quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

A SANTIDADE E O ECUMENISMO


"Que relação tem um homem santo com um cão?"

"Não deis aos cães o que é santo" (S. Mateus, VII, 6).

"Não vos sujeiteis ao mesmo jugo que os infiéis. Pois, que união pode haver entre a justiça[santidade]e a iniquidade? Que sociedade entre a luz e as trevas? E que concórdia entre Cristo e Belial? E que relação entre o templo de Deus e os ídolos? Com efeito, vós sois o templo de Deus vivo, como Deus diz: 'Eu habitarei neles e andarei entre eles, serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Portanto, saí do meio deles e separai-vos, diz o Senhor, e não toqueis o que é impuro: e eu vos receberei e serei vosso pai, e vós sereis meus filhos e minhas filhas, diz o Senhor todo poderoso' (2 Cor. VI, 14-18).
"Tendo, pois estas promessas, meus caríssimos, purifiquemo-nos de toda a imundície da carne e do espírito, levando ao fim a santificação no temor de Deus" (2 Cor. VII, 1).

"Os seus sacerdotes desprezaram a minha lei, mancharam meu santuário; não distinguiram entre o santo e o profano; não distinguiram entre o que é puro e o é impuro" (Ezequiel, XXII, 26).

"Revesti-vos do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeira" (Efésios IV, 24).

Os que possuem a verdadeira santidade são missionários e não ecumênicos. E toda eficácia do apostolado dos santos reside exata e totalmente no fato de estarem revestidos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sua vida é a vida de Jesus Cristo. O divino Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo é o modelo perfeito que os santos seguiram com toda fidelidade possível, sem adaptações e interpretações humanas, desde um São João Batista até um São Pio de Pietrelcina, e assim será até o fim do mundo,  porque Jesus Cristo é sempre o mesmo, ontem, hoje e sempre.

Quando a Santa Madre Igreja é atacada  fisicamente (as perseguições a ferro e fogo) ou moralmente e doutrinariamente (os escândalos e as heresias) foram e serão sempre os SANTOS os seus verdadeiros reformadores. São os santos que, para empregar uma expressão popular atual, fazem toda diferença! Os que se revestem de Jesus Cristo e vivem na verdadeira justiça e santidade (Cf. Ef. IV, 24) imitam o Divino Mestre. Quero, neste artigo, chamar a atenção para duas coisas: o amor da pobreza para si mesmos, e o amor da riqueza e suntuosidade para a Casa de Deus; o amor das humilhações e perdão das ofensas feitas a suas pessoas, e o zelo ardente e intrépido em defender os direitos e interesses de Nosso Senhor e de sua imaculada esposa, a Santa Madre Igreja. Os falsos reformadores fazem exatamente o contrário: pregam tanto a pobreza na Igreja, mas eles mesmos não se preocupam  tanto em imitar a pobreza de Jesus Cristo; quando as ofensas são feitas às suas pessoas, imediatamente e com todo ardor pulam em cima dos ofensores como víboras e leões; mas quando vêem a Santa Igreja espezinhada e humilhada pelos escândalos, profanações e heresias, ou fazem vistas grossas, ou, pior, se colocam do lado dos inimigos de Nosso Senhor Jesus Cristo, do lado dos zombeteiros de Maria Santíssima, do lado dos perseguidores. São orgulhosos, covardes e vingativos. E o protótipo destes falsos reformadores foi o fatídico, debochado, libidinoso, diabolicamente rebelde e orgulhoso Martinho Lutero.  O Vaticano  não fez mais do que a obrigação ao emitir um selo comemorativo do centenário de Fátima (aliás sem aludir em nada ao principal que é a mensagem de Nossa Senhora e os segredos). Mas o mesmo Vaticano(por conseguinte Francisco) "horribile dictu" fez um em comemoração dos 500 anos da Pseudo-Reforma de Lutero, e este, sim, bem significativo para Lutero e horrivelmente blasfemo para Jesus e Maria Santíssima.

Como dissemos acima, os santos procuram imitar verdadeiramente a Jesus Cristo, no qual reside toda a plenitude da divindade. "Sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito" (S. Mat. V, 48 ). Todos os verdadeiros santos, a exemplo de S. Paulo, podem dizer: "Sede meus imitadores como eu o sou de Jesus Cristo" (1 Cor. IV, 16).

 Nos dois aspectos acima enunciados, qual foi o exemplo de Jesus Cristo? Nasceu pobre, viveu mais pobre ainda e morreu paupérrimo. Como diz S. Paulo: "Sendo rico (pois o Criador do céu e da terra) fez-se pobre por vós, a fim de que vós fôsseis ricos pela sua pobreza" (2 Cor., VIII, 9). A Casa de Deus no tempo de Jesus era o Templo de Jerusalém. Pois bem, a primeira manifestação de Jesus na ocupação das coisas de Seu Pai, foi aí no Templo quando tinha apenas doze anos de idade; e na sua vida pública muitas e muitas vezes esteve no Templo e aí pregou. Inclusive dele, certa vez, expulsou com chicote os vendilhões e disse: "Minha casa é casa de oração e vós fizestes dela um covil de ladrões" (S. Luc. XiX, 46). Nunca Jesus falou contra a riqueza e suntuosidade do Templo, pois toda esta riqueza e suntuosidade foi orientada e ordenada pelo próprio Deus e, portanto, por Ele mesmo como Verbo Eterno do Pai.  Quando Jesus predisse a destruição do Templo, não foi obviamente em castigo pela sua suntuosidade e riqueza mas pelos pecados do seu povo, máxime pelo maior, o deicídio.

Quanto ao amor das humilhações S. Paulo resume tudo nestas palavras: "Tende entre vós os mesmos sentimentos que houve em Jesus Cristo, o qual, existindo na forma(ou natureza) de Deus, não julgou que fosse uma rapina o seu ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz!" (Filipenses II, 5-8).  E a sua primeira palavra no alto da cruz foi de perdão: "Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem".  Jesus fez-se em tudo semelhante a nós, exceto no pecado e sempre combateu o pecado e os falsos profetas: os fariseus e os saduceus. O missionário por antonomásia, Jesus não veio para abolir a lei mas para aperfeiçoá-la. Procurava os pecadores para convertê-los e não para os abraçar com o pecado e tudo. Disse para o mulher adúltera: "Nem eu te condeno; vai e não peques mais"(S. João VIII, 11). Disse ao paralítico da Piscina Probática: "Eis que estás curado, mas não voltes a pecar para que não te aconteça alguma coisa pior" (S. João V, 14). E gostaríamos de citar muitos e muitos outros textos dos Santos Evangelhos, mas não nos é possível por falta de espaço no âmbito de um simples artigo. Aliás os verdadeiros católicos conhecem bem os Santos Evangelhos! Aconselho-lhes que sempre os meditem com o auxílio das explicações dos Santos Padres da Igreja. E aproveitando o ensejo, quero advertir a todos que tomem muito cuidado para não adquirir Bíblias ecumênicas. Sigamos, com toda segurança que a Santa Igreja nos deu, a Vulgata de S. Jerônimo.

Na míngua de espaço, quero apresentar apenas um santo que fez a verdadeira reforma na Igreja que estava se desmoronando: S. Francisco de Assis. É evidente que são inúmeros os Santos que defenderam a Santa Madre Igreja. Aliás é a santidade que eleva o mundo todo! Mesmo assim, sobre o Poverello exporei sucintamente o que em sua vida se relaciona aos dois aspectos supra mencionados e exibidos no Divino Mestre.

São Francisco de Assis, renunciou toda riqueza de seu pai, muito bem sucedido comerciante. Desposou a santa Pobreza. Com muita justeza é conhecido como o "Poverello de Assis". Todos sabem bem que a pobreza foi a característica deste santo reformador, e assim não preciso me deter  sobre isto. Mas os falsos reformadores, querem se basear em S. Francisco para pregar uma Igreja pobre no que se refere às coisas de Deus. E estão totalmente errados.  A exemplo de Jesus, São Francisco de Assis começou a fazer e a ensinar: "quando ainda jovem aconteceu-lhe, muitas vezes, comprar ornamentos preciosos e objetos para a celebração do Santo Sacrifício, e dá-los em segredo aos padres e às igrejas pobres"; "Numa peregrinação que fez a Roma, estranhou a modicidade das esmolas com que se contribuía para a manutenção da Basílica de S. Pedro; "Apesar de sua extrema pobreza quis mesmo mandar Irmãos pelo mundo com preciosos cibórios, para pôr em lugar conveniente o preço da nossa redenção"; também sempre se sentiu instado a restaurar as igreja pobres e, desde o princípio  de sua conversão se pôs a reparar o santuário de S. Damião. Logo depois consertou uma velha igreja beneditina, dedicada a S. Pedro. Em seguida restaurou a Igreja  de S. Maria de Josofat, mais tarde chamada a Porciúncula, ou Nossa Senhora dos Anjos. E até construiu uma igreja em honra da Santa Virgem. Encontramos em seus escritos várias passagens semelhantes a esta:"Onde quer que o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo for conservado de modo inconveniente ou simplesmente deixado em alguma parte, que o tirem dali para colocá-Lo e encerrá-Lo num lugar ricamente adornado"(Carta a Todos os Clérigos). E é interessante notarmos que S. Francisco, exortava os seus discípulos a amarem os homens sem distinção, e proibia-os severamente de julgarem os ricos: 'Deus  -  dizia ele  -  é seu Senhor, como o é também dos pobres, e pode chamá-los e santificá-los' . Ordenava mesmo que respeitassem os ricos como irmãos e senhores: irmãos diante do Criador; senhores porque proveem às necessidades dos filhos de Deus e ajudam-nos assim a levar a sua vida penitente'.

Agora em relação ao amor das humilhações e do perdão das ofensas, bastaria lermos  o c. VIII do "I FIORETTI":  Como a caminhar expôs S. Francisco a frei Leão as coisas que constituem a perfeita alegria" o qual é seguido desta conclusão: "Irmão Leão, acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, os quais Cristo concede aos amigos, será o  de vencer-se a si mesmo, e voluntariamente pelo amor suportar trabalhos, injúrias, opróbrios e desprezos".  Em outro lugar lemos também: "Ide meus bem-amados, parti dois a dois, para as diferentes regiões do universo, e pregai aos homens a paz e a penitência para remissão dos pecados. Sede pacientes na tribulação e ficai certos de que Deus realizará os seus desígnios e cumprirá a sua promessa. Se vos interrogarem, respondei humildemente; abençoai os que vos perseguirem; daí graças aos que vos cobrirem de injúrias e vos caluniarem, pois, em troca dessas tribulações, o reino eterno vos aguarda". Disse ainda: "Atendemos todos, meus irmãos, nestas palavras do Senhor: 'Amai os vossos inimigos e fazei o bem àqueles que vos odeiam', pois, Nosso Senhor Jesus Cristo, de quem devemos seguir o exemplo, deu a um traidor o título de amigo e entregou-se espontaneamente aos seus algozes. Nossos amigos são, pois, todos aqueles que injustamente nos causam pesares e aflições, humilhações, injúrias, dores, tormentos, o martírio e a morte. Cordialmente os devemos amar, pois o que eles nos fazem alcança-nos a vida eterna".   Mas, em se tratando de combater o pecado e todo e qualquer erro, qual foi a atitude de São Francisco? O estado da humanidade na época é assim estigmatizado pelo erudito discípulo de S. Francisco, Frei Tomás Celano: "O esquecimento de Deus era tão profundo e negligenciavam-se tanto as suas leis, que mui grande dificuldade havia em sacudir o torpor causado por males antigos e inveterados". O mesmo célebre escritor latino assim fala da ação missionária do Poverello: "No tempo em que a doutrina evangélica era estéril, não só em seu país, mas em todo universo, foi enviado por Deus para pregar a verdade pelo mundo inteiro, como os Apóstolos. Provava à evidência, com os seus ensinamentos, que toda a sabedoria do mundo não passa de loucura e, em pouco tempo, guiado por Cristo, levou os homens à verdadeira sabedoria de Deus pela loucura da sua pregação. Este novo evangelista dos nossos tempos espalhou por todo o universo, como um rio do paraíso, as águas vivas do Evangelho, e pregou com o seu exemplo o caminho do Filho de Deus e a doutrina da verdade. Nele e por ele conheceu o universo um inesperado ressurgimento, uma primavera de santidade, e a semente da antiga religião rejuvenesce de repente este mundo decrépto. Infundiu-se um novo espírito no coração dos eleitos e espalhou-se em sua alma a unção da salvação, quando, como um dos luminares do céu, o santo servo de Cristo brilhou na Terra. Todo tempo que ainda vivia entre os pecadores, percorria o mundo e pregava a todos" . S. Francisco era missionário. Não foi aos muçulmanos para beijar o Alcorão, mas apresentou-se diante do Sultão Malek-Khamil. "Era, diz Frei Celano, essa uma temerária empresa, pois que o príncipe dos Sarracenos pusera a prêmio, e alto prêmio, a cabeça dos cristãos. Mas Francisco apresentou-se a ele com tal mansidão e tal brandura, e, ao mesmo tempo, com uma fé tão intrépida e uma tão santa liberdade, que o tirano não ousou fazer-lhe mal, ouviu-o mesmo com benevolência e permitiu-lhe que pregasse a doutrina cristã. Logo soube, porém, que o mensageiro da fé atacava o erro maometano, fê-lo conduzir com honras militares ao campo dos cristãos". São Francisco de Assim dizia aos seus Irmãos da Ordem: "A obediência suprema, em que a carne e o sangue não tomam parte alguma, é atingida quando, levados por uma inspiração divina, vamos para junto dos infiéis, quer para salvar as almas, quer para colher a palma do martírio".

Caríssimos, podemos dizer que S. Francisco de Assis foi, desde os tempos apostólicos, o primeiro mensageiro da fé que inscreveu na sua bandeira a conversão do mundo inteiro, cumprindo assim à risca a ordem dada pelo divino Salvador, de evangelizar o universo: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a todas as criaturas". E como era a pregação deste arauto de Cristo? Darei apenas uma amostra: "Fazei penitência; produzi frutos dignos de penitência, pois deveis saber que dentro em pouco morrereis. Dai, e dar-se-vos-á. Perdoai, e sereis perdoados. E se não perdoardes aos homens as suas ofensas, não perdoará tão pouco o Senhor os vossos pecados... Bem-aventurados os que morrem penitentes, pois irão para o reino dos céus. Infelizes dos que não morrem penitentes, pois serão filhos do demônio, cujas obras cometem, e irão para o fogo eterno. Vigiai e abstende-vos de todo o mal e perseverai no bem até o fim" (Regula I, c. 21). Amém!
 
 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O "SENSUS FIDEI"

Extraído da "INSTRUÇÃO PASTORAL SOBRE A IGREJA", escrita por D. Antônio de Castro Mayer em 2 de março de 1965. 

   
   Declara São Pedro que o novo povo de Deus deve publicar as perfeições de Quem o chamou das trevas para sua luz admirável. É a missão que tem a Igreja de, pela fé nas verdades reveladas, pela esperança dos bens futuros e pela caridade para com Deus e os homens, dar ao mundo testemunho vivo de Jesus Cristo. No desempenho de tal missão, goza o povo de Deus da prerrogativa da infalibilidade, quando, sob orientação dos legítimos Pastores, bem que espalhado pelo mundo todo, professa ele unanimemente como reveladas verdades de fé e costumes. Em semelhante caso não pode errar. Age nele o "sensus fidei", suscitado e mantido pelo Espírito Santo. Testifica ele então uma palavra não humana mas de Deus (cf. 1 Tes. 2, 13). 


NOTA: Até aqui a exposição de D. Antônio de Castro Mayer.
Gostaria de fazer uma observação que, no meu fraco entendimento, acho oportuna para os nossos dias. 

   Em todos os casos em que a Santa Igreja é infalível, ensina ao povo a Doutrina revelada por Deus. Os fiéis guardando-a com toda pureza e fidelidade estão sempre na verdade: são, portanto, infalíveis. 

   Ora, pode acontecer, sobretudo em tempo de crise na Igreja, que até Papas fora do campo da infalibilidade (por exemplo, quando o Papa dá uma entrevista, faz um sermão, escreve uma carta, telefona etc.) não ensinem com clareza a verdade; mas, neste caso, os fiéis bem instruídos em 2 mil anos pelo Magistério infalível da Igreja, permaneçam firmes na fé. 

   Assim aconteceu na época em que o Papa Honório I favoreceu a heresia do Monotelismo. 
   Na época do Arianismo, Santo Hilário dizia, que a maioria dos bispos empregava uma linguagem ambígua para enganar os fiéis, mas estes tinham os ouvidos mais santos do que os bispos, os seus corações. Os verdadeiros FIÉIS entendiam sempre no sentido ortodoxo.

  Para terminar, confiramos o Apóstolo, como aconselha D. Antônio de Castro Mayer no fim do seu artigo transcrito acima: 

   "Por isso, também nós damos sem cessar graças a Deus, porque, tendo vós recebido a palavra de Deus, que ouvistes de nós, a abraçastes não como palavra dos homens, mas (segundo é verdade) como palavra de Deus, a qual opera em vós" (1 Tess. II, 13). 

sábado, 9 de dezembro de 2017

A INFALIBILIDADE - OS FATOS DOGMÁTICOS ( X )

   Que são fatos dogmáticos? É qualquer fato, não revelado, unido porém tão estreitamente com o dogma revelado, que negar este fato era o mesmo que abalar os fundamentos do próprio dogma.
   Exemplos: Dizer que o Concílio Vaticano I é um concílio legítimo e dogmático. Pois bem! Negar este fato dogmático seria abalar os fundamentos do dogma da Infalibilidade definido neste Concílio.
   Outro fato dogmático: A tradução da Bíblia chamada Vulgata feita por São Jerônimo, é conforme substancialmente ao texto original.
   Observação: Digamos de passagem que este fato dogmático é de grandíssima importância porque vários papas elogiaram e aprovaram a Vulgata de São Jerônimo. Entre eles o Papa Bento XV, que na Encíclica "Spiritus Paraclitus" diz: "É por consenso unânime que se coloca na primeira linha desse escol (de numerosos exegetas tão notáveis pela santidade como pela ciência) São Jerônimo, em quem a Igreja Católica reconhece e venera o maior Doutor que o céu lhe deu para a interpretação das Santas Escrituras". São Pio X, condenou no seu Sílabo "Lamentabilis" a proposição modernista: "Os exegetas heterodoxos interpretam o verdadeiro sentido das Escrituras com mais fidelidade do que os exegetas católicos".
   O Papa Pio XII na Encíclica "Divino Afflante Spiritu" declara que a autoridade preeminente ou autenticidade da Vulgata vem da tradição; ou seja pelo uso legítimo que dela se fez na Igreja durante tantos séculos; "uso, diz Pio XII, que prova estar ela no sentido em que a entendeu e entende a Igreja, completamente isenta de erros no que toca à fé e aos costumes; de modo que, como a mesma Igreja atesta e confirma, se pode nas disputas, preleções e pregação alegar seguramente e sem perigo de errar".
   Pio XII é mal interpretado pelos modernistas quando diz: "Nem a autoridade da Vulgata em matéria de doutrina impede - antes nos nossos dias exige - que a mesma doutrina se prove e confirme, também com os textos originais, e que se recorra aos mesmos textos para encontrar e explicar cada vez melhor o verdadeiro sentido das Sagradas Escrituras".
   Nós sabemos que os modernistas e neomodernistas no Concílio Vaticano II e após ele, a exemplo do que fizeram com o "aggiornamento" querido por João XXIII, assim também fizeram com esta encíclica de Pio XII, ou seja, não procuraram guardar a doutrina no mesmo sentido, mas mudar a tradução e a exegese. Assim como há um verdadeiro progresso nos dogmas, há também um verdadeiro progresso na exegese. Mas o modernistas, olham o progresso das ciências e pregam a evolução dos dogmas. Pela constante evolução em nome da ciência, prejudicaram a Tradição da Igreja e as Sagradas Escrituras, que são justamente as fontes da Revelação, dos dogmas. Por isso, dizia São Pio X que os modernistas destruiriam a Igreja pelos fundamentos, se isso fosse possível. Já antes de São Pio X, o Concílio Vaticano I condenara todos aqueles que pregam a evolução dos dogmas em nome da ciência. Na Constituição Dogmática que trata da Fé e da Igreja, no capítulo IV que fala sobre a fé e a razão, cânon 2 diz: "Se alguém disser que as ciências humanas devem ser tratadas com tal liberdade que as suas conclusões, embora contrárias à doutrina revelada, possam se retidas como verdadeiras e não possam ser condenadas pela Igreja - seja excomungado". E no cânon 3 diz: "Se alguém disser que às vezes, conforme o progresso das ciências, se pode atribuir aos dogmas propostos pela Igreja um sentido diverso daquele que ensinou e ensina a Igreja - seja excomungado".
   No entanto, o Código de Direito Canônico (promulgado em 1983) assim reza no § 2º do cânon 825: "Com licença da Conferência Episcopal, os fiéis católicos podem preparar e editar em colaboração dos irmãos separados (= os protestantes) versões das Sagradas Escrituras, anotadas com as explicações convenientes".
   Logo após a criação da Administração Apostólica, passei a receber frequentemente coisas dos progressistas e entre elas "Campanhas para o dízimo". E, um dia mandaram-me de presente um Novo Testamento. Fui logo examinar o presente: "Timeo Danaos et dona ferentes". Abri o "Cavalo de Tróia, e lá estavam os inimigos". Assustei-me já com a primeira página onde se lê: "NOVO TESTAMENTO - Tradução Ecumênica". Na segunda folha está a RECOMENDAÇÃO, e nesta, entre outras coisas, se lê: "A Bíblia - Tradução Ecumênica baseia-se nos textos originais e reproduz fielmente o modelo da mundialmente reconhecida "Traduction Oecuménique de la Bible". Contém o texto integral do Antigo Testamento, com os livros deuterocanônicos ou apócrifos, e o do Novo Testamento, traduzidos, introduzidos e anotados por ampla equipe de estudiosos de diversas confissões cristãs e do judaísmo, representando a harmonia da unidade e o respeito da diversidade na leitura fiel do livro acolhido como Palavra de Deus. Recomendamo-la, portanto, aos leitores desejosos de aprofundar o conhecimento da Palavra de Deus, consignada na Bíblia, Escrituras Sagradas do Judaísmo e do Cristianismo, patrimônio da humanidade. A Edição da Bíblia - Tradução Ecumênica - mereceu o louvor das Instituições Ecumênicas de nosso País e a Aprovação da Presidência da CNBB, conforme o cânon 825 §§ 1 e 2."
               D. Luciano Mendes de Almeida
               Presidente da CNBB
               Arcebispo de Mariana

               Ylanco S. de Lima
               Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e Presidente do Conselho N. de I. Cristãs

Este Novo Testamento foi editado pelas Edições Paulinas e Edições Loyola em 1996.
D. Luciano Mendes de Almeida que o aprovou, era então o Presidente da CNBB.
Faleceu em 27 /  08 /  06.

Pois bem! Em seguida fui examinar a tradução e, como sempre faço, fui direito ao capítulo I, v. 28 do Evangelho de São Lucas. É a saudação do Arcanjo São Gabriel a Nossa Senhora. E neste Novo Testamento Ecumênico assim está traduzido: "Alegra-te, ó tu que tens o favor de Deus. O Senhor está contigo".
   Eu tinha dez bíblias protestantes. Foram protestantes que se converteram e entregaram-me suas bíblias e dei-lhes a Bíblia Católica - a Vulgata de São Jerônimo. Fui lá conferir como era a tradução protestante; e verifiquei que, com pequenas variantes, a tradução é substancialmente igual a tradução ecumênica.
  Conferi na Vulgata do Padre Mato Soares, que recebeu o imprimatur em 1933 e a aprovação e elogios da Secretaria de Estado de Sua Santidade o Papa Pio XI. Documento este assinado pelo então Presidente da Secretaria de Estado, o cardeal Pacelli que foi o sucessor de Pio XI, o grande Pio XII. E lá está a tradução bem fiel a Vulgata Latina de São Jerônimo: "E, entrando onde ela estava, disse-lhe: Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres". (S. Luc. I, 28).
   Vejam, caríssimos leitores, como são terríveis as conseqüências deste ecumenismo conciliar! Por exemplo: o Papa Pio IX na Encíclica "Ineffabilis Deus", baseado na Tradução da Vulgata de São Jerônimo,faz a  seguinte argumentação a favor da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria (nº 26): "Depois, quando os mesmos Padres e escritores eclesiásticos consideravam que, ao dar à beatíssima Virgem o anúncio da altíssima dignidade de Mãe de Deus, por ordem do próprio Deus, o anjo Gabriel lhe chamara - cheia de graça - ensinaram que com esta singular e solene saudação, até então nunca ouvida, se demonstrava que a Mãe de Deus era a sede de todas as graças de Deus, era exornada de todos os carismas do Espírito Divino; antes, era um tesouro quase infinito e um abismo inexaurível dos mesmos carismas; de modo que, ela não somente nunca esteve sujeita à maldição, mas foi também, juntamente com seu Filho, participante de perpétua bênção: digna de, por Isabel, movida pelo Espírito de Deus, ser dita: "Bendita és entre as mulheres e bendito o fruto de teu ventre". No nº 27 continua: "Destas interpretações se infere, clara e concorde, a opinião dos Padres da Igreja. A gloriosíssima Virgem, pela qual "grandes coisas fez Aquele que é poderoso", resplendeu de tal abundância de dons celestes, de tal plenitude de graça e de tal inocência que se tornou como que o milagre de Deus por excelência, ante a culminância de todos os seus milagres, e digna Mãe de Deus; de modo que, colocada, tanto quanto é possível a uma criatura, como a mais próxima de Deus, ela se tornou superior a todos os louvores dos homens e dos Anjos."
   Pio IX com a tradução ecumêncica, não teria como extrair tão belos argumentos a favor da Imaculada Conceição. O mais grave na tradução ecumêncica é que os protestantes fazem esta tradução justamente para deturpar o sentido original da palavra empregada por São Lucas, que escreveu inspirado pelo Espírito Santo. Escreveu em grego. E a palavra em grego é kecaritoméne. A tradução de São Jerônimo não podia ser mais exata: "gratia plena". Em português: "cheia de graça". A palavra original grega - kecaritoméne - significa PLENITUDE de alguma coisa. É realmente uma saudação, como diz o papa Pio IX, nunca ouvida. Só Nossa Senhora, foi a simples criatura humana que teve a plenitude da graça, ou seja, nunca lhe faltou a graça, e teve-a num grau máximo como nenhuma criatura humana por mais santa que fosse  poderia ter. Isto porque foi  predestinada pelo próprio Deus para ser a Sua Mãe. Sua digna Mãe. Deus empregou todo seu amor e todo seu poder para preparar a Sua Mãe.
   Agora podemos compreender mais facilmente como os "fatos dogmáticos" fazem parte o objeto da Infalibilidade. Mas alguém poderia perguntar: Mas também a Igreja não é infalível nas leis universais, como é o caso do Código de Direito Canônico? Respondo que sim, mas, nem sempre, como veremos, se Deus quiser, em algum post em breve.
   Num sermão que tive oportunidade de fazer numa paróquia vizinha, discordei desta tradução ecumênica da Bíblia. E, depois eu soube que um padre, meu colega não gostou. Aconteceu, porém, que poucos dias após, o Santo Padre, o Papa, Sua Santidade Bento XVI, na sua Encíclica "SPE SALVI", ele discorda da Tradução Ecumênica Alemã, e, como Sua Santidade fez questão de frisar, tradução esta ecumênica feita com a aprovação dos Bispos. A verdade é que nunca mais em lugar nenhum do mundo fui convidado para pregar. Mas tenho o meu querido Blog! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

 IMACULADA DESDE A CONCEPÇÃO
                                                                                                             Dom Fernando Arêas Rifan*
No próximo dia 8, celebraremos a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, ou seja, honraremos o privilégio singular concedido por Deus à Virgem Maria, escolhida para a Mãe do Filho de Deus encarnado, preservando-a, desde a sua concepção, da herança do pecado original.
            Está aí uma luz dada pela Igreja sobre a vida intrauterina. Vida humana, respeitável, com direitos, querida por Deus, objeto do seu amor, desde o primeiro momento da concepção.
            “Vossos olhos contemplaram-me ainda em embrião” (Sl 139,16): essa é a citação bíblica escolhida por São João Paulo II para falar sobre o crime abominável do aborto: “o aborto provocado é a morte deliberada e direta... de um ser humano na fase inicial da sua existência, que vai da concepção ao nascimento... Trata-se de um homicídio... A pessoa eliminada é um ser humano que começa a desabrochar para a vida, isto é, o que de mais inocente, em absoluto, se possa imaginar: nunca poderia ser considerado um agressor, menos ainda um injusto agressor! É frágil, inerme, e numa medida tal que o deixa privado inclusive daquela forma mínima de defesa constituída pela força suplicante dos gemidos e do choro do recém-nascido. Está totalmente entregue à proteção e aos cuidados daquela que o traz no seio...” (Evangelium Vitae, 58).
        “Alguns tentam justificar o aborto, defendendo que o fruto da concepção, pelo menos até certo número de dias, não pode ainda ser considerado uma vida humana pessoal. Na realidade, porém, a partir do momento em que o óvulo é fecundado, inaugura-se uma nova vida que não é a do pai nem a da mãe, mas sim a de um novo ser humano que se desenvolve por conta própria. Nunca mais se tornaria humana, se não o fosse já desde então. A essa evidência de sempre a ciência genética moderna fornece preciosas confirmações. Demonstrou que desde o primeiro instante, se encontra fixado o programa daquilo que será este ser vivo: uma pessoa, esta pessoa individual, com as suas notas características já bem determinadas. Desde a fecundação, tem início a aventura de uma vida humana, cujas grandes capacidades, já presentes cada uma delas, apenas exigem tempo para se organizar e se encontrar prontas para agir... O ser humano deve ser respeitado e tratado como uma pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde esse mesmo momento, lhe devem ser reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e primeiro de todos, o direito inviolável de cada ser humano inocente à vida”  (Evang. Vitae, 60).

        E a ciência moderna confirma essa posição da Igreja.  Dr. Jerôme Lejeune, cientista, professor da Universidade René Descartes, de Paris, e especialista em Genética Fundamental, descobridor da causa da síndrome de Down, em entrevista à VEJA, que lhe perguntou se, para ele, a vida começa a existir no momento da concepção, respondeu: “Não quero repetir o óbvio. Mas, na verdade, a vida começa na fecundação. Quando os 23 cromossomos masculinos transportados pelo espermatozoide se encontram com os 23 cromossomos da mulher, todos os dados genéticos que definem o novo ser humano já estão presentes. A fecundação é a marco do início da vida. Daí para frente, qualquer método artificial para destruí-la é um assassinato”.
*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianneyhttp://domfernandorifan.blogspot.com.br/

A INFALIBILIDADE - O OBJETO DA INFALIBILIDADE ( IX )

   O objeto da infalibilidade é a matéria em torno da qual a Igreja é infalível. O objeto da infalibilidade pode ser direto ou indireto.
   Objeto direto ou primário: é aquele que contém verdades formalmente reveladas, isto é, verdades que Deus manifestou com palavras da linguagem humana, pelas quais é manifestada com suficiente clareza a intenção divina.
   Objeto indireto ou secundário: é aquele que contém verdades intimamente conexas às verdades reveladas. Estas verdades embora não sejam reveladas em si mesmas, são necessárias, no entanto, para que o depósito da fé seja integralmente guardado, corretamente explicado e eficazmente definido.
   As principais verdades conexas à verdades reveladas são:
   1º - Os preâmbulos da fé.
   2º - As conclusões teológicas.
   3º - Os fatos dogmáticos.
   4º - Os decretos disciplinares quando obrigatórios para toda a Igreja.
   5º - A canonização dos santos quando feita com exame rigoroso.
   6º - A aprovação das Ordens Religiosas.

   O objeto da infalibilidade se deduz do fim que a Igreja procura por seu ensino. O fim da Igreja, é distribuir as verdades que interessam a salvação. Logo, tudo quanto se refere a este ponto, quer direta quer indiretamente, vem a ser objeto da infalibilidade.
   O objeto direto da infalibilidade se encontra nas duas fontes da Revelação: A Sagrada Escritura e a Tradição.
   O objeto indireto da infalibilidade, são todas as verdades não reveladas, mas em conexão tão  íntima com as verdades reveladas, que se tornam indispensáveis para a conservação integral do depósito da fé. São aquelas seis que acabamos de enumerar e que agora, vamos considerar cada uma em particular.

1º - OS PREÂMBULOS DA FÉ
   Muitas verdades de ordem filosófica, ou seja, natural, são pressupostas pelas verdades reveladas. Estas verdades são chamados: "preâmbulos da fé".
   Por exemplo, se você pudesse negar impunemente ao homem a capacidade de conhecer, só pela luz natural da razão (o que faz a filosofia) a existência de Deus, você poderia também negar o dogma católico definido pelo Concílio Vaticano I, segundo o qual devemos crer que é possível tal conhecimento da existência de Deus só pela luz natural da razão. Em outras palavras, se a Igreja não pudesse definir verdades naturalmente conhecidas, de modo algum poderia também guardar o depósito da fé que lhe foi confiado, justamente por causa da relação necessária existente entre as verdades de ordem natural e as verdades reveladas. Esta doutrina está sustentada pelo Concílio Vaticano I contra os Racionalistas.
   Portanto, os preâmbulos da fé não são definíveis porque revelados, mas antes por causa da ligação necessária com as verdades reveladas. 

2º - AS CONCLUSÕES TEOLÓGICAS
   Conclusão teológica é uma proposição que se deduz de duas outras, sendo, a primeira destas, verdade revelada; e a segunda, verdade conhecida pela razão. Por exemplo se eu disser: "Jesus Cristo é verdadeiro homem". (verdade revelada), e se por outra parte eu acrescentar: "Todo homem pode adquirir a ciência pela experiência e pela observação"; e então fazendo um verdadeiro raciocínio através da razão (isto na filosofia se chama "silogismo") eu concluo igual e verdadeiramente das duas afirmações anteriores uma nova verdade. Eis então como se faz o silogismo:
   1ª - "Jesus Cristo é verdadeiro homem" (= verdade revelada).
  2ª - "Ora, todo homem pode adquirir a ciência (= conhecimento de uma coisa), pela experiência e pela observação" (= verdade de razão).
   3ª -  Logo, Jesus Cristo teve a ciência adquirida. Esta conclusão é uma nova verdade que se chama conclusão teológica.

Observação: É teologicamente certo ( não é de fé ) que a Igreja é infalível com relação as conclusões teológicas, mas não é dogma, a não ser que a Igreja termine definindo uma conclusão teológica como dogma. Portanto, quem negasse uma conclusão teológica definida como dogma seria herético. Uma opinião, porém, contrária a uma conclusão teológica ainda não definida pela Igreja, seria classificada como opinião "errônea".

domingo, 3 de dezembro de 2017

A INFALIBILIDADE - TIPOS DE MAGISTÉRIO ( VIII )

   Vamos explicar os dois tipos de Magistério da Igreja, expondo, de maneira bem clara e detalhada, quando é infalível e quando não é infalível, segundo a Tradição viva da Santa Madre Igreja.
   1º - MAGISTÉRIO ORDINÁRIO DOS BISPOS: é quando uma verdade é ensinada em toda Igreja como doutrina revelada. Quando que isto acontece? Um bispo isoladamente não é infalível. (Aliás, a História da Igreja mostra que muitas heresias foram inventadas por bispos). Mas, quando todos os bispos espalhados pelo mundo católico ensinam tal doutrina relativa à Fé e à Moral como contida na Revelação, aí eles são infalíveis. Vamos explicar melhor com as palavras de D. Antônio de Castro Mayer: "De si, o magistério dos bispos não é infalível. Quando, no entanto, ensinam como autênticos mestres, matéria relativa à fé e aos costumes, de maneira que, ao ensinar, concordam moralmente todos no mesmo ensinamento, de fato enunciam infalivelmente uma doutrina revelada" (Cf. "POR UM CRISTIANISMO AUTÊNTICO" p.  ). Diz-se moralmente todos porque não é necessário que sejam todos matematicamente.
   Tanto no Concílio Vaticano I (1870) como já antes em 1863, Pio IX na Encíclica "Ineffabilis Deus" sobre a Imaculada Conceição de Nossa Senhora diz o seguinte: "...Querendo proceder com toda prudência constituímos uma Comissão especial de Veneráveis Irmãos Nossos, Cardeais da Santa Igreja Romana, ilustres por piedade, por ponderação de juízo e por ciência das coisas divinas, e escolhemos entre o clero secular e o regular homens particularmente  versados nas disciplinas teológicas, com o encargo de examinarem com a maior diligência tudo o que diz repeito à Imaculada Conceição da Virgem e nos darem depois o seu parecer.
   "... Enviamos uma Encíclica a todos os Veneráveis Irmãos bispos do mundo inteiro, a fim de que, depois de orarem a Deus, nos fizessem saber, mesmo por escrito, qual era a piedade e a devoção dos seus fiéis para com a Imaculada Conceição da Mãe de Deus; O QUE ERA QUE PENSAVAM ESPECIALMENTE ELES - OS BISPOS - DA DEFINIÇÃO EM PROJETO." (aqui temos a consulta do Papa sobre o Magistério ordinário dos Bispos). E diz Pio IX que os consultados (da Comissão e os Bispos do mundo inteiro) "com voto que se pode dizer unânime, pediram-nos que, com nosso supremo juízo e autoridade, definamos a Imaculada Conceição da mesma Virgem".
   Então, acabamos de ver o que significa ou quando se realiza o Magistério Ordinário dos Bispos e quando ele é infalível. Agora vamos ver quando se dá o Magistério Ordinário dos Papas.

   2º - MAGISTÉRIO ORDINÁRIO DOS PAPAS: são todos os documentos da Santa Sé; Decretos, Encíclicas que não vêm marcados  pela nota da infalibilidade.
   Quando o Magistério Ordinário dos  Papas é infalível?
   Resposta: O Magistério dos Papas é infalível quando Papas sucessivos, por um espaço suficientemente longo, repetem nos seus Documentos do Magistério Ordinário, os mesmos ensinamentos em questão de fé e moral, ou os que estejam intimamente conexos com estas questões de fé e moral. Em outras palavras: "As Encíclicas e outros Documentos do Magistério Ordinário do Sumo Pontífice só são infalíveis nos ensinamentos corroborados pela Tradição ou seja, por uma doutrinação contínua, através de vários Papas e por longo espaço de tempo" (Cf. "POR UM CRISTIANISNO AUTÊNTICO" pp. 323 e 367). Como exemplo de Magistério Ordinário infalível, D. Antônio de Castro Mayer cita a Encíclica "Humanae Vitae" em que o Papa Paulo VI, declarando ilícito o uso dos anticoncepcionais; insere-se numa Tradição ininterrupta do Magistério Eclesiástico.
   Eu me lembro que, na época, os progressistas murmuraram contra a Encíclica, e infelizmente muitos bispos e padres não obedeceram e até hoje muitos não obedecem. O Papa Paulo VI sofreu muito com esta desobediência e foi justamente por isso que, na época, o Padre Pio, hoje São Pio, escreveu uma carta a Paulo VI, agradecendo, elogiando e procurando consolar o Santo Padre o Papa Paulo VI.

MAGISTÉRIO EXTRAORDINÁRIO
   O Magistério Extraordinário se dá em dois casos:
   1º - O Papa sozinho.
   2º - Os Bispos em união com o Papa.
   A - O Magistério Extraordinário do Papa sozinho.
   1º - Quando que é infalível: Isto acontece quando o Papa define "ex cathedra". Já vimos a definição do dogma da Infalibilidade do Papa pelo Concílio Vaticano I. Mas vamos apenas resumir. São 4 as condições:
   1ª) O objeto da Infalibilidade é bem delimitado, isto é, só questões de fé (dogma) e costumes (moral), e tudo aquilo que esteja estreitamente ligado a fé e/ou a moral.
   2ª) Quando o Papa fala "ex cathedra", isto é, no desempenho do seu cargo de Pastor e Doutor de todos os cristãos (=Doutor Universal, ou seja, como Chefe Supremo da Igreja aqui na Terra. Portanto, quando fala como pessoa particular não é infalível).
   3ª) Ele tem que definir, quer dizer, tem que resolver de modo terminante uma questão, seja ela uma questão que tenha sido discutida antes ou não.
   4ª) Não só definir, mas definir com o propósito de obrigar a Igreja inteira. O Papa indica geralmente este propósito pela sentença de anátema, que ele pronuncia contra quem negar adesão à verdade definida.

   2º - Quando o Magistério Extraordinário do Papa não é infalível?
   Resposta: quando faltar alguma  destas quatro condições acima descritas. Como dizia D. Antônio de Castro Mayer, o Concílio Vaticano I não definiu que faltando alguma destas condições o Papa continua sendo infalível. Portanto, o Concílio Vaticano I não definiu que o Papa é sempre infalível. Mas também não podemos, por isso, concluir que não entrando a infalibilidade o papa erre sempre; até devemos dizer que normalmente também não erra. Mas pode errar, sobretudo em tempo de crise na Igreja. E contra fatos não há argumentos. Já mostramos e explicamos o caso do Papa Honório I.

   B - O Magistério Extraordinário dos Bispos: Quando é infalível e quando não é infalível.
   1º) O Magistério Extraordinário Infalível dos Bispos:
   Quando todos os bispos são convocados, o Concílio Geral ou Ecumênico representa o corpo docente da Igreja: logo é infalível. Mas, é claro, o Concílio tem que ser legítimo, ou seja, deve ser convocado pelo Papa e seus   decretos têm de vir sancionados por ele pessoalmente ou por seus delegados quando estes tiverem procuração para isso.
   Com estas condições, normalmente todo Concílio Ecumênico é dogmático, e portanto infalível, a menos que o Papa que convoca (e o que o reconvoca) declarem expressamente que o Concílio Ecumênico será pastoral. Foi o caso do Concílio Vaticano II. Foi legítimo, porque convocado pelos papas, foi Ecumênico, porque todos os bispos foram convocados; mas foi um concílio fora do normal, ou atípico, porque até então os Concílios Ecumênicos foram dogmáticos.
   Houve na Igreja muitos Concílios Particulares, ou seja, dos bispos de uma Província, ou dos bispos de um país, justamente para se tratarem mais de questões pastorais. Isto é mais prático e até mais prudente, já que as necessidades pastorais não são sempre as mesmas em toda Igreja; quer dizer, cada região, cada país, e até cada diocese tem   suas questões pastorais próprias. Por exemplo, no Brasil em 1939 houve, na então Capital, a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, um Concílio Plenário dos Bispos. E  o então Sumo Pontífice o Santo Padre o Papa Pio XII o aprovou e enviou um Legado para convocar e presidir. E entre outras questões práticas, este Concílio Plenário Brasileiro procurou examinar os meios para afastar os males e danos causados pelos erros do Protestantismo e do Espiritismo. Antes do Concílio Vaticano II, em cada 20 anos, pelo menos, deveria haver um Concílio Plenário em cada país. Hoje há os "Sínodos dos Bispos" e as geralmente desastrosas "CN dos B".
   Para terminar, vamos fazer algumas observações: Voltemos aos Concílios Ecumênicos.
   A quem  fazia a objeção de que a infalibilidade dos papas  torna inúteis os Concílios Ecumênicos, Santo Afonso Maria de Ligório respondia: "Eles são úteis porque os povos aceitam mais facilmente seus decretos e porque os bispos conhecem melhor as razões destes decretos e expõem-nos mais claramente aos fiéis. Eles são úteis também para fechar a boca daqueles hereges que fazem pouco caso das definições do Papa". (Oeuvres Dogmatiques de Saint Ligori T. II, pág. 324).
   Diz ainda Santo Afonso que o Concílio sem o Papa, não pode definir nada relativo à fé. (Idem, p. 220).
   O Papa é que tem o direito de convocar um Concílio Ecumênico. Mas Santo Afonso é de opinião que em dois casos os cardeais e os bispos podem convocar um Concílio. O 1º é quando o papa é dúbio, isto é, quando há dúvida se um papa é legítimo ou é um anti-papa, como aconteceu na época do cisma do Ocidente.
   O 2º caso é quando um papa (como pessoa particular) tivesse caído de uma maneira perseverante e notória em heresia.
   No caso de papa dúbio, diz Santo Afonso, é preciso obedecer aos decretos do Concílio, porque a Santa Sé é considerada vacante. (Idem, p. 165).
   No segundo caso (de heresia) o papa seria destituìdo "ipso facto" do Pontificado, porque estaria fora da Igreja e por conseguinte não poderia ser seu chefe. Seria papa aquele que o Concílio declarasse. (Idem, p. 232).
   É preciso notar, entretanto, que são simples opiniões de Santo Afonso. E sobre esta hipótese de um papa cair em heresia como pessoa particular, há discussões intermináveis entre os teólogos. O Relator da Fé no Concílio Vaticano I, o Bispo D. Zinelli diz o seguinte: "Confiados na Providência sobrenatural, julgamos bastante provável que nunca um papa, como pessoa particular caia em heresia. Mas Deus não falta nas coisas necessárias; portanto, se Ele permitir tão grande mal, não faltarão meios para remediar tal situação". Vê-se que D. Zinelli apresenta simplesmente uma opinião piedosa. Mas como era Relator da Fé no Concílio Vaticano I, podemos supor com muita probabilidade, que o Papa Pio IX tenha aprovado esta opinião. Mas também, na verdade, não encontramos nada escrito a respeito. Pelo menos eu não consegui encontrar.


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A INFALIBILIDADE - CÂNON 212 §§ 1º,2º, 3º. ( VII )

   Nosso Senhor Jesus Cristo fez a Sua Igreja hierárquica, isto é,seus membros não são todos iguais. Há dois grupos distintos: Igreja docente e Igreja discente. Docente: é a parte da Igreja que ensina. Em latim: "docere", quer dizer ensinar. Discente: é a parte da Igreja que é ensinada. Em latim "discere", que quer dizer: receber o ensino, aprender.
   1º - Igreja DOCENTE: A) Tem na frente o Papa. É o chefe supremo. Possui a plenitude dos poderes concedidos por Jesus Cristo à Igreja.
                                            B) Abaixo do Papa e submetidos à jurisdição dele, estão os Bispos, gozando como ele da plenitude do sacerdócio, mas com poderes de ensino e governo limitados na respectivas dioceses.
   No último degrau da hierarquia, temos os padres, cujo poder de ensinar não lhes pertence por direito, mas em virtude da delegação do bispo.

   2º - Igreja DISCENTE: São os fiéis. Não têm autoridade eclesiástica. São instruídos, governados e santificados por seus pastores. Têm na Igreja direito aos bens espirituais: recepção dos sacramentos e audição da Palavra divina. Ainda com relação aos fiéis, diz o Código de Direito Canônico: cânon 211 - "Todos os fiéis têm o dever e o direito de trabalhar para que a mensagem divina da Salvação chegue cada vez mais a todos os homens de todos os tempos e do mundo inteiro". E o cânon 212 diz: § 1º -"Os fiéis, conscientes da sua responsabilidade, têm obrigação de prestar obediência cristã àquilo que os sagrados Pastores, como representantes de Cristo, declaram na sua qualidade de mestres da fé, ou estabelecem como governantes da Igreja".
   Explicação deste parágrafo: Ser consciente da própria responsabilidade significa que não se deve obedecer simplesmente porque está mandado, mas porque o mandado é legítimo, e que se deve obedecer com iniciativas, quando o mandamento deixe margem para elas. É preciso ter espírito de colaboração. Contudo, juridicamente não se pode exigir outra obediência que a determinada pela justiça legal.
   Cânon 212, § 2º "Os fiéis têm a faculdade de expor aos Pastores da Igreja as suas necessidades, sobretudo espirituais e os seus anseios".
   Explicação deste parágrafo: Trata-se do direito de petição, individual e coletiva. A petição pode fazer-se por via oral ou escrita. Este direito exige ser ouvido, mas não traz consigo a obrigação de outorgar o pedido, a não ser que o pedido constitua um verdadeiro direito. Exemplo: O Padre José Maria Scrivá (hoje canonizado), se esforçando por obedecer a Santa Sé, começou a celebrar a "Missa Nova". Seus padres e fiéis perceberam a angústia de seu diretor ao deixar de celebrar a Missa de São Pio V, ou seja, a Santa Missa de Sempre, e passar a celebrar a Missa Nova, então expuseram a Santa Sé os seus anseios. Não sei dizer como o fizeram, se diretamente, por escrito ou oralmente, mas afinal isto não importa, nem vem ao caso. O fato é que o Papa permitiu que o Padre José Maria Scrivá, continuasse a celebrar a Missa de Sempre. Só celebrou duas vezes a Missa Nova. A razão de sua angústia facilmente se advinha. Nem precisaria ser santo, basta ser verdadeiro devoto da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, para se sentir angustiado ao ter que celebrar uma missa que agrada aos Protestantes.
   Cânon 212 § 3º: "Os fiéis, segundo a ciência, a competência e a proeminência de que desfrutam têm o direito e mesmo, por vezes, o dever de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja, e de a exporem aos restantes fiéis, salva a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas."
   Explicação deste parágrafo: Este parágrafo reconhece o direito que os fiéis têm à liberdade de expressão e de opinião pública dentro da Igreja. A ciência, a perícia e o prestígio são requisitos do reto exercício do direito ou para que o dever - moral - tenha maior ou menor força: o fundamento, porém, não são os requisitos, mas a condição de fiel. Quando se trata de dogmas da Santa Igreja (= integridade da fé e dos costumes, em que a Igreja é infalível) é claro que não existe o direito a livre opinião à liberdade de expressão. Fora destes casos, existe o direito e até o dever de manifestar à hierarquia da Igreja sua opinião, mas  é sempre necessário fazê-lo com todo repeito e reverência devidos às autoridades hierárquicas da Santa Igreja. E também só se pode expor sua opinião quando há real utilidade comum para as almas. É interessante notarmos que o fiel, dentro das condições acima expostas, tem o direito e às vezes, o dever de manifestar não só às autoridades da Igreja, sua opinião, mas também de expô-la aos restantes fiéis, isto é, o fiel tem o direito e às vezes, até o dever não só de manifestar sua opinião privadamente mas até mesmo publicamente, ou seja, ele pode, e às vezes, deve falar também para os demais fiéis.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A INFALIBILIDADE ; MAGISTÉRIO VIVO ( VI )

   "É certo, escreveu D. Antônio de Castro Mayer, que o Concílio Vaticano I definiu que o Magistério do Romano Pontífice é infalível em determinadas condições. Não definiu que, faltando tais condições, seja  o Soberano Pontífice igualmente infalível. (sublinhado meu). Seria absurdo, no entanto, daí concluir que o Papa erra sempre que não faz uso de sua prerrogativa de infalibilidade. Pelo contrário, ainda quando não se reveste desta prerrogativa, devemos supor que ele acerte, porquanto, normalmente age com prudência e não emite sua opinião antes de muito ponderar. Para não falar nas graças especiais com que o assiste o Espírito Santo.
   "Por isso é de todo inaceitável a atitude leviana daqueles que não fazem caso dos Documentos da Santa Sé, que não vêm sigilados com a nota de infalibilidade. Pois estes documentos obrigam a uma aceitação interna que só poderia ser recusada na hipótese de haver engano patente no que eles trazem ou porque abertamente contrário a toda a tradição da Igreja, ou porque evidentemente falso. O que absolutamente inadmissível é considerar, sem mais, peremptos Documentos solenes do Magistério Ordinário como as enciclicas doutrinárias, especialmente as escritas para dirimir quesões ou apontar erros relativos a Fé, como por exemplo a "Pascendi Dominici Gregis" de São Pio X, contra o Modernismo, ou a "Humani Generis"de Pio XII contra o Neomodernismo. Especial atenção merecem também os Documentos do Magistério Ordinário quando Papas sucessivos, por um espaço suficientemente longo, repetem neles os mesmos ensinamentos. Temos neste fato um sinal de que tal doutrina faz parte do depósito da Fé confiado a Santa Igreja. Não compreendemos, portanto, como se possa formar católicos, ignorando totalmente a fonte mais próxima da verdade revelada que é o Magistério vivo. Só por semelhante atitude se tornam suspeitos os fautores de um novo cristianismo; certamente não é desta maneira que se realizará o "aggionarmento" de que tanto falava João XXIII" (Cf. "Por Um Cristianismo Autêntico" pp. 322 e 323. Caríssimos leitores, lendo assim todo o texto,(sem fazer subtrações: o que seria mentira criminosa) podemos ver claramente que D. Antônio de Castro Mayer falava contra os modernistas e neomodernistas.
   Para terminar, vamos considerar a frase que sublinhei nesta longa citação: "O Romano Pontífice no Concílio Vaticano I, não definiu que faltando tais condições seja o Soberano Pontífice igualmente infalível".
    Como vimos, D. Antônio de Castro Mayer declara que a um documento não infalível , só se pode recusar a aceitação interna na hipótese de haver engano patente no que ele traz, ou porque abertamente contrário a toda tradição de Igreja, ou porque evidentemente falso. (Cf. P.C.A. p.367 d; 368 e) "... Tal é o valor da Tradição, que mesmo as Encíclicas e outros Documentos do Magistério Ordinário do Sumo Pontífice, só são infalíveis nos ensinamentos corroborados pela Tradição, ou seja, por uma doutrinação contínua, através de vários Papas e por longo espaço de tempo. De maneira que, o ato do Magistério Ordinário de um Papa que colida com o ensinamento caucionado pela Tradição magisterial de vários Papas e por espaço notável de tempo, não deveria ser aceito.(sublinhado meu). Entre os exemplos que a História aponta de fatos semelhantes, avulta o de Honório I. Viveu este papa, no tempo em que a heresia monotelita fazia estragos na Igreja do Oriente. Negando a existência de duas vontades em Jesus Cristo renovam os monotelitas o absurdo que Éutiques introduziu no dogma, quando pretendeu que em Jesus Cristo havia uma só natureza, composta da natureza divina e da natureza humana. Habilmente o Patriarca Sérgio de Constantinopla insinuou no espirito de Honório I que a pregação das duas vontades no Salvador só causava divisões no povo fiel. Acedendo aos desejos do Patriarca Sérgio, que eram também os do Imperador, o Papa Honório I proibiu que se falasse nas duas vontades do Filho de Deus feito homem. Não advertiu o Pontífice que seu ato deixava o campo aberto à difusão da heresia. Por isso mesmo não se lhe devia dar atenção. Entre os que lamentaram o ato de Honório I, estão o VI Concílio Ecumênico que foi o terceiro reunido em Constantinopla, e São Leão II, papa ao confirmar aquele Concilio. Entre os que continuaram a ensinar as duas vontades em Jesus Cristo está o grande São Máximo, chamado, O Confessor porque selou com o martírio sua fidelidade à doutrina católica tradicional".
   "Guardemos, pois, com o máximo respeito e atenção, o critério de aferimento para as novidades que surgem na Igreja:
- Ajustam-se as novidades à Tradição?
- Então são de boa lei.
- Não se ajustam, mas se opõem à Tradição; ou diluem a Tradição?
- Então não devem ser aceitas.
   "Tradição, é certo, não é imobilismo. É acréscimo, porém, na mesma linha, na mesma direção, no mesmo sentido, crescimento de seres vivos que se conservam sempre os mesmos. Por isso mesmo, não podem considerar tradicionais, formas e costumes que a Igreja não incorporou na exposição de sua doutrina, ou na sua disciplina. A tendência neste sentido, foi chamada por Pio XII "reprovável arquiologismo"(=apego ao que é antigo só porque antigo) na Encíclica "Mediator Dei". Isto posto, tomemos como norma o seguinte princípio: quando é visível que a novidade se afasta da doutrina tradicional, é certo que não deve ser admitida".
   Depois, D. Antônio de Castro Mayer mostra os vários modos de corromper a Tradição: uma escala que vai da oposição aberta a Tradição, ao desvio quase imperceptível. E ele alerta para o perigo maior nesta última maneira. Gota a gota, sem se perceber. Dois passos à frente, um para traz; vai se fazendo aos poucos e um pouco sempre fica; vai-se aos poucos tirando a substância, deixando finalmente só a casca. Isto chama-se: lavagem cerebral, ou seja, mudança das idéias sem a pessoa perceber. É uma baldeação ideológica inadvertida. Nas aulas D. Antônio dizia a mim e ao Fernando, (hoje S. Exa. Revma. D. Fernando Arêas Rifan) que uma cadeira de três pés, faltando um, é mais perigosa que uma de um pé só, faltando três. Uma moeda falsa é tanto mais perigosa quanto mais parecida com a verdadeira.
  "Nas circunstâncias atuais, continua D. Mayer, todas as maneiras de corromper a Tradição oferecem perigo para a Fé, mas talvez as mais perigosas são aquelas maneiras mais disfarçadas e que portanto menos aparecem como opostas a Igreja Tradicional. Segue-se que de nós se pede cuidadosa vigilância, não venhamos a assimilar o veneno meio inconscientemente. Se há gente de boa fé, que, por ignorância ou ingenuidade, nas novidades que vai aceitando, tenciona apenas obter nova expressão da verdadeira Igreja; há também e sobretudo, a astúcia do demônio que se serve destas mesmas intenções para desgarrar os fiéis da ortodoxia católica".
   Caríssimos e amados leitores, nunca poderemos esquecer que a tática dos modernistas e de todos os hereges, para difundir seus erros e procurar destruir a Igreja, é a ambigüidade. "Ambiguus" em latim, quer dizer: "que tem dois sentidos" (como empregou Virgílio, célebre escritor latino); quer dizer também "enganador" (como empregou Cícero, outro célebre escritor latino). Em latim "verbum bilingue" quer dizer: "palavra de língua dupla"; e no sentido figurado, quer dizer: "palavra falsa". Na Bíblia Sagrada, no Livro da Sabedoria VIII, 13 Deus diz: "Eu detesto a arrogância e a soberba; o mau proceder e a língua dupla". Por isso Jesus Cristo disse: "Seja o vosso falar sim, sim; não, não".
   Imaginem como é necessário que a nossa linguagem com Deus deve ser sincera através da Liturgia!
   Não podemos julgar ninguém. A gente só fica sabendo da intenção de alguém se a própria pessoa revelar. Pois bem, aconteceu que um progressista dos quatro costados, chamado Dom Duschak, no dia 05 de novembro de 1962, revelou o seguinte: "Minha idéia será introduzir uma Missa ecumênica". Aí, perguntaram a ele se esta idéia foi sugerida por seus diocesanos. D. Duschak respondeu: "Não, eu penso mesmo que eles seriam contra, assim como se opõem muitos bispos. Mas se se pudesse colocá-la em prática, eu creio que eles terminariam por aceitá-la. No Concílio, continua D. Duschak, nós o exprimimos de uma maneira diplomática, mas depois do Concílio, nós tiraremos as conclusões implícitas..." (Confira Revista "De Bazuin", nº 48, ano 1965, página 04).
   Com os Modernistas e Neomodernistas toda vigilância é pouca!!!

sábado, 25 de novembro de 2017

NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO ( II )

   Os fatos comprovam que nesta crise criada pelo modernismo dentro da Igreja há, tanto para nós membros do clero como para os fiéis, um duplo escolho que ameaça a barquinha de nossas almas: o Progressismo e o Sedevacantismo.
   Que é Progressismo? É o novo nome do Modernismo, objeto de severa condenação por parte de São Pio X, na Encíclica "Pascendi Dominici Gregis". Um e outro tendem a "solapar pelos alicerces o Reino de Jesus Cristo". Por isso São Pio X os chamava de "os mais perigosos inimigos da Igreja". Não atacam de frente. Disfarçam. Habitualmente usam a baldeação ideológica inadvertida, ou seja, fazem uma lavagem cerebral mudando as idéias aos poucos sem a pessoa perceber.
   O Progressismo não nega frontalmente o dogma revelado. Age mais através dos ambientes que vai criando com imprecisões de linguagem e termos ambíguos. Seus caminhos são tortuosos. Há, no entanto, um critério para surpreendê-los, que não falha. Todas as suas imprecisões, ambigüidades, novos formulários, etc, obedecem à mesma direção. Operam no sentido de afastar os fiéis da Tradição, das fórmulas tradicionais, dos limites precisos entre a verdade e o erro, dos costumes elaborados lenta e seguramente pelos séculos de Cristianismo, de tudo enfim que indique, sem o menor perigo de engano, o Cristianismo autêntico, ortodoxo, a fidelidade a Revelação e ao Espirito de Nosso Senhor Jesus Cristo.
   Antes de ser criada a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, durante um ano, foram feitas várias reuniões, semana de estudo e retiro. Tudo para nos convencer a aceitar a Administração Apostólica. No início foi distribuída uma apostila explicando o que Roma nos oferecia e o que nós prometíamos. Eis alguns trechos: "Aceitamos do Concílio Varticano II tudo aquilo que estiver em consonância com o Magistério perene da Igreja  e sua Sagrada Tradição: "eodem sensu eademque sententia". Reservamo-nos o direito de fazer críticas construtivas ao que a eles se opõem, empenhando-nos pela sua correção. Conservamos com exclusividade a Missa Tradicional. Aceitamos que a Missa segundo o Novus Ordo seja válida, se celebrada corretamente e com intenção de oferecer o verdadeiro sacrifício da Missa. Reservamo-nos o direito de fazer observações e críticas respeitosas e construtivas à Reforma Litúrgica nas suas ambigüidades, empenhando-nos pela sua correção, na linha do Breve Exame Crítico dos Cardeais Otavianni e Bacci e das recentes críticas feitas pelo Cardeal Joseph Ratzinger e pelo Cardeal Ferdinando Antonelli. (Nota: O Cardeal Castrillon Hoyos disse que tudo isso nos seria concedido nas expressões do cânon 212). Continuando os trechos da apostila: "Atendendo ao desejo do Santo Padre, desejamos ajudá-lo a combater o modernismo, o liberalismo, e a maçonaria dentro da Igreja. Reconhecendo que no calor da batalha pela verdade católica, certas críticas foram demasiado ácidas e pessoais, comprometemo-nos doravante a abaixar o tom das críticas, já que serão feitas em família, evitando ataques pessoais e permanecendo no campo doutrinário, segundo a sentença de Santo Agostinho: "In principiis unitas, in dubiis libertas, in omnibus charitas". FINALIZANDO: ( Última garantia): Não há o que temer. Se de tudo não der certo o que foi proposto ou se fizerem exigências fora do que foi contratado, nós teremos a liberdade de convocar a imprensa, declarando que fomos traídos, e nos retirar e voltar à situação em que estamos atualmente".
   Pelo que sei, e a bem da verdade e da justiça, devo declarar que a Santa Sé jamais fez a mínima exigência fora do que foi contratado com os padres da União Sacerdotal São João Batista Maria Vianney. Vira progrssista quem quer; e vira sedevacantista quem quer, pelo menos até ao presente e dentro da Administração Apostólica São João Batista Maria Vianney. 

   Que é Sedevacantismo? Os sedevacantistas são de várias gamas: desde os mais extremistas até aos mais moderados. Sedevacantistas são aqueles que levados talvez até pelo zelo da verdade, e não podendo conceber que papas favoreçam a heresia, classificam esses desvios doutrinários como heresias formais e concluem que estes papas (inclusive o atual) perderam os seus cargos. Os mais extremistas acham que se deva eleger outro Papa e organizar outra hierarquia. E já o fizeram. Dizem que já foram eleitos vários papas. "Horribile dictu!!! Outros acham que a Igreja visível acabou. ( E isto já é heresia!). Alguns acham que a Igreja está sem Papa desde Pio XII. Dividem porém, sobre a causa exata e a data em que tal coisa aconteceu.
   Sobre este assunto D. Marcel Lefebvre dizia: "Prefiro partir do princípio de que tem que se defender nossa fé. Este é o nosso dever. Aqui não há lugar para dúvida alguma. Conhecemos a nossa fé. Se alguém ataca nossa fé, dizemos: não! Mas daqui a dizer em seguida que, porque alguém ataca nossa fé, é herético, logo não é mais autoridade, logo seus atos não têm valor... Atenção, atenção, atenção!... Não nos metamos em um círculo infernal do qual não saberemos como sair. Nesta atitude existe um verdadeiro perigo de cisma".
    Na próxima postagem trancreveremos o artigo de D. Antônio de Castro Mayer em que nos ensinou como não devemos ser nem progressistas nem sedevacantistas: "VIGÁRIO DE CRISITO".

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO ( I )

                
    Hodiernamente temos que falar e escrever sobre doutrina cientes de estarmos numa crise dentro da Igreja. Olvidá-lo seria correr o risco de açoitar o ar. Nem muito menos podemos nos esquecer de que a Igreja é divina.
   Pois bem! Em época de crise há sempre muitos perigos e quase sempre o perigo "dos extremos". A História da Igreja no-lo ensina. Caminhamos como sobre uma ponte estreita sem corrimão, num real perigo de cairmos tanto para um lado como para o outro. A prudência manda que em tal conjuntura, caminhemos no meio e com pé firme. Não quero com isto, de modo algum, dizer que se deva ficar sobre o muro. Não, absolutamente não!
   Quais são estes dois extremos que devemos evitar a todo custo? O Progressismo e o Sedevacantismo. E por incrível que pareça, há um caminho comum que leva a ambos: uma idéia errônea da Infalibilidade Pontifícia. Uma infalibilidade que não é a que foi definida pelo Concílio Vaticano I e por Pio IX. E só esta é que vale. Excogitar outra ou outras no intuito de querer salvar opiniões próprias, não é válido e nem legítimo.
   Há aqueles teólogos que parecem pretender corrigir um Concílio Ecumênico Dogmático. Querem ampliar os contornos definidos pelo Concílio Vaticano I. Excogitam distinções que não encontramos nas Atas deste Concílio nem nos teólogos tradicionais que as comentam. Não confiando na minha memória, consultei os  cinco Manuais de Teologia Dogmática que possuo: além de  outros manuais menores em que estudei desde o Seminário Menor.
   Há um axioma que diz: "Contra fatos não há argumentos". Assim,  há  fatos inegáveis de leis eclesiásticas que deram azo, espaço e mesmo motivo para abusos prejudiciais à almas.  Por exemplo, a reforma litúrgica post-conciliar estabeleceu a Comunhão na mão (à escolha do comungante); a existência de ministros e ministras extraordinários da Eucaristia. Já mostramos em post anterior que a comunhão na mão favorece as profanações e consequentemente prejudica a fé dos fiéis. Os ministros e ministras da Eucaristia que dão comunhão aos doentes, e ás vezes, durante muito tempo, sem o padre atender as confissões. Já imaginaram quantos sacrilégios isto pode causar?!  Quanto a Missa quero citar o então cardeal Ratzinger, hoje Bispo Emérito de Roma: "Se bem que haja numerosos motivos que possam ter levado um grande número de fiéis a encontrar refúgio na liturgia tradicional, o mais importante dentre estes motivos é que eles aí encontram preservada a dignidade do sagrado". (sublinhados nossos). No meu bestunto entendo assim: Os fiéis tradicionalistas têm motivo para fugir da Liturgia nova porque esta não oferece segurança para se conservar a dignidade do sagrado, principalmente na Santa Missa, pois ela é o que a Igreja tem de mais sagrado. Ratzinger, quando ainda cardeal, disse que era necessário fazer uma "reforma da reforma". Para quem quer entender é bem claro. Mas ele renunciou, e creio que só no dia do Juízo Final saberemos o real "porque". 
   Diante de fatos inegáveis de leis eclesiásticas que dão azo, espaço e mesmo motivos para abusos prejudiciais às almas, alguns concluem que o Papa não é papa. Caem no Sedevacantismo. Isto porque não admitem, que fora do campo da Infalibilidade um papa  possa prejudicar as almas com leis ambíguas.
   Outros, pelo mesmo motivo, ou seja, o papa não pode errar nunca em se tratando de leis eclesiásticas porque, além da infalibilidade positiva, existe uma outra chamada "negativa", aliás mais abrangente do que a própria infalibilidade absoluta e positiva. Então, temos que aceitar tudo de olhos fechados. E muitos caem no Progressismo. Existe sim a infalibilidade "passiva", ou seja, os fiéis, devidamente instruídos pelo Magistério Vivo, Perene e Infalível, também não erram, seguindo fielmente estes ensinamentos. 
   Como eu disse no início, estamos em tempo de crise na Igreja. Em tempos normais não seriam necessárias estas advertências.
   Mas o próprio Código das leis eclesiásticas, isto é, o Código de Direito Canônico, cânon 212 § 3 assim reza: "Os fiéis, segundo a ciência , a competência e a proeminência de que desfrutam, têm o direito e mesmo por vezes o dever, de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja, e de exporem aos restantes fiéis, salva a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas."
  Aqui, reconhece-se o direito à liberdade de expressão e de opinião pública dentro da Igreja acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja. Não há esta liberdade quando se trata de dogmas. Fora do campo da Infalibilidade há este direito, mas deve ser exercido com toda reverência devida aos Pastores.
   Caríssimos e amados leitores, é obvio que não podemos aceitar aquela teoria dos Galicanos segundo a qual a Infalibilidade é dada à Sé Romana e não a pessoa do Papa, de tal modo que, se um papa errar em questão de fé e moral, a Providência Divina daria um dia a um outro papa a visão infalível para corrigir o que o antecessor houvesse ensinado de errado contra a fé e/ou a moral.
   Porém, nos casos em que não entra a Infalibilidade, podemos sim dizer que a Providência Divina não deixará de enviar um papa que corrija o que estiver de alguma maneira prejudicando as almas. Assim entendemos as crises que sofre a Igreja, como eclipses que passam.
   Caríssimos e amados fiéis, nos casos em que não entra a Infalibilidade, a Igreja pode, inclusive mudar de rumo. Eis um exemplo: O Papa Pio VI em 1794 condenou os jansenistas do Sínodo de Pistóia que negavam a existência do Limbo das crianças: "É falsa, temerária e injuriosa às escolas católicas a doutrina que rejeita, como se fosse fábula pelagiana, o lugar inferior (pelos fiéis geralmente chamado limbo das crianças), onde as almas dos que morrem apenas com o pecado original são punidas pela pena do detrimento sem algum tormento do fogo".
  A Santa Igreja nos seus catecismos ensinava sempre a existência do Limbo das crianças. Mas nunca definiu como dogma. Por isso Pio VI qualifica a opinião dos jansenistas como "falsa", "temerária" e "injuriosa". Se se tratasse de dogma o papa teria dito que a proposição que nega o Limbo seria "herética", e teria lançado o anátema contra seus defensores. Aqui se trata de uma conclusão teológica e que entra na alçada das leis eclesiásticas, por causa do batismo das crianças.
   Pois bem! Hoje a linguagem do Catecismo da Igreja Católica é bem diferente. Diz no nº 1261:"Quanto às crianças mortas sem o Batismo, a Igreja só pode confiá-las à misericórdia de Deus(...) A ternura de Jesus para as crianças, que o levou a dizer: Deixai as crianças virem  mim, não as impeçais" (Mc 10,14), nos permitem esperar que haja um caminho de salvação para as crianças mortas sem Batismo".
  Há pouco tempo alguns teólogos quiseram passar na frente do Papa e foram concluindo que agora a Igreja não aceitava mais a existência do Limbo das crianças. Logo o Santo Padre o Papa Bento XVI esclareceu que a Igreja ainda não definiu nada a respeito. Mister se faz ainda muito estudo, disse ele. E muita gente já ia concluindo que não mais era necessário se preocupar com o Batismo das crianças.
   O mesmo Papa Pio VI condenou os mesmos jansenistas de Pistóia mas agora sobre questão de leis disciplinares, (que diga-se de passagem, também ainda não foi definido como dogma) diz Pio VI: "Como se a Igreja que é governada pelo Espírito de Deus, pudesse estabelecer uma disciplina não somente inútil e mais onerosa do que a liberdade cristã pode tolerar, mas que seria ainda perigosa, nociva, própria a induzir à superstição ou ao materialismo: proposição que ele condenou como "falsa, temerária, escandalosa, perniciosa, ofensiva aos ouvidos pios, injuriosa, pelo menos errônea" (Conf. Denzinger 1578).
   D. Antônio de Castro Mayer quando estava à frente da Diocese de Campos, escreveu ao Santo Padre o Papa Paulo VI dando todos os argumentos e mostrando as falhas e ambigüidades da Missa Nova, falhas e ambigüidades estas que a tornavam prejudicial à almas. Pois bem! Se fosse algo dogmático, o Santo Padre Paulo VI teria que exigir uma retratação e caso não fosse feita, teria excomungado a D. Antônio de Castro Mayer. Mas a Santa Sé não o fez, não respondeu aos argumentos apresentados. D. Mayer continuou na Diocese de Campos.
   Pelo que eu sei, posso até estar enganado, a Santa Sé não censurou aqueles que criticam a lei eclesiástica da Comunhão na mão. Aliás o que sabemos é que o Santo Padre (então Bento XVI) com muita prudência vinha agindo no sentido de voltar ao costume tradicional que desperta a piedade e a fé e não dá espaço à profanações. Até hoje creio que Mons. Gherardini não tenha sido censurado pelas críticas feitas ao Concílio Vaticano II etc. etc.
    Um outro exemplo muito esclarecedor: Santo Tomás de Aquino disse na Suma Teológica que as palavras da Consagração, por sua própria natureza, devem ser ditas em voz baixa. O Concílio de Trento anatematizou os que condenam o rito que manda dizer em voz baixa as palavras da Consagração (Ses. 22,cânon 9; cf. Denzinger-Sch. 1759). Pois bem!  O Novo "Ordo" da Missa afirma justamente o contrário, ou seja, que as palavras da Consagração, por sua própria natureza (grifo nosso), devem ser ditas em voz clara e audível (Rubrica nº 91). Devemos observar em primeiro lugar que pela Filosofia aprende-se que, quando se diz "por sua própria natureza" a coisa vale para sempre e em toda parte. O que é exigido pela própria natureza de uma coisa, é independente de tempo e espaço. E não só isto. Logo perguntamos como pode a Igreja ser sempre infalível nas suas leis se hoje adota o que ontem anatematizou. E recebemos interiormente a resposta: está provado que aí não entrou infalibilidade, mas, sendo Divina, a Igreja um dia voltará inteiramente ao rito que nunca foi abrogado e nunca poderá sê-lo. Esta nova liturgia é apenas uma eclipse que passa. 
   Mas tudo que Nosso Senhor permite é para daí se tirar algum bem. Qual bem? Um amor sempre maior a Santa Missa de Sempre. A Igreja se empenhar mais em fazer o que mandou o Santo Concílio de Trento: "Conservando o rito aprovado em toda parte de cada uma das igrejas e da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas, e para que as ovelhas de Cristo não sintam fome e não suceda que os pequeninos peçam pão e não haja quem lho reparta (Lam. de Jeremias 4, 4), manda o santo Concílio aos pastores e a cada um dos que têm cura de almas, que durante a celebração da Missa expliquem freqüentes vezes por si ou por outros algo sobre o que se lê na Missa, e falem sobre algum mistério deste santíssimo sacrifício, principalmente nos domingos e festas". 

RESUMO
   Observações: 1ª -  Infalibilidade significa segurança de não haver erro nem imprudência. Isto dentro das condições definidas pela Igreja no Concílio Vaticano I.
                           2ª -  A Igreja nunca definiu que fora destas condições ela não possa errar. Normalmente não erra. Mas, sobretudo em tempo de crise, podem acontecer erros  e imprudências. E nestes casos a bússola é a Sagrada Tradição.
                            3ª - Nenhum teólogo tem direito de acrescentar, diminuir ou modificar o que foi definido pela Santa Madre Igreja.
                             4ª - Nas coisas que a Igreja ainda não definiu há lugar para os teólogos discutirem estas questões abertas, mas não podem impor sua opinião. A Igreja é a única que pode dar a palavra final. Fá-lo quando define, e aí toda língua se cale. "Roma locuta, causa finita".
                              5ª - Seguindo estas normas não há perigo de se cair nem para um lado nem para o outro: NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO. Este será o título do próximo post, se Deus quiser.

sábado, 18 de novembro de 2017

O JUÍZO UNIVERSAL SEGUNDO S. AFONSO DE LIGÓRIO


(RESUMO)
"Cognoscetur Dominus judicia faciens"
Conhecido será o Senhor, que faz justiça (Salmo IX, 17).

O Redentor destinou o dia do Juízo Universal (chamado com razão, na Escritura, o dia do Senhor), no qual Jesus Cristo se fará reconhecer por todos como universal e soberano Senhor de todas as coisas (Sl  9, 17). Esse dia não se chama dia de misericórdia e perdão, mas "dia da ira, da tribulação e da angústia, dia de miséria e calamidade" (Sofonias I, 15). Nele o Senhor se ressarcirá justamente da honra e da glória que os pecadores quiseram arrebatar-Lhe neste mundo. Vejamos como há de suceder o juízo nesse grande dia.

A vinda do divino Juiz será precedida de maravilhoso fogo do céu (Salmo 96, 3), que abrasará a terra e tudo quanto nela exista (2 S. Pedro III, 10). Palácios, templos, cidades, povos e reinos, tudo se reduzirá a um montão de cinzas. É mister purificar pelo fogo esta grande casa, contaminada de pecados. Tal é o fim que terão todas as riquezas, pompas e delícias da terra. Mortos os homens, soará a trombeta e todos ressuscitarão (1 Cor. XV, 52). Dizia S. Jerônimo: "Quando considero o dia do juízo, estremeço. Parece-me ouvir a terrível trombeta que chama: Levantai-vos, mortos, e vinde ao juízo". Ao clamor pavoroso dessa voz descerão do céu as almas gloriosas dos bem-aventurados para se unirem a seus corpos, com que serviram a Deus neste mundo. As almas infelizes dos condenados sairão do inferno e se unirão a seus corpos malditos, que foram instrumentos para ofender a Deus.

Que diferença haverá então entre os corpos dos justos e dos condenados! Os justos aparecerão formosos, cândidos, mais resplandecentes que o sol (S. Mateus XIII, 43). Feliz aquele que nesta vida soube mortificar sua carne, recusando-lhe os prazeres proibidos, ou que, para melhor refreá-la, como fizeram os Santos, a macerou e lhe negou também os gozos permitidos dos sentidos! ... Pelo contrário, os corpos dos réprobos serão disformes,  e hediondos. Que suplício então para o condenado ter de unir-se a seu corpo! ... "Corpo maldito  -  dirá a alma   -  foi para te contentar que me perdi!" Responder-lhe-á o corpo: "E tu, alma maldita, tu que estavas dotada da razão, por que me concedeste aqueles deleites, que, por toda a eternidade, fizeram a tua e a minha desgraça?"

Assim que os mortos ressuscitarem, farão os anjos que se reúnam todos no vale de Josafá para serem julgados (Joel III, 14) e separarão ali os justos dos réprobos (S. Mat. XIII, 49). Os justos ficarão à direita; os condenados, à esquerda... Que confusão experimentarão os ímpios, quando, apartados dos justos, se sentirem abandonados! Disse S. João Crisóstomo que, se os condenados não tivessem de sofrer outras penas, essa confusão bastaria para dar-lhes os tormentos do inferno. Caríssimo irmão, abandona  o caminho que conduz à esquerda.

Os eleitos serão colocados à direita, e para maior glória   -  segundo afirma o Apóstolo  -  serão elevados aos ares, acima das nuvens, e esperarão com os anjos a Jesus Cristo, que deve descer do céu (1 Tess IV, 17). Os réprobos, à esquerda, como reses destinadas ao matadouro, aguardarão o Supremo Juiz, que há de tornar pública a condenação de todos os seus inimigos.

Abrem-se, enfim, os céus e aparecem os anjos para assistir ao juízo, trazendo os sinais da Paixão de Cristo, disse Santo Tomás. Singularmente resplandecerá a santa Cruz. "E então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu; e todos os povos da terra chorarão" (S. Mat. XXIV, 30). Os Apóstolos serão assessores e com Jesus Cristo julgarão os povos. Aparecerá, enfim, o Eterno Juiz em luminoso trono de majestade: "E verão o Filho do Homem, que virão nas nuvens do céu, com grande poder e majestade. À sua presença chorarão os povos" (S. Mat. XXIV, 30). A presença de Cristo trará aos eleitos inefável consolo, e aos réprobos aflições maiores que as do próprio inferno, disse S. Jerônimo. Cumprir-se-á, então, a profecia de S. João: "Os condenados pedirão às montanhas que caiam sobre eles e os ocultem à vista do Juiz irritado" (Apoc. VI, 16).

Começará o julgamento, abrindo-se os autos do processo, isto é, as consciências de todos (Dan. VII, 10). A própria consciência dos homens os acusará depois (Rom. II, 15). A seguir, darão testemunho clamando vingança, os lugares em que os pecadores ofenderam a Deus (Hab. II, 11). Virá enfim, o testemunho do próprio Juiz que esteve presente a quantas ofensas lhe fizeram (Jer. XXIX, 23). Disse S. Paulo que naquele momento o Senhor "porá às claras o que se acha escondido nas trevas" (1 Cor. IV, 5). Os pecados dos eleitos, no sentir do Mestre das Sentenças e de outros teólogos, não serão manifestados, mas ficarão encobertos, segundo estas palavras de Davi: "Bem- aventurados aqueles, cujas iniquidades foram perdoadas, e cujos pecados são apagados" (Salmo 31, 1). Pelo contrário   -  disse S. Basílio  -  as culpas dos réprobos serão vistas por todos, ao primeiro relancear d'olhos, como se estivessem representadas num quadro. Exclama S. Tomás: "Se no horto de Getsêmani, ao dizer Jesus: Sou eu, caíram por terra todos os soldados que vinham para o prender, que sucederá quando, sentado no seu trono de Juiz, disser aos condenados: "Aqui estou, sou aquele a quem tanto haveis desprezado!".

Chegada a hora da  sentença, Jesus Cristo dirá aos eleitos estas palavras, cheias de doçura: "Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo" (S. Mat. XXV, 34). Que consolação não sentirão aqueles que ouvirem estas palavras do soberano Juiz: "Vinde, filhos benditos, vinde a meu reino. Já não há mais a sofrer, nem a temer. Comigo estais e permanecereis eternamente. Abençoo as lágrimas que sobre os vossos pecados derramastes. Entrai na glória, onde juntos permaneceremos por toda a eternidade". A virgem Santíssima  abençoará também os seus devotos e os convidará a entrar com ela no céu. E assim, os justos, entoando gozosos Aleluias, entrarão na glória celestial, para possuírem, louvarem e amarem eternamente a Deus.

Os réprobos, ao contrário, dirão a Jesus Cristo: "E nós, desgraçados, que será feito de nós?" E o Juiz Eterno dir-lhes-á: Já que desprezastes e recusastes minha graça , apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (S. Mat. XXV, 34). Apartai-vos de mim, que nunca mais vos quero ver nem ouvir. Ide, ide, malditos, que desprezastes minha bênção..." Mas para onde, Senhor, irão estes desgraçados?... Ao fogo do inferno, para arder ali em corpo e alma..." E por quantos séculos?... Por toda a eternidade, enquanto Deus for Deus.

Depois desta sentença, abrir-se-á na terra um imenso abismo e nele cairão conjuntamente demônios e réprobos. Verão como atrás deles se fechará aquela porta que nunca mais se há de abrir... Nunca mais durante toda a eternidade!... Ó maldito pecado!... A que triste fim levarás um dia tantas pobres almas!... Ai! das almas infelizes às quais aguarda tão deplorável fim.


Meu Deus e meu Salvador! Já que declarastes pela boca do vosso Profeta: "Convertei-vos a mim, e eu me voltarei a vós" (Zac. I, 3), tudo abandono, renuncio a todos os gozos e bens do mundo, e converto-me, abraçando a Vós, meu amantíssimo Redentor. Recebei-me no vosso Coração e inflamai-me no vosso santo amor, de modo que jamais cogite em separar-me de Vós... Maria Santíssima, minha esperança, meu refúgio e minha mãe, ajudai-me e alcançai-me a santa perseverança. Amém!