelas nossas obras mas só pela fé, para que o homem não se orgulhe, não se glorie de ter alcançado a salvação pelo seu esforço. Deus teria querido assim evitar o perigo do orgulho humano, e teria caído noutro perigo muito maior ainda: teria favorecido horrivelmente à corrupção do homem e ao relaxamento no pecado, impondo somente a fé para a salvação e dispensando a observância dos mandamentos e a prática das outras virtudes cristãs, entre as quais avulta a caridade, para a consecução da glória celeste. 

   37. A DOUTRINA CATÓLICA E A PRESUNÇÃO.

   Qualquer um que considere atentamente a doutrina católica, não terá motivo algum para gloriar-se de suas virtudes ou de suas boas obras. E a prova é que a Igreja Católica tem produzido um número imenso de grandes santos que são conhecidos no mundo inteiro, muitos dos quais bem estimados e admirados pelos protestantes, e no entanto, um fenômeno observado em todos eles é que, quanto mais progrediam na virtude e se enriqueciam da graça de Deus, tanto mais baixo conceito faziam de si mesmos. A sua grande virtude fazia com que lamentassem profundamente as mais pequenas imperfeições; e causa admiração como se não julgavam mais do que grandes e desprezíveis pecadores. Seguiam nisto a palavra do Eclesiástico: Quanto maior és, humilha-te em todas as coisas e acharás graça diante de Deus (Eclesiástico III-20).

   Realmente a consideração da doutrina sobre a graça, que há pouco resumimos, leva o homem a reconhecer o seu nada, a sua fraqueza e insuficiência. Se Deus justifica o pecador e o faz seu filho, esta elevação a uma grandeza sobrenatural é feita por pura bondade e misericórdia de Deus. Cada ação boa, cada ato de virtude, cada vitória sobre as tentações precisou, para efetuar-se, do auxílio da graça divina: Sem mim nada podeis fazer (João XV-5). A criancinha que não pode escrever a carta sem a mãezinha a estar ajudando com a mão dela por cima da sua, não pode absolutamente orgulhar-se de ter escrito a carta por seu próprio engenho e esforço. E os erros dados nesta carta, por culpa do pequeno escrevente, a mãezinha depois os corrige - isto é, os pecados, as faltas, as imperfeições que frequentemente cometemos, Deus está sempre de braços abertos para nos perdoar, se nos voltamos para Ele. E o católico tem, mais do que ninguém, uma lembrança viva de seus pecados, pois tem que fazer cuidadoso exame de consciência sobre eles e confessá-los humildemente ao ministro de Deus, a quem foi dado o poder de perdoar e reter os pecados. Nenhuma razão tem, portanto, o católico, para orgulhar-se de suas virtudes, quando as possui: Que tens tu que não recebesses? Se, porém, o recebeste, por que te glorias como se o não tiveras recebido? (1ª Coríntios IV-7). 

   Se, porém, por um ato de irreflexão ou, para melhor dizer, de loucura, conceber um pensamento de presunção, uma queda fatal se dará, porque Deus resiste aos soberbos, e dá sua graça aos humildes (Tiago IV-6). E acontecerá o que aconteceu a São Pedro, que fez as mais brilhantes profissões de fé e que amava a Cristo mais do que os outros Apóstolos, mas por ter consentido num ato de confiança exagerada em si mesmo, teve que chorar, por toda a vida, uma queda desastrosa. Assim aprenderá o homem, à custa dos próprios fracassos, a não confiar em si mesmo. Não há razão, portanto, para Deus deixar de considerar como CONDIÇÃO NECESSÁRIA PARA A SALVAÇÃO  a guarda dos mandamentos, a prática das boas obras, por parte do homem, (que é livre nas suas ações e portanto tem que mostrar um bom uso de sus liberdade), só pelo receio de que o homem se venha a tornar vaidoso.

   Se assim fosse, Ele também deixaria de apontar a FÉ como CONDIÇÃO NECESSÁRIA PARA A SALVAÇÃO, porque a fé é sempre um ato livre, uma cooperação humana, e assim como há o perigo de ensoberbecer-se o homem pelas suas obras, assim também há o de ensoberbecer-se pela fé: Tu pela FÉ estás firmes, pois NÃO TE ENSOBERBEÇAS, MAS TEME (Romanos XI-20).

   38. RECOMPENSA E BENEFÍCIO.

   Por mais estranho que pareça, a glória do Céu, que a Escritura nos mostra como uma RECOMPENSA dada ao homem pelas suas boas obras, é também, em última análise, uma graça, um BENEFÍCIO de Deus.

   Um homem rico e ilustre toma um mísero e desprezível servo e o cumula de favores, espontânea e benignamente, fazendo dele um filho adotivo. Depois disto, começa a fornecer-lhe verba continuamente, para que ele realize alguns trabalhos. Perdoa frequentemente também os erros e fraquezas deste filho, bastando para isto que ele procure sinceramente o seu perdão. E aqueles trabalhos realizados pelo filho com a verba dada pelo próprio pai, este os recompensa larguissimamente, fazendo-o cada vez mais participante de uma imensa herança.
   Pode ser maior a sua benignidade?
   Assim faz Deus conosco, chamando-nos e justificando-nos misericordiosamente quando somos pecadores, perdoando-nos inúmeras vezes na vida, graças aos merecimentos infinitos de Jesus Cristo, fornecendo-nos continuamente o auxílio da sua graça e recompensando com os gozos da vida eterna as nossas obras, que só com a sua graça podiam ser realizadas. Por isto, tinha razão em exclamar o grande Doutor da Graça, Santo Agostinho: "Deus quando coroa nossos merecimentos, não coroa senão seus próprios benefícios".

domingo, 24 de abril de 2016

DA JUSTIÇA E DA MISERICÓRDIA DE DEUS

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 24 de abril

"O Senhor é justo e ele ama a justiça" (Salmo X, 8)
"A misericórdia e a verdade (=justiça) se encontraram; a justiça e paz (=misericórdia) se oscularam" (Salmo LXXXIV, 11).
"O Senhor é misericordioso e compassivo" (Salmo CX, 4) e "O Senhor é compassivo e misericordioso, paciente e de muita misericórdia" (Salmo CII, 8).
"Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade (=justiça)"  (Salmo XXIV, 10).

Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, 1ª Parte, q. XXI fala sobre a Justiça e a Misericórdia de Deus, em quatro artigos e prova:  1º   Que em Deus há justiça; 2º - Que a sua justiça pode se chamar verdade; 3º - Que em Deus há misericórdia; 4º - Que em todas as obras de Deus há justiça e misericórdia.

Resumirei num só artigo estas teses que o Doutor Angélico prova respectivamente com os textos das Sagradas Escrituras acima enunciados.

!º - DEUS É JUSTO: "O Senhor é justo e Ele ama a justiça". Há dupla espécie de justiça. Uma que consiste no mútuo dar e receber; p. ex. a que existe na compra e venda e em tratos e trocas semelhantes. É a justiça chamada comutativa. Esta não existe em Deus segundo aquilo que diz São Paulo: "Quem lhe deu alguma coisa primeiro, para que tenha de receber em troca" (Romanos XI, 35). A outra justiça é chamada distributiva. É aquela pela qual um governante ou administrador dá segundo à dignidade de cada um. Ora, assim como a ordem devida, na família ou em qualquer multidão governada, demonstra a justiça do governador, assim também a ordem do universo manifesta, tanto nos seres naturais, como nos dotados de vontade, a justiça de Deus. Assim diz São Dionísio: "Devemos ver a verdadeira justiça de Deus no distribuir ele a todos os seres segundo o que convém à dignidade da cada um, e no conservar cada natureza na sua ordem própria e virtude". Deus só pode querer aquilo que está na razão da sua sabedoria; e esta é como a lei da justiça, pela qual a sua vontade é reta e justa. Por onde, o que faz por sua vontade, justamente o faz; assim como nós fazemos justamente o que fazemos de acordo com a lei; nós, porém, pela lei de um superior, ao passo que Deus, pela sua própria lei. Diz Santo Anselmo: "Deus é justo punindo os maus, por isso lhes convir ao que eles merecem; mas também Deus é justo perdoando-lhes, por convir isso a sua bondade.  A justiça é da essência de Deus. E o que é da essência de Deus também pode ser princípio de ação.

2º - A JUSTIÇA DE DEUS É VERDADE: "A misericórdia e a verdade se encontraram". Explica Santo Tomás que aqui VERDADE é tomada na acepção de JUSTIÇA. Verdade é a adequação da inteligência com o objeto. Ora, o intelecto que é causa do objeto é dele a regra e a medida; dá-se, porém, o inverso com o intelecto, que tira das coisas a sua ciência. Portanto quando as coisas são a medida e a regra do intelecto, a verdade consiste na adequação deste com aquelas, e tal é o nosso caso. Assim, a nossa opinião e o nosso conhecimento são verdadeiros ou falsos conforme exprimem o que a coisa é ou que não é. Mas, quando o intelecto é a regra ou a medida das coisas(como em Deus), a verdade consiste na adequação delas com o intelecto. Deus é a própria verdade; daí dá a cada um o que realmente lhe é adequado, isto é, o que corresponde à verdade.  Por onde a justiça de Deus, que constitui a ordem das coisas, conforme à ideia da sua sabedoria, que lhes serve de lei, chama-se convenientemente VERDADE. Resumo ainda mais com uma palavra da Bíblia: "Todas as obras de Deus são perfeitas e cheios de equidade os seus caminhos. Deus é fiel, e sem nenhuma iniquidade; Ele é justo e reto" (Deut. XXXII, 4). Deus é a própria Bondade e, por outro lado, é onisciente, perscruta os corações e os rins: donde premia ou castiga segundo a verdade, a equidade. Em Deus, pois, justiça é verdade. Nos homens, nem sempre e muitas das vezes a justiça humana é injusta (se assim me permitam a contradição nos termos). É como teia de aranha: pega os pequenos insetos e deixa passar os besouros. (Vê-se com facilidade que estas últimas palavras são minhas e não do Doutor Angélico).

3º - EM DEUS HÁ MISERICÓRDIA: "O Senhor é misericordioso e compassivo". A misericórdia máxima devemos atribuí-la a Deus; mas, quanto ao efeito e não, quanto ao afeto da paixão, porque em Deus não há paixão. Para entender isso melhor é mister considerar que misericordioso é quem possui coração cheio de comiseração, por assim  dizer, por contristar-se com a miséria de outrem, como se fora própria e esforçar-se por afastá-la como se esforçaria por afastar a sua própria. Tal é o efeito da misericórdia. Ora, Deus não pode ficar triste. Mas, sendo a própria bondade e onipotente, pode afastar a miséria, entendendo por miséria qualquer defeito. Pois, defeitos não se eliminam senão pela perfeição de alguma bondade. Ora, Deus é a origem primeira da bondade. Devemos porém ponderar que comunicar perfeições à coisas pertence tanto à bondade divina, como à justiça, à liberalidade e à misericórdia, mas segundo razões diversas. Assim, a comunicação das perfeições, considerada absolutamente, pertence à bondade, Pela justiça, Deus comunica perfeições proporcionadas à coisas. Pela liberalidade Deus dá perfeições, não visando a sua utilidade, mas só por mera bondade. Finalmente, pela misericórdia, as perfeições dadas à coisas por Deus eliminam-lhes todos os defeitos.

Deus age misericordiosamente, quando faz alguma coisa, não em contradição com a justiça, mas, além dela. Assim quem desse duzentos reais ao credor, ao qual só deve cem, não pecaria contra a justiça, mas agiria misericordiosamente. O mesmo se daria com quem perdoasse a injúria, que lhe foi feita. Devemos concluir que, longe de suprimir a justiça, a misericórdia é a plenitude dela. Donde dizer a Sagrada Escritura: "A misericórdia triunfa sobre o juízo" (S Tiago II, 13).

4º - HÁ JUSTIÇA E MISERICÓRDIA EM TODAS AS OBRAS DE DEUS:  "Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade (=justiça). Necessariamente descobrimos, em qualquer obra de Deus, a misericórdia e a verdade(=justiça); se tomarmos misericórdia no sentido de remoção de qualquer defeito. embora nem todo defeito possa chamar-se miséria, propriamente dita, mas somente o defeito da natureza racional, que é capaz de felicidade; pois a esta se opõe a miséria.

E a razão dessa necessidade é a seguinte. Sendo o débito pago pela divina justiça um débito para com Deus ou para com alguma criatura, nem um nem outro podem faltar em qualquer obra divina. Pois, Deus nada pode fazer que não convenha à sua Sabedoria e à sua Bondade; e, nesse sentido, dizemos que algo lhe é devido. Semelhantemente, tudo quanto faz nas criaturas, o faz em ordem e proporção convenientes, e nisso consiste a essência da justiça. E, portanto, é necessário haja justiça em todas as obras divinas.

Mas a obra da divina justiça sempre pressupõe a da misericórdia e nesta se funda. Pois, nada é devido a uma criatura, senão em virtude dum fundamento preexistente ou previsto; o que, por sua vez pressupõe um fundamento anterior. Ora, não sendo possível ir até o infinito, é necessário chegar a algum que só dependa da bondade da divina vontade, que é o fim último. Assim, se dissermos, que ter mãos é devido ao homem, em virtude da alma racional, por seu lado, ter alma racional, é necessário para que exista o homem e este existe pela bondade divina. E assim a misericórdia se manifesta radicalmente em todas as obras de Deus. E a sua virtude se conserva em tudo o que lhe é posterior, e mesmo aí obra mais veementemente, pois a causa primária mais veementemente influi, que a segunda. Por isso, Deus, pela abundância da sua bondade, dispensa o devido a uma criatura mais largamente do que o exigiriam as proporções dela. Porque, para conservar a ordem da justiça, bastaria menos do que o conferido pela divina bondade, excedente a toda a proporção da criatura. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

CELIBATO SACERDOTAL - PAPA PAULO VI - ( I )

Respondidas as perguntas sobre a Santa Missa, responderei as perguntas que me foram feitas sobre o CELIBATO SACERDOTAL. Esta questão foi muito agitada no Concílio Vaticano II. Seria um dos pontos do "aggiornamento"  e também do Ecumenismo que seria facilitado pela supressão do celibato sacerdotal. Sendo a Igreja divina, o Papa Paulo VI prometeu aos Padres do Concílio que ele mesmo iria imprimir uma nova glória e um novo vigor ao celibato sacerdotal. Para tanto, o Santo Padre escreveu uma carta a Sua Ema. o Card. E. Tisserant, carta esta que foi lida na Congr. Geral 146 de 11 de outubro. Cortava assim pela raiz a fermentação deletéria dos progressistas que tencionavam acabar com o celibato sacerdotal.  
   O Papa Paulo VI, cumprindo a sua promessa, dois anos após o término do Concílio escrivia a Encíclica "Celibato Sacerdotal" (junho de 1967). Desta encíclica extrairei, se Deus quiser, as respostas às perguntas que me fizeram sobre o celibato sacerdotal.
                                                    SIGNIFICADO CRISTOLÓGICO DO CELIBATO
   "O sacerdócio cristão, que é novo, só pode ser compreendido à luz da novidade de Cristo, Pontífice máximo, e Sacerdote eterno, que instituiu o sacerdócio ministerial como participação do Seu Sacerdócio Único. Portanto o ministro de Cristo e administrador dos mistérios de Deus (1 Cor. IV, 1), encontra também n'Ele o modelo direto e o ideal supremo (cf. 1Cor. 11, 1). O Senhor Jesus Cristo, Unigênito de Deus, enviado ao mundo pelo Pai, fez-se homem para que a humanidade sujeita ao pecado e à morte, fosse regenerada e, por meio dum nascimento novo (S. Jo. III, 5; Ti. III, 5), entrasse no reino dos céus. Consagrando-se inteiramente à vontade do Pai (S. Jo. IV, 34; XVII, 4), Jesus realizou, por meio do seu ministério pascal, esta nova criação (2 Cor. V, 17; Gál. VI, 15), introduzindo no tempo e no mundo uma forma de vida, sublime e divina, que transforma a condição terrena da humanidade (Cf. Gál. III, 28).
   "O matrimônio que , por vontade de Deus, continua a obra da primeira criação (Gên. II, 18), ao ser integrado no desígnio total da salvação, adquire novo significado e valor. Na verdade, Jesus, restituiu-lhe a dignidade primitiva (S. Mat. XIX, 3-8), honrou-o (Cf. S. Jo. II, 1-11) e elevou-o à dignidade de sacramento e de sinal misterioso da sua união com a Igreja (Ef. V, 32). Assim, os conjuges cristãos - no exercício do amor mútuo e no cumprimento dos próprios deveres, e tendo aquela santidade que lhes é própria - caminham juntos à pátria celeste. Mas Cristo, Mediador dum Testamento mais excelente (Hebr. VIII, 6), abriu támbém novo caminho, em que a criatura humana, unindo-se total e diretamente ao Senhor e preocupada apenas com Ele e com as coisas que Lhe dizem respeito (1 Cor. VII, 33-35), manifesta de maneira mais clara e completa a realidade profundamente inovadora do Novo Testamento".
   "A correspondência à vocação divina é resposta de amor à caridade para conosco que Jesus Cristo mostrou de maneira sublime (S. Jo. XV, 13; III, 16); é resposta coberta de mistério no amor particular pelas almas a quem Ele fez sentir os apelos mais instantes (cf. Marc. X, 21). A graça multiplica, com força divina, as exigências do amor; este, quando autêntico, é total, exclusivo, estável e perene, é estímulo irresistível que leva a todos os heroísmos. Por isso, a escolha do celibato consagrado foi sempre considerada pela Igreja "como sinal e estímulo da caridade": sinal de amor sem reservas, estímulo de caridade que a todos abraça. Numa vida de entrega tão inteira, feita pelos motivos que expusemos, quem poderá reconhecer sinais de pobreza espiritual ou de egoísmo, sendo ela, e devendo ser, pelo contrário, exemplo raro e excepcionalmente expressivo duma vida impulsionada e fortalecida pelo amor, no qual o homem exprime a grandeza que é exclusivamente sua? Quem poderá duvidar da plenitude moral e espiritual duma vida, assim consagrada não a qualquer ideal por mais nobre que seja, mas a Cristo, e à Sua obra em favor duma humanidade nova, em todos os lugares e em todos os tempos?
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O CELIBATO SACERDOTAL - PAPA PAULO VI - ( II )

SIGNIFICADO ECLESIOLÓGICO DO CELIBATO

   "Preso por Cristo Jesus" (Fil. III, 12) até ao abandono total de si mesmo a Ele, o sacerdote configura-se mais perfeitamente a Cristo, também no amor com que o Eterno Sacerdote amou a Igreja  Seu Corpo, oferecendo-se inteiramente por ela, para a tornar Esposa sua, gloriosa, santa e imaculada (cf. Ef. V, 25-27). A virgindade consagrada dos sacerdotes manifesta, de fato, o amor virginal de Cristo para com a Igreja e a fecundidade virginal e sobrenatural desta união em que os filhos de Deus não são gerados pela carne e pelo sangue (S. Jo. I, 13).
   O sacerdote, dedicando-se ao serviço do Senhor Jesus e do Seu Corpo Místico, em plena liberdade, facilitada pela sua oferta total, realiza, de modo mais completo, a unidade e a harmonia da vida sacerdotal; torna-se mais capaz de ouvir a Palavra de Deus e de se entregar à oração. Na verdade a palavra de Deus, conservada pela Igreja, deixa na alma do sacerdote, que diariamente a medita, vive, e anuncia, os ecos mais vibrantes e mais profundos.
   Deste modo, como Cristo, aplicado total e exclusivamente às coisas de Deus e da Igreja (cf. S. Luc. II, 49; 1 Cor.VII, 32) , o ministro do Senhor, à imitação do Sumo Sacerdote sempre vivo na presença de Deus a interceder por nós (Hebr. IX, 24 e VII, 25), encontra na recitação devota e atenta do Ofício Divino (Breviário) - na qual empresta a sua voz à Igreja que ora em união com o Seu Esposo - alegria e impulso incessantes e sente necessidade de ser mais assíduo na oração, dever eminentemente sacerdotal( Atos, VI, 2).
   E tudo o mais quanto forma a vida do sacerdote, adquire maior plenitude de significado e de eficácia santificadora. Com efeito, o seu compromisso especial de santificação encontra novos incentivos no ministério da graça e no da Eucaristia, em que está encerrado todo o bem da Igreja: operando em nome de Cristo, o sacerdote une-se mais intimamente à oferta, colocando sobre o altar a sua vida inteira, marcada com sinais de holocausto.
  Quantas considerações poderíamos acrescentar ainda sobre o aumento de capacidade, de serviço, de amor e sacrifício! Cristo disse de si mesmo: "Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só; mas, se morrer, dará muito fruto". (S. Jo. XII, 24); e o Apóstolo São Paulo não hesitava em expor-se à morte de todos os dias, para possuir nos seus fiéis a glória em Cristo Jesus (1Cor. XV, 31). Assim o sacerdote, na morte cotidiana de toda a sua pessoa, na renúncia ao amor legítimo a uma família própria, por amor de Jesus e do Seu Reino, encontrará a glória duma vida em Cristo pleníssima e fecunda, porque, como Ele e n'Ele, ama e se entrega a todos os filhos de Deus.
   Na comunidade dos fiéis confiados aos seus cuidados, o sacerdote é Cristo presente; daqui a suma conveniência de que ele reproduza em tudo a imagem de Cristo e lhe siga o exemplo, tanto na vida íntima como na vida do próprio ministério. Para os seus filhos em Cristo, é o sacerdote sinal e penhor das realidades sublimes e novas do reino de Deus, das quais é distribuidor, possuindo-as em si no grau mais perfeito e alimentando a fé e a esperança de todos os cristãos, que, como tais, são obrigados à observância da castidade segundo o próprio estado.
   A consagração a Cristo, em virtude dum título novo e excelso como é o celibato, concede, além disso, ao sacerdote, mesmo no campo prático como é evidente, a máxima eficiência e a melhor aptidão psicológica e afetiva para o exercício contínuo daquela caridade perfeita que lhe permitirá, de maneira mais ampla e concreta, dar-se todo para o bem de todos (2 Cor. XII, 15), e garante-lhe, como é óbvio, maior liberdade e disponibilidade no ministério pastoral, na sua ativa e amorosa presença no mundo, ao qual Jesus Cristo o enviou (S. Jo. XVII, 18), a fim de que ele pague inteiramente a todos os filhos de Deus a dívida que tem para com eles (Rom. I, 14). 

CUIDADO COM OS MODERNISTAS!!!

   Entre as muitas obras extraordinárias do Pontificado de São Pio X, sem dúvida, enumera-se a condenação do Modernismo. Eis algumas advertências de São Pio X atinentes aos modernistas: ... "com artifícios de todo astuciosos, se esforçam por tornar inútil a virtude vivificante da Igreja e arruinar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo"; ..."o que é muito para sentir e recear, eles se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se assim tanto mais nocivos quanto menos percebidos"; ..."embebidos das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, gabam-se de reformadores da mesma Igreja"; ..."se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo"; ..."não se afastará da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja"; "o modernismo é a síntese de todas as heresias" ..."dirigem seu machado sobre as próprias raízes da Igreja, que são a Fé e suas fibras mais vitais"; ..."não poupam nada da verdade católica; não há nenhuma verdade que não procuram contaminar"; ..."não há quem os vença em manhas e astúcias"; ..."são ousados como ninguém, de uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa aplicação a todo ramo de estudos e, o mais das vezes, (têm) a fama de uma vida austera, coisas muito próprias para enganar"; ..."são formados numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio"; ..."persuadem-se de que é amor da verdade o que não passa de soberba e obstinação"; (Devemos observar que os modernistas são contra toda autoridade contrária a eles como era o caso no tempo de São Pio X). ... "segundo eles os dogmas não só podem, mas devem evoluir e mudar-se"; ..."balofos nas vaidades da ciência, deliram a ponto de perverter o conceito de verdade"; ..."por desenfreada mania de novidades, não procuram a verdade onde com segurança se acha; e desprezando as santas e apostólicas tradições, apegam-se a doutrinas ocas, frívolas, incertas, reprovadas pela Igreja". Erros modernistas: ..."Visto que a religião não é senão uma forma da vida, a sua explicação se deve achar na própria  vida do homem. Daqui procede o princípio da imanência religiosa"..."a fé se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade da divindade... "É  precisamente a este sentimento que os modernistas dão o nome de fé, e colocam-no como o princípio de religião"; ..."chega-se até a afirmar que a nossa santíssima religião, no homem Jesus Cristo assim como em nós, é fruto inteiramente espontânea da natureza"; "o homem religioso  deve pensar a sua fé"; ..."no sentimento religioso reconhece-se uma espécie de intuição do coração" ... os modernistas concedem, uns confusa e outros manifestamente, que todas as religiões são verdadeiras"; ..."o viver para os modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles são uma e mesma coisa. E daqui mais uma vez se conclui que todas as religiões existentes são verdadeiras, do contrário já não existiriam". (Não conhecem a parábola do joio!!!). ..."nos seus livros muitas coisas se encontram que são aceitas pelos católicos; mas, ao virar a página, outras coisas são vistas que pareceriam ditadas por um racionalista. Escrevendo, pois, a história, nenhuma menção fazem da divindade de Cristo; ao passo que, pregando nas igrejas, com firmeza a professam"; ..."ostentam certo desprezo das doutrinas católicas, dos Santos Padres, dos concílios ecumênicos, do magistério eclesiástico; e se forem por isto repreendidos, queixam-se de que se lhes tolhe a liberdade"; ... "posta de parte a velha teologia, empenham-se por divulgar uma nova, toda amoldada aos desvarios dos filósofos"; ... "Deus é imanente no homem"; ... dizem que não se pode crer que a Igreja e os sacramentos foram instituídos pelo próprio Cristo"; "dizem que os Sacramentos foram só instituídos para nutrirem a fé"; ..."Deus está dentro de nós e agitados por ele nós nos inflamamos. Deste modo é que se deve explicar a origem da inspiração dos livros sagrados". ...a Igreja é um parto da consciência coletiva"; ..."dizem que quando a Igreja condena erros, não pode de maneira nenhuma exigir que os fiéis aceitem seus juízos com assentimento interno"; ...dizem que a interpretação dada pela Igreja aos Livros Sagrados da Bíblia, conquanto não se deva desprezar, está, no entanto, sujeita a mais apurado juízo e à correção dos exegetas"; ... "ensinam que, pelas sentenças eclesiásticas fulminadas contra a exegese livre e mais adiantada, pode se concluir que a fé proposta pela Igreja está em contradição com a história e que os dogmas católicos não podem realmente harmonizar-se com as verdadeiras origens da religião cristã"; ... "afirmam os modernistas que o Magistério da Igreja não pode determinar o sentido genuíno das Sagradas Escrituras, nem mesmo por meio de definições dogmáticas"; ... "dizem que a inspiração divina não se estende a toda a Sagrada Escritura a ponto de preservar de todo erro todas e cada uma de suas partes"; ... "afirmam que em diversas narrações, os Evangelistas referiram não tanto o que era verdade, quanto o que, embora falso, julgaram ser mais proveitoso a seus leitores"; ... dizem os modernistas que os exegetas heterodoxos (= hereges) interpretaram o verdadeiro sentido das Escrituras com mais fidelidade do que os exegetas católicos"; ...os modernistas ensinam que os dogmas, que a Igreja dá como revelados, não são verdades caídas do céu; são uma certa interpretação de fatos religiosos, que o espírito humano conseguiu alcançar à custa de trabalhosos esforços"; ... "ensinam que os dogmas da fé devem ser considerados somente segundo o sentido prático, isto é, como norma de proceder e não como norma de crer"; ... "dizem que a constituição orgânica da Igreja não é imutável: a sociedade cristã assim como a sociedade humana está sujeita à perpétua evolução"; ... ensinam que a verdade deve mudar com os tempos como o homem, pois que evolui com ele, nele e por ele"; ... "ensinam os modernistas que Cristo não ensinou um corpo fixo de doutrina aplicável a todos os tempos e a todos os homens; mas sim inaugurou certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares"; ... "dizem que a Igreja mostra-se incapaz de defender eficazmente a moral evangélica, porque adere obstinadamente a doutrinas imutáveis, que não podem conciliar-se com o progresso moderno"; ... ensinam também que o progresso das ciências exige que se reformem os conceitos da doutrina cristã sobre Deus, a Criação, a Revelação, a Pessoa do Verbo Encarnado e a Redenção"... "ensinam ainda os modernistas que o regime que deve governar a Igreja é o popular ou democrático" ... "por isso, dizem os modernistas, que o povo tem a liberdade de determinar o que achar melhor no seu tempo"; ... e dizem que "seria loucura da parte da Igreja crer que o vivo sentimento de liberdade, ora dominante, retroceda. Reprimindo-o e enclausurando-o, ele transbordará mais impetuoso, destruindo conjuntamente a religião e a Igreja"; ... "falava-se antigamente do temporal sujeito ao espiritual; falava-se de questões mistas, em que a Igreja intervinha como senhora e rainha, porque então se tinha a Igreja como instituída imediatamente por Deus, enquanto autor da ordem sobrenatural. Mas estas crenças, dizem os modernistas, já não são admitidas pela filosofia, nem pela história. Deve, portanto, a Igreja separar-se do Estado, e assim também o católico do cidadão,... e  o católico tem o direito e dever de fazer o que julgar mais oportuno ao bem da pátria, sem levar em conta os ensinamentos e ordens da Igreja"; ... "têm os modernistas por princípio geral, que, numa religião viva, tudo deve ser mutável e deve de fato mudar-se: tudo: o dogma, a Igreja, o culto, os livros sagrados, e até mesmo a fé, se não forem coisas mortas, devem sujeitar-se às leis da evolução. Diz S. Pio X que os modernistas, ao aplicar esta lei da evolução, começam pela fé"; ... quanto a evolução do culto, dizem que o principal estímulo de evolução é a necessidade de se adaptar aos costumes e tradições dos povos". Dizem os modernistas que, para conseguir isto, é necessário resistir uma força conservadora que é a Tradição; e em luta contra esta força conservadora, é preciso promover uma força progressiva que é o progresso; e, assim, se deve introduzir na Igreja o laicato, que é fator de progresso"; ... "afirmam que as consciências individuais, ou pelo menos algumas delas, fazem pressão sobre a autoridade, obrigando-a a capitular e pactuar"; diz São Pio X que "os modernistas consideram isto um dever sagrado"; ... "lamentam que as autoridades (naquele tempo) não lhes prestem ouvidos, porque isto será causa de atraso ao progresso dos espíritos, mas asseveram que há de vir a hora de se romperem as barreiras, porque as leis da evolução poderão ser refreadas, porém nunca poderão ser quebradas"; ... E São Pio X cita o Papa Pio IX : "Estes inimigos da Revelação divina, que exaltam com os maiores louvores o progresso humano, desejariam com temerário e sacrílego atrevimento, introduzi-lo na Religião Católica, como se a mesma não fosse obra de Deus, mas obra dos homens, ou algum sistema filosófico que se possa aperfeiçoar por meios humanos" (Enc. "Qui pluribus" de 9 de novembro de 1846). Os modernistas, continua São Pio X, querem a inovação da filosofia, particularmente nos Seminários, de tal modo que acabem com a filosofia escolástica";  ... "e seja ensinada aos jovens a filosofia moderna"; "quanto ao culto, dizem que se devem diminuir as devoções externas e proibir que aumentem"; ... "dizem que as Congregações Romanas devem ser transformadas; e antes de todas as do Santo Ofício e do Índice.(Esta última era para condenar os livros maus). Em Moral estão pelo Americanismo, dizendo que as virtudes ativas devem antepor-se às passivas. Querem que se acabe a suntuosidade do culto"; ... "E finalmente não falta entre eles(=os modernistas) quem, obedecendo muito de boa mente aos acenos dos seus mestres protestantes, até deseje ver suprimido do sacerdócio o sacro celibato" - E São Pio X conclui: "Que restará, pois, de intacto na Igreja, que não deva por eles ou segundo seus princípios ser reformado?
  Gostaria de acrescentar aqui as palavras do Professor Sr. Roberto de Mattei: "Para eles (os progressistas) o modo com que se fala e se age é doutrina que se faz praxe. A reforma litúrgica (post-conciliar) acrescentou, portanto, uma nova "lex orandi" que comportava uma nova "lex credendi".
     Oh! São Pio X! realmente não ficou nada intacto!!! Se a Igreja não fosse divina já estaria destruída pelos fundamentos! Mas também, por isto mesmo, o sair desta crise sem precedentes, será uma das maiores provas desta mesma divindade da Igreja.  Podemos comparar esta crise a uma eclipse solar total ou quase. Mas temos certeza inabalável pela fé que, como toda eclipse, esta crise passará.
  Uma vez São Pio se bilocando, foi visto rezando diante do corpo de São Pio X na Basílica de São Pedro em Roma. Que estaria ele pedindo?! Podemos conjecturar... 
   São Pio X, rogai por nós! São Pio, rogai por nós!
 

CELIBATO SACERDOTAL - PAPA PAULO VI - ( III )

SIGNIFICADO ESCATOLÓGICO DO CELIBATO SACERDOTAL

   "O reino de Deus, que não é deste mundo (S. Jo. XVIII, 36), está nele presente em mistério e atingirá a sua perfeição com a vinda gloriosa do Senhor Jesus. A Igreja constitui aqui na terra, o germe e o início deste reino; e, ao passo que vai crescendo lenta mas seguramente, aspira pelo reino perfeito e ambiciona, com todas as forças, unir-se com o Seu Rei na Glória.
   O povo de Deus peregrino encontra-se, na história, a caminho da sua verdadeira pátria (Filp. III, 20), onde se manifestará em plenitude a filiação divina dos remidos (1 Jo. III, 2) e onde brilhará definitivamente a beleza transfigurada da Esposa do Cordeiro Divino.
   O nosso Senhor e Mestre disse que "na ressurreição... nem os homens terão mulheres, nem as mulheres maridos, mas serão como anjos de Deus no céu" (S. Mat. XXII, 30). No mundo do homem, tão absorvido nos cuidados terrenos e dominado bastante vezes pelos desejos da carne (cf. 1 Jo. II, 16), o precioso dom divino da continência perfeita, por amor do reino dos céus, constitui exatamente um sinal particular dos bens celestes", anuncia a presença na terra dos últimos tempos da salvação (cf. 1 Cor. VII, 29-31) com o advento dum mundo novo, e antecipa, de alguma maneira, a consumação do reino, afirmando os valores supremos do mesmo, que um dia hão de brilhar em todos os filhos de Deus. É, por isso, testemunho da tensão necessária do Povo de Deus orientada para a meta última da peregrinação terrestre e é incitamento para todos erguerem o olhar às coisas do alto, onde o Senhor está sentado à direita do Pai e onde a nossa vida está escondida com Cristo em Deus, até se manifestar na glória (Co. III, 1-4).
    Muitos com a  melhor das intenções, acham que, com a extinção do Celibato Sacerdotal, aumentaria o número dos padres. A este respeito diz o Papa Paulo VI: "Nosso Senhor Jesus Cristo não temeu confiar a um punhado de homens, que todos teríamos julgado insuficientes tanto em número como em qualidade, o encargo imenso da evangelização do mundo até então conhecido; e ordenou a essa "pequena grei" que não tivesse receio (S. Luc. XII, 32), porque alcançaria com Ele e por Ele, a vitória sobre o mundo (S. Jo. XVI, 33) graças a constante assistência que lhe daria (S. Mat. XXVIII, 20). Advertiu-nos também Jesus de que o Reino de Deus possui uma força íntima e secreta, que o faz crescer e chegar a messe sem que o homem saiba como (S. Marc. IV, 26- 29). Essa messe do Reino de Deus é grande, e os operários ainda são poucos, como ao princípio; ou por outra, nunca chegaram a ser tão numerosos, que se pudessem dizer suficientes segundo os cálculos humanos. Mas o Senhor do Reino exige que se reze, para que o Dono da Messe mande operários para o seu campo (S. Mat. IX, 37-38). Os planos e a prudência dos homens não podem sobrepor-se à misteriosa sabedoria daquele que, na história da salvação, desafiou a sabedoria e o poder do homem com a sua insensatez e fraqueza ( 1 Cor. I, 20- 31).
   Gostoria de terminar este assunto com uma belíssima citação que o papa Paulo VI faz do Beato João XXXIII: "Amargura-nos saber ... que alguns fantasiam sobre o desejo ou a conveniência, que haveria para a Igreja Católica, em renunciar ao que por tantos séculos foi e continua a ser uma das mais nobres e mais puras glórias do sacerdócio. A lei do celibato eclesiástico, com o empenho de fazê-la prevalecer, continua a evocar as batalhas dos tempos heróicos, quando a Igreja teve que lutar e venceu, evoca o triunfo do seu trinômio glorioso, que será sempre emblema de vitória: IGREJA DE CRISTO - LIVRE, CASTA E CATÓLICA".

"QUEM SE APROXIMA DO SACERDÓCIO, DEVE SER PURO COMO SE ESTIVESSE NO CÉU".  (S. João Crisóstomo).

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A "Nova Igreja" prega contra a família

   Extraído do livro "A TEMPO E CONTRATEMPO" de autoria do saudoso Gustavo Corção.
   Artigo escrito em 20 de abril de 1968.



    EM meu último artigo referi-me a um livro publicado pelo ISPAC (Instituto Superior de Pastoral Catequética) intitulado Os Jovens e a Fé, e disse que esse livro cuidava de tudo, até do fogo-fátuo dos cemitérios, mas omitia uma Coisa muito importante. Deixei o suspense. O que é, o que é que os novos padres, que se dizem especialistas em jovens, esquecem de mencionar, e quando mencionam é para agredir? Hoje trago a resposta: é simplesmente a FAMÍLIA.

   Sim, senhores, neste livro de duzentas páginas não há um só tópico para tentar, ao menos timidamente, um ajustamento do moço dentro da família em que nasceu, e uma preparação para a família que venha a fundar. Todos nós sabemos o papel de destaque que a família tem nas preocupações e nos ensinamentos da Igreja. Durante dois mil anos todos nós católicos ensinamos que a Família é a célula da sociedade, o seminário onde se preparam os homens para a Cidade ou para a Igreja. Hoje se diz que os jovens devem "fazer opções livres" sem se "deixarem enquadrar".

   Sim, a doutrina clássica, que qualquer homem do povo conhece e respeita, não é mais conhecida e respeitada pelos pregadores da "Nova Igreja". Em todo livro editado pelo ISPAC o jovem é visto no espaço, sem raízes, ou então é convidado a enquadrar-se nos grupos de segregação etária, onde o moço fica privado das ricas experiências do mundo e da vida, e de certo modo fixado na imaturidade.

   Poucas são, nesse livro, as referências aos pais, e essas mesmas em termos de conflito, como se houvesse um essencial antagonismo entre as gerações. Da Família, como instituição, não encontrei uma linha. E é contra esse desserviço prestado aos moços, à sociedade e à Igreja que eu clamo.

   Domingo passado, no sermão, um padre de Botafogo me fulminou, me arrasou, me achatou, por estar eu "combatendo os padres que cuidam dos jovens". Não é verdade. Eu não combato os padres que zelam pelos jovens, combato sim, e combaterei enquanto persistir o fenômeno, e enquanto os dedos tiverem força para calcar as teclas da máquina, o novo padre que entra no mimetismo dos jovens, com mentalidade de adolescente, para ajudar o mundo a desagregar a Família.

   Vimos há dias alguns eclesiásticos excitados tomarem parte nas desordens feitas por estudantes visivelmente teleguiados pelos comunistas, que nem se deram ao trabalho de disfarçar tal comando. Essa atitude foi imprudente e nociva a todos os altos valores que deviam prezar. Ouso entretanto dizer que mal maior fazem os que pregam contra a instituição familiar. O veneno corrosivo que espalham é muito mais grave do que a desordem social, porque atinge as almas nos mais profundos afetos. E, no entanto, por incrível que pareça, aí está o fenômeno: padres, organizações eclesiásticas, a serviço da desagregação da Família. 

   O livro editado pelo ISPAC é antes de tudo bobo. Tem frases assim: "Hoje o homem é capaz de conduzir a história, ao passo que ontem a história o conduzia (pág. 99), à qual, sem hesitar, eu daria o prêmio Nobel da estupidez do ano. Adiante, na página 121, encontramos o sucedâneo da família no capítulo intitulado A PROGRESSIVA SOCIALIZAÇÃO DOS JOVENS. Que quererá dizer isto? O autor responde: "Damos a entender por socialização que os jovens abandonem, cada vez mais, os traços próprios de sua individualidade, e o individualismo de seu impulso, em benefício de um nivelamento e de uma ação no grupo e pelo grupo".

   Não discuto hoje a imbecilidade desta frase escrita em mau francês e traduzida em português ainda pior. Obstino-me na reclamação: e a Família? E a mãe? E o pai? E a casa, os irmãos, as paredes, o chão em que nasceram, o teto que os protege?

   Tempos atrás apareceu no Rio um dominicano francês que escreveu um artigo contra a família, instituição burguesa. Foi muito festejado pelos espertinhos da UNE que nesse tempo tiravam milhões das tetas da Entidade Máxima. Escrevi eu um artigo contra o dominicano que supunha ser um idiota isolado. Hoje tornou-se legião esse tipo de frade ou de padre, e tornou-se trivial o sermão contra o Quarto Mandamento de Deus. Ouvi eu mais de dez. Um jovem padre excitado ensinava do púlpito: "Os jovens têm de fazer suas experiências próprias, e digo ainda que doa nos sacrossantos ouvidos dos adultos".

   Outro, ainda mais excitado, num sermão de domingo publicou um conflito caseiro onde evidentemente o jovem tinha toda a razão e mais alguma. E acrescentava esta nota pitoresca: "Ontem o pai veio me procurar, um pai com cara de palhaço". Perto daqui, no Largo do Machado, havia uma missa especial para jovens. Quem acaso entrasse na igreja para rezar, era convidado a se retirar. Dizia o padre, ao microfone, que uma pessoa de idade imprópria estava presente e era convidada a retirar-se.

   Numa reunião de jovens, quando apareceu a mãe de um dos garotos, com vontade de ver como era a dita reunião, o padre, irritado, disse à senhora que não havia ali lugar para espiões. Tudo isto parece mentira, mas infelizmente o que pareceria monstruosa mentira anos atrás tornou-se verdade hoje.

   Todos nós sabemos que os moços estão hoje vivendo uma situação dramática, justamente por causa da desagregação familiar. Ora, o que dói a mais não poder é ver um dos nossos a trabalhar com tanto entusiasmo na mesma direção da desagregação familiar. Não pararei, ainda que em todos os bairros e em todos os domingos me injuriem os padres da bossa revolucionária.

   Em nome da verdade exijo que digam publicamente que não é o zelo pelos jovens que eu combato, e sim a demagogia, a exaltação cheia de equívocos, e sobretudo a atividade desagregadora da família.


   Nota: Vemos pelo presente artigo que eclesiásticos já vêm semeando os ventos comunistas da destruição da Família, já há muito tempo.  Mas o que dói a mais não poder é constatar que a tempestade desta destruição está levantada por gente dos altos escalões eclesiásticos. 

    

segunda-feira, 18 de abril de 2016

UMA PÁGINA DO PAPA PIO XI - Encíclica "Caritate Christi Compulsi" (1932)

É mais uma encíclica que o Papa Pio XI escreveu contra a Crise Social e Religiosa da Humanidade.
   "Valendo-se da crise econômica atual, os cabeças desta campanha de ateísmo (levem o nome de comunistas ou outro nome qualquer que seja ) esforçam-se, com satânica dialética, por fazer crer às multidões famintas que Deus e a religião são a causa desta miséria universal.
    Como recurso para debelar a crise o Papa Pio XI lembra a todo Orbe Católico a necessidade da oração e da penitência.
     "A obra piedosa outra nenhuma foram feitas, pelo Senhor Onipotente, promessas tão abundantes, tão universais e tão solenes, quais à oração: "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á; porque todo o que pede recebe; e o que busca acha; e ao que chama, abrir-se-lhe-á" (S. Mat. VII, 7 e 8). "Em verdade, em verdade vos digo: "Tudo o que pedirdes ao Meu Pai em Meu nome, Ele vo-lo dará" ( S.Jo.XVI, 23). Cita também São Paulo: "Exorto-vos, pois, antes de mais nada, que se façam súplicas, orações, petições, ações de graças por todos os homens: pelos reis e por todos os que estão constituídos em dignidade, para que vivamos vida sossegada e tranqüila, em toda piedade e honestidade; pois isto é bom e agradável diante de Deus, Nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade" ( 1 Tim. II, 1-4).
    O outro recurso apresentado pelo Papa para se debelar a crise é a PENITÊNCIA.
   "À oração é mister que aconpanhe a penitência, o espírito e a prática da penitência cristã. Assim no-lo ensina o Divino Mestre, quando iniciou sua pregação pela penitência: "Jesus começou a pregar e a dizer: fazei penitência" (S. Mat. IV, 17). Assim no-lo ensina toda a Tradição cristã, a história de toda a Igreja nas grandes calamidades, nas grandes tribulações da Cristandade... Quanto mais se debilita a fé em Deus, tanto mais se ofusca e desaparece a idéia do pecado original e da primeira revolta do homem contra Deus. Motivo é este por que se perde sempre mais a noção da necessidade da penitência e da expiação.
   Nós, ao invés, Veneráveis Irmãos, por obrigação que decorre do nosso múnus pastoral, devemos manter em sua lídima significação e genuína nobreza e, mais ainda, em sua prática e urgente aplicação na vida cristã. A isso nos move a própria defesa de Deus e da Religião que defendemos, já que a penitência, por sua natureza, é um reconhecimento e restauração da ordem moral no mundo, a qual se fundamenta na lei eterna, ou seja, no Deus vivo. Quem presta satisfação a Deus pelo pecado reconhece a santidade dos princípios supremos da moralidade, sua força inerente de obrigação, a necessidade de punição contra a violação dos mesmos.
   Ter-se pretendido separar a Religião da moral, minando, assim, toda base sólida de qualquer legislação, é, sem dúvida, um dos mais perigosos desmandos do nosso tempo. Hoje, quando o ateísmo está se infiltrando nas classes populares, as consequências de tal erro se tornam palpáveis e entram no rol das realidades mais tristes. Em lugar das leis da moral que juntamente com a perda da fé em Deus se vão esquecendo, impõe-se a violência da força bruta, que pisa todo direito...
   "E não há, acaso, Venerávies Irmãos, em semelhante espírito de penitência, doce mistério de Paz? "Não há paz para os ímpios" (Isaías, XLIII, 22), diz o Espírito santo, porque vivem em luta constante e oposição à ordem estabelicida pela natureza e por seu Criador. Somente quando se restabelecer esta ordem; quando todos os povos, fiel e espontaneamente, a receberem e praticarem; somente quando as constituições internas dos povos e as relações internacionais e externas se assentarem sobre esta base; somente então será possível uma paz estável sobre a terra...
   E mesmo para os indivíduos, a penitência é fundamento e portadora de paz verdadeira, desprendendo-os dos bens terrenos e perecíveis, elevando-os para os bens eternos, e proporcionando-lhes, uma paz que o mundo não poderá dar, com todas as suas riquezas e prazeres. Um dos cânticos mais serenos e jubilosos que jamais se ouviu neste vale de lágrimas não é, porventura, o CÂNTICO DO SOL de São Francisco de Assis? Pois bem. Quem o compôs, quem o escreveu, quem o cantou, era um dos maiores penitentes, o Poverello de Assis, que absolutamente nada possuia na terra, e levava em seu corpo extenuado os estigmas dolorosos do Seu Senhor Crucificado. Por conseguinte, a oração e a penitência são os dois espíritos poderosos que Deus nos mandou em nossos dias, para que reconduzamos a Ele a humanidade desgarrada, errante e sem guia; são (oração e penitência) os espíritos que devem dissipar e reparar a causa primeira e fundamental de toda revolução e rebeldia: a rebelião do homem contra Deus...
 "E que ocasião mais oportuna poderíamos indicar-vos, Veneráveis Irmãos, para essa união de preces e atos de reparação, do que a próxima Festa do Sagrado Coração de Jesus? O espírito próprio desta solenidade é precisamente espírito de reparação amorosa. E por isso quisemos que todos os anos, perpetuamente, nesse dia, se realizassem, em todas as igrejas do orbe, atos públicos de desagravo por tantas ofensas com que se fere o Coração Divino...Derramem naquele Coração misericordioso que experimentou todas as agruras do coração humano, todas as mágoas; confirmem, em sua presença, a firmeza de sua fé, a garantia de sua esperança, o ardor de sua caridade. Interpondo o valioso patrocínio de Maria Santíssima, Medianeira de todas as graças; invoquem-no para suas famílias, para sua Pátria e pela Igreja; invoquem-no para o Vigário de Cristo na terra e para os demais Pastores que Conosco participam do peso enorme do governo espiritual das almas; invoquem-no por todos os irmãos na fé, por todos os irmãos extraviados, pelos incrédulos, pelos infiéis, pelos próprios inimigos de Deus e da Igreja, para que se convertam, numa palavra, para toda a pobre humanidade".
  NOTA BENE: Estamos, que Deus nos livre, à beira de uma nova crise econômica e o que frequentemente ouvimos e vemos, é terrorismo e guerras. Só o modernismo vive de novidades. Na Santa Igreja é sempre o mesmo espírito de oração e penitência. E o Papa Pio XI acaba de nos abrir o melhor precedente que devemos seguir. O Papa  nos mostra inclusive já o espírito de oração e penitência de São Francisco de Assis. Não sejamos ingênuos: sigamos de toda alma este verdadeiro espírito de São Francisco de Assis, espírito este que amparou a Igreja que, na época, estava ameaçando cair. Avivemos, outrossim, nossa devoção ao Sagrado Coração de Jesus.
  

"PADRES DE CAMPOS" - NOSSA PEQUENA HISTÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA DA IGREJA

Extraído de "ONTEM HOJE SEMPRE", Campos, novembro/2001 - janeiro de 2002  -  nº 66.

   A Igreja Católica aqui na terra é militante, porque está sempre em combate contra os inimigos de Deus e das almas. internos e externos, pecados e heresias.
   Tendo apenas saído das perseguições romanas dos três primeiros séculos, a Igreja teve que lutar contra as grandes heresias trinitárias e cristológicas que apareceram em seu seio.
   Mesmo no apogeu da cristandade medieval, época de grandes santos, não faltaram grandes heresias, que exigiram intensa vigilância da parte da Igreja.
   Como resultado da decadência dos costumes do Renascimento, decadência moral que atingiu todos os níveis do universo cristão, desde o povo simples até a mais alta hierarquia, surgiu o protestantismo - a pseudo-reforma - que fez e faz ainda grandes estragos no povo cristão, com erros principalmente sobre o sacerdócio, a Eucaristia e o sacrifício da Missa. A verdadeira reforma foi feita pela Igreja com o Concílio de Trento e o zelo dos santos, tais como Santo Inácio e a Companhia de Jesus, São Carlos Borromeu e a fundação dos seminários, São Pio V e a codificação de Liturgia.
   No final do século XVIII, veio a Revolução Francesa coma proclamação dos direitos do homem independente dos direitos de Deus, com o laicismo dos Estados e as liberdades modernas, com forte perseguição à Igreja.
   No início do século XX, o modernismo na Igreja, resumo de todas as heresias, foi condenado por São Pio X. No campo social surgia o comunismo, fruto da filosofia marxista, destruidor da sociedade cristã e grande perseguidor da Igreja.
   Duas guerras mundiais serviram para maior laicização e descristianização da sociedade.
   E muitos erros, já condenados pela Igreja, começaram a se reintroduzir nas fileiras católicas. O Santo Padre Pio XII renovou a condenação desses erros, em várias encíclicas, especialmente a "Humani Generis" e, no campo litúrgico a "Mediator Dei" (1947).
   Em 1948, foi nomeado bispo de Campos Dom Antônio de Castro Mayer, professor, doutor em Teologia, formado pela Universidade Gregoriana de Roma, muito fiel ao Magistério da Igreja. Dom Antônio através dos seus sermões, artigos e sobretudo brilhantes Cartas Pastorais, alertava continuamente seus padres e diocesanos contra os erros atuais, já condenados pela Igreja, que se infiltravam por toda a parte. E nesse espírito de fidelidade à Igreja Dom Antônio formava seus padres.
   Tendo participado do Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965, Dom Antônio procurou dar aos padres e fiéis a legítima interpretação do "aggioramento" desejado pelo Papa João XXIII, advertindo contra os que, aproveitando-se do Concílio,(N. do blog: eu diria:  apoiando-se nele)  procuravam fazer reviver na Igreja o modernismo e seu conjunto de heresias, caracterizando o que foi denunciado pelo Papa Paulo VI como a "autodemolição da Igreja".
   Após o Concílio, grande crise, sem precedentes, instalou-se na Igreja, com apostasias em grande escala de padres e religiosas, dessacralização da liturgia, laicização do clero, diminuição de vocações, mundanização dos seminários, ecumenismo irenista, sincretismo religioso, etc. Como disse o Papa João Paulo II: "... foram espalhadas a mãos cheias idéias contrárias à verdade revelada e sempre ensinada; propagaram-se verdadeiras heresias nos campos dogmático e moral... também a Liturgia foi violada" (Discurso no Congresso das Missões, 6/2 1981).
   No meio da crise geral, Dom Antônio procurou preservar a sua Diocese na verdadeira doutrina católica, formando sacerdotes e orientando os fiéis.
   Após o Concílio foram introduzidas algumas alterações na Liturgia de Missa, que Dom Antônio aceitou docilmente e adotou na Diocese. Mas alguns sintomas de que a reforma litúrgica não caminhava bem causavam insatisfação. O Cardeal Antonelli, membro da Comissão Pontifícia para a Reforma Litúrgica, confessa que a reforma estava sendo feita por "pessoas... avançadas nas trilhas das novidades..., sem nenhum amor e nenhuma veneração por aquilo que nos foi transmitido" (Il Card. Ferdinando Antonelli e gli sviluppi della riforma liturgica dal 1948 al 1970 - Studia Anselmiana - Roma).

   Em 1969, veio o Novus Ordo Missae do Papa Paulo VI, que não deixou de causar perplexidades em muitos católicos, inclusive em personalidades  importantes, com alguns cardeais da Cúria Romana.
   Com perplexidades semelhantes, Dom Antônio escreveu ao Papa Paulo VI, expondo sua dificuldade de consciência de aceitar a nova Missa. Eis um trecho de sua carta: "Tendo examinado atentamente o "Novus Ordo Missae"... depois de muito rezar e refletir, julguei de meu dever, como sacerdote e como bispo, apresentar a Vossa Santidade, minha angústia de consciência, suplicando, humilde e respeitosamente, a Vossa Santidade, se digne... autorizar-nos a continuar no uso do "Ordo Missae" de São Pio V, cuja eficácia na dilatação da Santa Igreja e no afervoramento de sacerdotes e fiéis, é lembrada, com tanta unção, por Vossa Santidade" (Carta de 12 de setembro de 1969).
   Desse modo, embora Dom Antônio não obrigasse ninguém - e houve padres  que adotaram a missa nova - (N. do blog:  não havia como não tolerar) se conservou, oficialmente na Diocese de Campos, na grande maioria das paróquias, a Missa tradicional, dita de São Pio V, e toda a orientação tradicional do apostolado.
   Em 1981, Dom Antônio foi substituído na sede episcopal de Campos. Os bispos que o sucederam não eram da mesma orientação. Tendo sido removidos das paróquias, seguidos por milhares de fiéis que desejavam a Missa e a orientação tradicional da Igreja, os "os padres de Campos" se viram na necessidade de atender aos fiéis que os procuravam, e continuaram, em novas igrejas e capelas, a ministrar-lhes os sacramentos. Foi criada, assim, a União Sacerdotal São João Maria Vianney. E, sem nenhuma intenção de fazer qualquer cisma na Igreja, solicitaram aos Bispos da Fraternidade São Pio X que sagrassem um dos seus padres, Dom Licínio Rangel, para atender aos fiéis da linha tradicional. Bispo sem jurisdição, apenas com o poder de Ordem, sem intenção de fazer uma diocese paralela (1991). É claro que essa situação de emergência não poderia durar indefinidamente. Todos ansiavam para que tudo voltasse ao normal.
   No Jubileu do ano 2000, os "padres de Campos" participaram da peregrinação do Ano Santo em Roma, junto com a Fraternidade São Pio X.
   A partir de então, por ordem do Santo Padre o Papa João Paulo II, o Cardeal Dario  Castrillón Hoyos, prefeito da Congregação para o Clero, começou as conversações em vista de uma regularização jurídica da situação dos padres e fiéis da Tradição.
   Tendo os padres da União Sacerdotal São João Maria Vianney escrito uma carta ao Santo Padre pedindo que fossem "aceitos e reconhecidos como católicos", o Papa lhes respondeu acolhendo-os benevolamente, erigindo, no dia 18 de janeiro de 2002, a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, com Bispo próprio e sacerdotes, com jurisdição pessoal sobre os fiéis, com o direito de ter a Missa Tradicional como rito próprio, suspendendo todas as censuras e penas nas quais eventualmente pudessem ter incorrido, regularizando dessa maneira a sua situação jurídica dentro da Igreja Católica, reconhecendo a sua pertença a ela e respeitando as sua realidade eclesial e suas características peculiares."

Para a II Conferência Geral do CELAM

Artigo extraído do livro "A TEMPO E CONTRATEMPO" de autoria de Gustavo Corção.
Artigo escrito em 13 - 06 - 1968


   UM padre estrangeiro que vem pregar no inflamável Nordeste a "revolução social indispensável", ou a arrancada para a socialização, merece a nossa atenção; e até merece nossa obsessão. Por isso volto ao Padre Comblin, e às suas notas distribuídas como documento básico para a II Conferência Geral do CELAM a realizar-se em Bogotá em 16 de julho próximo. Será preciso tornar a dizer que esse "padre" belga é hóspede do Arcebispo de Olinda e Recife? 

   Continuando a leitura do documento, encontramos à página 6 uma amena descrição da CONQUISTA DO PODER. O papel que tenho na mão não apresenta chamuscos de fogo e manchas de sangue, é uma pacatíssima cópia termofax onde se lê uma ainda mais pacatíssima, se me permitem, propaganda comunista. 

   Em certa altura, o autor se queixa das circunstâncias históricas em que a Igreja - sempre esta estouvada! - foi "um dos fatores de eliminação do comunismo". E logo a seguir: "Acham que isso foi uma grande vitória".

   Em outro lugar, diz o autor das lições endereçadas aos bispos do Brasil: "Será preciso fazer alianças, entrar em compromissos, sujar as mãos pelas alianças sujas". Observe o leitor que excelente programa nos traz este padre belga. Devemos sujar as mãos. Com quê?

   Lembro-me aqui da definição que Bernanos dava da História: "un peu plus de sang, un peu moins de m.; un peu plus de m.; un peu moins de sang". Em qual das duas substâncias deveremos, nós católicos (vós bispos!), sujar as mãos?

   Em outro tópico, intitulado SITUAÇÃO INTERNACIONAL o "padre" Comblin, hóspede do Arcebispo de Olinda e Recife, parte da seguinte constatação que se tornou para ele bem clara na conferência da Nova Déli: "as nações desenvolvidas estão bem decididas a nada fazer para acelerar o desenvolvimento das demais".

   Mas em outro tópico, na última página das diretrizes que os bispos devem seguir em Bogotá, o "padre" belga diz: "A importação de sacerdotes, religiosos e leigos, assim como a aceitação de capitais estrangeiros criou uma série de instituições dependentes de outras igrejas (...). A Igreja tornou-se colonial (...). Seria oportuno interromper a invasão de sacerdotes estrangeiros, cujo número já é excessivo".

   Peço ao leitor que detenha a leitura e dedique uns minutos de meditação a esse abismo de impostura e a esse enredo de contradições com que os falsos profetas querem incendiar nosso pobre Brasil. Como se queixa ele da falta de ajuda estrangeira, e logo depois nos diz que ela já é excessiva?

   Salta aos olhos que a única coisa objetiva que esse tipo de pregador deseja é a confusão, a anarquia, e finalmente a abundância daquelas duas substâncias a que acima nos referimos. Para mim esse tópico tresanda a uma insuportável torpeza porque sempre, desde que entrei na Igreja, tive pensamentos de ação de graças pelos padres estrangeiros que encontrei no caminho da vida.

   Lembro-me logo do bom Frei Pedro Sinzig, que foi o primeiro a trazer em minha pobre casa o Corpo de Deus; lembro-me depois de muitos outros que amei e admirei e a quem devo tanto. E ainda hoje agradeço a Deus o bom vigário de minha paróquia.

   Como quer esse belga expulsar do Brasil os portadores da palavra de Deus, que prolongam a travessia de Cristóvão Colombo, o cristóforo que atravessou as águas para trazer a cruz ao Novo Mundo? Como ousa deitar no papel e entregar aos senhores Bispos do Brasil tamanha enormidade?

   Mas agora vejo o "lado positivo" ou a "mensagem" destas notas do "padre" Comblin: apliquemos a ele mesmo, belga, estrangeiro, o princípio do anticolonialismo eclesiástico.

   Sim, na verdade há padres estrangeiros que se tornaram excessivos e indesejáveis em nosso território. O Padre Comblin é um deles. E aqui lhes digo, meus caros leitores, o que eu faria hoje, agora, se fosse Presidente da República.

   Não saberia responder o que faria amanhã para o desenvolvimento, para a educação, a agricultura e para a fazenda ou o planejamento. Declaro, com a maior sinceridade, minha generalizada inépcia em todas essas matérias; mas uma coisa pequenina eu faria, se me dessem, como no romance de Mark Twain, o poder do Presidente por quinze minutos apenas: mandaria de volta para seu torrão natal esse padre verdadeiro ou falso que quer incendiar o Brasil, e aproveitaria a tinta para assinar uns dois ou três processos de expulsão do país relativos a padres que declaram desejar para o Brasil uma "revolução etária" como o chienlit de Paris.

   Mas a chave de ouro das instruções que o padre belga hospedado pelo Arcebispo de Olinda e Recife dirige ao episcopado brasileiro é esta: "A independência das dioceses, das paróquias e das províncias religiosas devem ser combatidas".

   Estamos num platô da ascensão progressista. Ficaram para trás todas as instituições de direito divino derrubadas pelos inovadores; a própria Igreja de Cristo, como velha prostituta desprezada, ficou também para trás ("é preciso romper com o passado!"), e diante do olhar extasiado do "novo padre" progressista, a perder de vista, se desenrola a paisagem humana, os campos e as cidades... e então,, a voz do inimigo do gênero humano lhe sussurra aos ouvidos: "Eu te darei tudo isto se, prostrado aos meus pés, tu me adorares"

                                                                                  15-6-68

Observação: O antigo e extinto "Advogado do Diabo" nos processos de beatificação e canonização teria se baseado neste artigo do  escritor católico - Gustavo Corção - para obstar a beatificação do "caridoso" D. Hélder Câmara que gentilmente hospedava o "padre" Comblin. 
  Agora, não o "Advogado do Diabo" mas o Próprio,  o Inimigo do gênero humano terá dito: D. Hélder deve ser canonizado porque acolheu meu grande colaborador Comblin!!! e D. Vital deveria ter sido excomungado como foram Dom Antônio de Castro Mayer e Dom Lefebvre. 
   É obvio que "canonização" no intento do Pai da mentira significa que o agraciado deve ser proclamado como lutador heroico em prol do comunismo, da maçonaria e do progressismo. 

Estranhas declarações

Artigo extraído do livro "a TEMPO E CONTRATEMPO" escrito por Gustavo Corção.

   A EXPERIÊNCIA secular ensina que, depois de certo tipo de erro, as explicações só servem para agravá-lo. Diz-se, então, que a emenda saiu pior do que o soneto. E foi precisamente isto que se verificou no caso dos sonetos improvisados pelo Padre Comblin: seus companheiros de convicções ou de lutas produziram emendas visivelmente desalinhavadas e ainda mais comprometedoras do que a peça inicial.

   Consideremos, por exemplo, o que disse à imprensa em Recife, Monsenhor Marcelo Carvalhera, Diretor do Instituto de Teologia do Recife e Vigário Episcopal da diocese. Entre outras coisas, elucidou que o documento divulgado, em que o Padre Comblin pregava uma arrancada revolucionária para a conquista do poder, destinava-se somente aos teólogos. E aí está o que vem agravar a situação.

   Até ontem imaginávamos todos que o palavrório do Padre Comblin pertencesse ao revolucionarismo barato e inofensivo que se ensina escancaradamente no Colégio do Brasil, nas missas dominicais e nas colunas ocupadas pela intelligentzia que se julga obrigada a um socialismo em falsete para compensar a macia futilidade da vida de seus membros. 

   Seria mais um papel das esquerdas, mais um xerox ou termofax, mais um fazer-de-contas que estamos tramando uma revolução perto da qual a russa empalidecerá. A facilidade com que me veio às mãos o programa do Padre Comblin parecia-me a sólida garantia de sua ineficácia, trazia-me tranquila certeza de seu caráter estratosférico e bocó. 

   Agora vejo, aterrado, que tenho agentes habilíssimos, e que só por uma requintada trama de operações consegui obter, quase no dia seguinte, o papel revolucionário que se destinava exclusivamente aos teólogos. E agora sabemos que existe, em Recife e pelos arredores, uma sociedade secreta de teólogos organizada para a conquista do poder, para implantação de novas estruturas neste atrasado país sul-americano.

   Na página 6 do documento secreto destinado exclusivamente aos teólogos de tal sociedade secreta, lemos com terror: "A CONQUISTA DO PODER - Esta supõe a formação de um grupo coerente, unido, capaz de uma ação de conjunto. Provavelmente com lideranças carismáticas". O grupo coerente já se revelou: são os teólogos a que se destinavam as cópias do manifesto; quem será agora o "líder carismático?"

   (...)

   Há ainda uma declaração do mesmo Monsenhor que me deixa pensativo. Diz ele que o documento foi escrito em oito horas, e por isso não pôde sair mais polido. Não imagino bem a natureza que teria tal polimento, nem me deterei neste problema porque todas as potências da alma me levam em outra direção mais fascinante: além de secreto, o documento era urgente.

   Estamos em pleno ambiente revolucionário. Sinto cheiro de pólvora e já ouço o gemido dos feridos trazidos nas padiolas. E por toda a parte só vejo teólogos. Teólogos compondo artigos revolucionários, teólogos estudando planos de batalha, teólogos distribuindo granadas, teólogos empunhando metralhadoras. teólogos nos paióis e nas cantinas.

   O leitor antiquado imaginava, como eu, que o teólogo, habituado a cuidar de problemas transcendentes, sub specie aeternitatis, fosse um homem pausado, sem pressas e sem ardores de combates sanguinários. Agora vemos que, nos arredores de Recife, a teologia desinteressou-se dos mistérios da Trindade e da Encarnação, para cuidar da nova estruturação da América Latina. Creio ter entendido que se trata de Teologia Pastoral. Estranha, estranhíssima pastoral essa que consiste em dispersar o rebanho, e até em entregar as ovelhas aos lobos.

   Um dos mais belos quadros evangélicos - "Eu sou o Bom Pastor..." - se transforma em painel de carnificina. Mas o que mais me intriga em todo esse amontoado de prodígios da humana imbecilidade é a completa falta de motivação para a campanha encorajada pelo teólogo Comblin. Ele e seus adeptos sonham uma espécie de socialização furiosa e total que, além de ser categoricamente desaconselhada por três ou quatro papas, é ainda mais categoricamente desaconselhada pela experiência.

   O mundo inteiro sabe hoje que não é a socialização total o melhor remédio para as paralisias sociais. O mundo inteiro sabe que os países subdesenvolvidos como o nosso são mais vítimas dos maus governos que tiveram do que das espoliações imperialistas. Mas os teólogos das cercanias de Recife não sabem nada, não leram nada, não se lembram de nada. Obnubilados por uma paixão revolucionária que traduz um ressentimento profundo, só pensam em motins, em guerrilhas, em lideranças carismáticas e em metralhadoras. 

   Volto ao espanto anterior. Disse o Padre Comblin que o seu trabalho foi escrito em oito horas, sem tempo para melhor polimento. São doze páginas de espaço um. Imagino facilmente o afã febricitante com que foi escrito, se realmente como dizem, foi escrito em oito horas. E agora torno a perguntar com uma obsessiva e obtusa perplexidade: por que oito horas? Por que essa pressa? Como se explica tamanho nervosismo teológico? De onde vinha a urgência?

   E volto à anterior convicção: o documento, sem as explicações, explicava-se pela onda de tolice que corre mundo; com as explicações torna-se tenebrosamente inexplicável. Sim, ao menos para mim, porque não consigo acreditar que padres de Jesus Cristo tenham tamanha cegueira para não ver o que seria um comunismo sul-americano, ou tamanha perversidade para desejá-lo.

                                                                                                                                     20-6-68
N.B. É bom lembrar que o Padre Comblin era hóspede de D. Helder Câmara. 
Há um provérbio latino que diz: "Asinus asinum fricat". Não traduzo porque o latim é uma língua respeitosa. 



   

domingo, 17 de abril de 2016

RESTAURAR EM CRISTO TODAS AS COISAS

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 17 de abril


"É n'Ele (Jesus Cristo) que temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo as riquezas de sua graça, a qual derramou abundantemente sobre nós, em toda sabedoria e prudência; a fim de nos tornar conhecido o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que tinha estabelecido consigo mesmo, de restaurar em Cristo todas as coisas..." (Efésios I, 7-10).

"... A volta das nações ao respeito da majestade e da soberania divina, por mais esforços, aliás, que façamos para realizá-lo, não advirá senão por Jesus Cristo. De feito, o Apóstolo adverte-nos que ninguém pode lançar outro fundamento senão aquele que foi lançado e que é a Cristo Jesus  (1 Cor III, 11). Só a ele foi que o Pai santificou e enviou a este mundo (S. João X, 36), esplendor do Pai e figura da sua substância (Heb. I, 3), verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem o qual ninguém pode conhecer a Deus como convém, pois ninguém pode conhecer a Deus como convém, pois ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo (S. Mateus XI,  27).
"Donde se segue que restaurar tudo em Cristo e reconduzir os homens à obediência divina são uma só e mesma coisa. E é por isto que o fito para o qual devem convergir todos os nossos esforços é reconduzir o gênero humano ao império de Cristo. Feito isto, o homem achar-se-á, por isso mesmo, reconduzido a Deus. Mas - queremos dizer - não um Deus inerte e descuidoso das coisas humanas, como nos seus loucos devaneios o forjaram os materialistas, senão um Deus vivo e verdadeiro, em três pessoas na unidade de natureza, autor do mundo, estendendo a todas as coisas a sua infinita Providência, enfim legislador justíssimo que pune os culpados e assegura às virtudes a sua recompensa"
"Ora, onde está a via que nos dá acesso a Jesus Cristo? Está debaixo dos nossos olhos: é a Igreja. Diz-no-lo com razão S. João Crisóstomo: 'A Igreja é a tua esperança, a Igreja é a tua salvação, a Igreja é o teu refúgio'. Foi para isso que Cristo a estabeleceu, depois de adquiri-la ao preço do seu sangue; foi para isso que Ele lhe confiou a sua doutrina e os tesouros da graça divina para a santificação e salvação dos homens".
... "Trata-se de reconduzir as sociedades humanas, desgarradas longe da sabedoria de Cristo, reconduzi-las à obediência da Igreja; a Igreja, por seu turno, submetê-las-á a Cristo, e Cristo a Deus. E, se pela graça divina nos for dado realizar esta obra, termos a alegria de ver a iniquidade ceder lugar à justiça, e folgaremos de ouvir uma grande voz dizendo do alto dos céus: Agora é a salvação, e a virtude, e o reino de nosso Deus e o poder de seu Cristo (Apocalipse XII, 10)."
"Todavia, para que o resultado corresponda aos nossos votos, mister se faz, por todos os meios e à custa de todos os esforços, desarraigar inteiramente essa detestável e monstruosa iniquidade própria do tempo em que vivemos e pela qual o homem se substitui a Deus; restabelecer na sua antiga dignidade as leis santíssimas e os conselhos do Evangelho; proclamar bem alto as verdades ensinadas pela Igreja sobre a santidade do matrimônio, sobre a educação da infância, sobre a posse e o uso dos bens temporais, sobre os deveres dos que administram a coisa pública; restabelecer, enfim, o justo equilíbrio entre as diversas classes da sociedade segundo as leis e as instituições cristãs."
"Tais são os princípios que, para obedecer à divina vontade, nós nos propomos aplicar durante todo o curso do Nosso Pontificado e com toda a energia de nossa alma"
(...)
São Pio X indica, a seguir, os meios para formar em todos Jesus Cristo e assim n'Ele restaurar todas as coisas: - Formar Cristo nos sacerdotes; - Daí todo cuidado com os Seminaristas; -Cuidado com os novos Sacerdotes; - Necessidade do ensino religioso; - Fazer tudo isto com caridade cristã; É preciso que todos os fiéis colaborem.
 Formar Cristo nos Sacerdotes.
"Que meios importa empregar para atingir um fim tão elevado? Parece supérfluo indicá-los, tanto eles apresentam à mente por si mesmos. Sejam os vossos [dos bispos] primeiros cuidados formar Cristo naqueles que, pelo dever da sua vocação, são destinados a formá-lo nos outros. Queremos falar dos sacerdotes, Veneráveis Irmãos. Porquanto todos aqueles que são honrados com o sacerdócio devem saber que têm, entre os povos com que convivem, a mesma missão que Paulo testava haver recebido, quando pronunciava esta ternas palavras: 'Filhinhos, a quem eu gero de novo, até que Cristo se forme em vós' (Gálatas IV, 19). Ora, como poderão eles cumprir um tal dever, se eles próprios não forem primeiramente revestidos de Cristo? e revestidos até poderem dizer com o Apóstolo: 'Vivo, já não eu, mas Cristo vive em mim' (Gal. II, 20). 'Para mim, Cristo é a minha vida' (Filipenses I, 21). Por isso, embora todos os fiéis devam aspirar ao estado de homem perfeito, à medida da idade da plenitude de Cristo (Efésios IV, 3), essa obrigação incumbe principalmente àquele que exerce o ministério sacerdotal. Por isto é ele chamado outro Cristo; não somente porque participa do poder de Jesus Cristo, mas porque deve imitar-Lhe a imagem em si mesmo".
"Se assim é, Veneráveis Irmãos, quão grande não deve ser a vossa solicitude para formar o clero na santidade! Não há negócio que não deva ceder o passo a este. E a consequência é que o melhor e o principal do vosso zelo deve aplicar-se aos vossos Seminários, para introduzir neles uma tal ordem e lhes assegurar um tal governo, que neles se veja florescerem lado a lado a integridade do ensino e a santidade dos costumes. Fazei do Seminário as delícias do vosso coração, e não descureis coisa alguma daquilo que, na sua alta sabedoria, o Concílio de Trento, prescreveu para garantir a prosperidade dessa instituição.
Em seguida São Pio X lembra aos bispos algumas advertências das Sagradas Escrituras: 'Não imponhas precipitadamente as mãos a ninguém, e não te faças participante dos pecados dos outros' (1 Timóteo, V, 22).  'Guarda o depósito, evitando as novidades profanas na linguagem, tanto quanto as objeções de uma ciência falsa, cujos partidários com todas as suas promessas faliram na fé' (1 Timóteo VI, 20 ss).

São Pio X conclui sua encíclica lembrando a misericórdia divina: "Que Deus, rico em misericórdia (Ef. II, 4), apresse, na sua bondade, essa renovação do gênero humano em Jesus Cristo, visto não ser isso obra nem daquele que quer, nem daquele que corre, mas do Deus das misericórdias' (Romanos IX, 16). (Este artigo são excertos da Encíclica "E Supremi  Apostolatus" - 1903). 

sábado, 16 de abril de 2016

AS DECLARAÇÕES DE NULIDADE DE MATRIMÔNIOS

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 16 de abril



"Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda que eles as calquem com os seus pés, e que, voltando-se contra vós, vos dilacerem" (São Mateus VII, 6). 



   Vejamos, em primeiro lugar, algo que o papa Pio XII diz aos membros da Santa Rota Romana.

   (...) "Pelo ofício que a Santa Sé Apostólica vos confiou, sois no centro espiritual da Cristandade ministros do direito, eleitos representantes de um poder judicial penetrado do sagrado sentimento de responsabilidade, consagrado ao bem ordenado com justiça e equidade no mundo católico. Pois não é coisa nova para vós que a administração da justiça na Igreja é uma função de cura de almas, uma emanação daquele poder e solicitude pastoral, cuja plenitude e universalidade está enraizada e incluída na entrega das chaves ao primeiro Pedro.

   (...) "E na idade presente, em que tanto mais parece abalado em não poucos o respeito pela majestade do direito quanto mais as considerações de utilidade e de interesse, de força e de riqueza prevalecem sobre o direito, muito mais convém que os órgãos da Igreja dedicados à administração da justiça deem e infundam no povo cristão a viva consciência de que a Esposa de Cristo não se renega a si mesma, não muda de caminho com a mudança dos dias, mas é  e caminha sempre fiel à sua sublime missão. A tão alto fim se ordena em grau eminente o vosso insigne Colégio. 

   (...)

   As declarações de nulidade de matrimônios

 "Quanto às declarações de nulidade dos matrimônios, ninguém ignora ser a Igreja cautelosa e contrária a favorecê-las. Se de fato a tranquilidade, a estabilidade e a segurança do comércio humano em geral exigem que os contratos não sejam levianamente proclamados nulos, muito mais ainda quando se trata de um contrato de tanta importância, como o do matrimônio, cuja firmeza e estabilidade são requeridas pelo bem comum da sociedade humana e pelo bem particular dos cônjuges e da prole, e cuja dignidade sacramental proíbe que se exponha levianamente o que é sagrado e sacramental ao perigo de profanação. Quem não sabe, pois, que os corações humanos são, em casos não raros, assaz inclinados - por este ou aquele gravame, ou por discórdia e tédio da outra parte, ou para abrir caminho à união pecaminosa com outra pessoa amada - a procurar libertar-se do vínculo conjugal já contraído? Por isso é que o juiz eclesiástico não deve mostrar-se fácil em declarar a nulidade do matrimônio, mas há de sobretudo esforçar-se por fazer com que se revalide o que invalidamente está contraído, principalmente quando as circunstâncias do caso particularmente o aconselham.

   (...) 

   "... É bem verdade que em nossos tempos, em que o desprezo ou negligência da religião fizeram reviver o espírito de um novo paganismo gozador e soberbo, se manifesta em não poucos lugares uma quase mania pelo divórcio, a qual tenderia para contrair e dissolver os matrimônios com maior facilidade e ligeireza do que nos contratos de aluguel. Mas tal mania, imprudente e imponderada, não pode contar-se como razão, para que os Tribunais eclesiásticos se afastem da norma e da praxe senão a estabelecida por Deus, Autor da natureza e da graça".

Como já havia anunciado e prometido, termino falando algo sobre a Misericórdia divina, já que estamos no ano do Jubileu da Misericórdia. Se Deus quiser, neste ano ainda poderei fazer um artigo exclusivo sobre o Salmo CII, salmo este chamado das Misericórdias divinas. Hoje, limitar-me-ei a algumas reflexões apenas. Em verdade, este Salmo de Davi é "o cântico das misericórdias do Senhor". Se no Salmo L, o Rei Profeta implora para si a multidão das misericórdias divinas, aqui ele louva esta mesma misericórdia olhando em primeiro lugar para si mesmo, ou seja canta com todas as potências de sua alma a misericórdia que Deus usou para com ele (vers. 1-5); canta igualmente um hino à misericórdia que Deus prodigalizou ao seu povo de Israel (v. 6-12) e, finalmente, louva também a misericórdia dispensada a todo homem que a justiça divina vê quão fraco é (v. 13-18). O Salmista termina convidando todas as criaturas para louvarem o seu Criador (v. 20-22). Eis alguns versículos: "É Ele [Deus] que perdoa todas as tuas maldades, e que sara todas as tuas enfermidades. É Ele que resgata da morte a tua vida, e que te coroa da sua misericórdia e das suas graças" (v. 3-4); "O Senhor faz misericórdia e faz justiça a todos os que sofrem agravos... O Senhor é compassivo e misericordioso, paciente e de muita misericórdia" (v. 6 e 8); "Porque, quanto a elevação do céu está remontada sobre a terra, tanto ele firmou a sua misericórdia sobre os que o temem;... "Como um pai se compadece dos seus filhos, assim se compadeceu os Senhor dos que o temem;  porque ele sabe bem de que somos formados; lembrou-se que somos pó" (v. 11, 13 e 14); "Mas a misericórdia do Senhor estende-se desde a eternidade, e até à eternidade sobre os que o temem. E a sua justiça espalha-se sobre os filhos dos filhos, para os que guardam sua aliança, e se lembram dos seus mandamentos, para os observar" (v. 17 e 18). Termina como começa: Bendize, ó minha alma, o Senhor".