terça-feira, 8 de agosto de 2017

HUMILDADE DO CURA D'ARS

Por Abbé A. Monnin

      Para quem não conhecesse o Cura d'Ars pela narração das coisas maravilhosas que se realizavam em torno dele e que lhe mereciam as ovações da multidão, era natural supor que, naquele ambiente de glória que o circundava, o orgulho lhe era, senão a armadilha, ao menos a tentação. Que provação, com efeito, permanecer humilde entre os testemunhos mais expressivos e mais retumbantes da veneração pública! Alguém insinuava certa vez essa ideia diante dele; ele compreendeu, e, levantando os olhos aos céu com uma expressão profunda de tristeza e quase de desalento, disse: "Ah! se ainda eu não fosse tentado de desespero!"
    Um dia recebeu ele uma carta cheia de coisas inconvenientes; pouco depois recebeu outra que só respirava veneração e confiança. e na qual lhe chamavam um santo. Ele o participou às suas caras filhas da Providência: "Vede, diz-lhes, o perigo que há em nos determos nos sentimentos humanos. Esta manhã eu teria perdido a tranquilidade da alma, se tivesse querido dar atenção às injúrias que me dirigiam, e esta tarde teria sido grandemente tentado de orgulho, se me tivesse fiado em todos aqueles cumprimentos. Oh! como é prudente não nos apegarmos às vãs opiniões e aos vãos discursos dos homens, e não fazer nenhum caso deles!"
    Ele dizia ainda a propósito dessas cartas: "Recebi duas cartas pelo mesmo correio; numa diziam que eu era um grande santo, noutra que eu era um hipócrita e um charlatão... A primeira não me acrescentava nada, a segunda nada me tirava: a gente é aquilo que é diante de Deus; e depois, nada mais!"
    Outra vez dizia ele: "O bom Deus escolheu-me para ser o instrumento das graças que ele faz aos pecadores, porque eu sou o mais ignorante e o mais miserável de todos os padres. Se houvesse na diocese um padre mais ignorante e mais miserável do que eu, Deus o teria aproveitado de preferência".
    O Cura d'Ars tinha uma sentença que lhe tornava com frequência à conversação: "Se dizem mal de vós, dizem o que é verdade; se vos cortejam, zombam de vós... Qual é melhor, que vos avisem, ou que vos iludam? que vos tomem a sério, ou que vos escarneçam?"
    O Padre Vianney nunca falava de si primeiro. Se o interrogavam, respondia com uma modéstia que impunha reserva e com um laconismo que reduzia o interlocutor ao silêncio. Depois cortava com tudo que lhe dizia respeito e só procurava desviar a conversa. No mais, esgotava em tais ocasiões todas as formas do desprezo, e a sua humildade era engenhosa em inventar formas novas. Fazia o elogio de um padre a quem estimava, e dizia, na sua linguagem imaginosa e pitoresca, que havia nele algo da andorinha e da águia.
    "- E em V. Revma., sr. Cura, que há?
    " - Oh! o que há em mim? Serviram-se para formar o Cura d'Ars duma pata, duma perua e de uma lagosta".
    "Como V, Revma. é bom", dizia o santo homem a um missionário recém-chegado a Ars, "de vir ajudar-nos!
    "- Sr. Cura, sem falar do prazer que temos de viver junto a V. Revma., é um dever que cumprimos.
    " -Oh não! é caridade!
    "- Sr. Cura não creia isso. Não há caridade da nossa parte. 
    "- Oh! há! Bem vê V. Revma., que, quando V. Revma., está aqui, isto ainda vai; mas quando eu estou sozinho, não valho nada. Sou como os zeros, que só têm valor ao lado dos outros algarismos... Estou velho demais, não presto para nada. 
    "- Sr. Cura, V. Revma. é sempre jovem pelo coração e pela alma.
    "- Sim, meu amigo, posso dizer, como um santo a quem perguntavam a idade, que ainda não vivi um dia".
    Na necessidade que o Padre Vianney sentia de se diminuir e rebaixar, fazia emprego contínuo do termo pobre. Era a sua pobre alma, o seu pobre cadáver, a sua pobre miséria, os seus pobres pecados. Tinha sempre a língua levantada para reconhecer suas faltas, e, a dar-lhe crédito, a sua vida inteira não bastaria para chorá-las. Só acusações tinha a formular contra si próprio.
    A humildade do seu coração fazia-lhe derramar verdadeiras lágrimas sobre a sua fraqueza e ignorância. Essas lágrimas só podiam ser enxugadas pela generosidade do seu ânimo que o premia a lançar-se de olhos fechados, com todas as suas impotências, nos braços de Deus. Ele se exprobrava tudo. Crer-se-ia que ele envelhecera no mal, que era o mais vil e o mais desgraçado dos pecadores. 
    "Como Deus é bom, dizia ele muitas vezes, para suportar as minha imensas misérias!"
    "Deus me fez esta grande misericórdia de não pôr nada em mim em que eu me possa apoiar, nem talento, nem ciência, nem força, nem virtude... Só descubro em mim, quando me considero, os meu pobres pecados. E ainda Deus permite que eu não os veja todos, e que não me conheça todo. Essa vista me faria cair no desespero. Não tenho outro recurso contra esta tentação do desespero senão lançar-me aos pés do tabernáculo, como um cachorrinho aos pés do dono..."
    O servo de Deus era do pequeno número dos que falam da humildade humildemente. "Senhor Cura, como fazer para ser direito? perguntava-lhe um dia alguém.
    "- Meu amigo, é preciso amar a Deus".
    "- Ah! e como fazer para amar a Deus?
    "- Ah! meu amigo, humildade! humildade! É o nosso orgulho que nos impede de nos tornarmos santos. O orgulho é a corrente do rosário de todos os vícios, a humildade é a corrente do rosário de todas as virtudes".
    Eis aqui sobre o mesmo assunto alguns pensamentos do servo de Deus:
   "A humildade é como uma balança; quanto mais a gente se abaixa de um lado, tanto mais é elevada do outro".
    "Os que nos humilham são nossos amigos, e não os que nos louvam".
    "Perguntavam a um santo qual era a primeira das virtudes, e ele respondeu: "É a humildade. - E a segunda? - A humildade. - E a terceira? - A humildade".
    "Jamais compreenderemos a nossa pobre miséria. Faz fremir só o pensar nisto! Deus só nos dá sobre isso uma pequena vista. Se nos conhecêssemos a fundo, como ele nos conhece, não poderíamos viver; morreríamos de pavor".
    "Os santos se conheciam melhor que os outros, e é por isto que eram humildes. Entravam em grandes confusões vendo que Deus se servia deles para fazer milagres. São Martinho era um grande santo e julgava-se um grande pecador. Atribuía aos seus pecados todos os males que sucediam no seu tempo".
    "Ai! não se concebe como e de que uma criatura tão pequena como nós possa orgulhar-se... O diabo apareceu um dia a São Macário, armado de um chicote como para batê-lo, e lhe disse: "Tudo isso que tu fazes eu faço: tu jejuas, eu nunca como; tu velas, eu nunca durmo. Só há uma coisa que tu fazes e eu não posso fazer. - Oh! que é então? - "humilhar-me!" respondeu o diabo; e sumiu-se!...
    "Há santos que punham em fuga o demônio dizendo: "Como sou miserável!"


SÃO JOÃO BATISTA MARIA VIANNEY! ROGAI POR NÓS!

segunda-feira, 31 de julho de 2017

OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO

Alguns excertos da Carta Encíclica "Mens Nostra" do papa Pio XI: ..."É coisa averiguada trazerem consigo os Exercícios Espirituais esta perfeição da vida cristã. Com ela, porém, dimana deles como que espontaneamente, além da paz interior da alma, outro ponto singularíssimo que magnificamente redunda em não pequena vantagem da causa social e é o zelo de ganhar almas para Cristo que se costuma denominar espírito apostólico... Proclamamos e temos o santo retiro dos Exercícios como Cenáculos, que o poder de Deus levantou para que as almas generosas, apoiadas no socorro da graça divina, esclarecidas à luz das verdades eternas, e animadas pelos exemplos de Cristo, não só venham a conhecer de uma maneira clara o preço das almas, e se inflamem  no  desejo de as ajudar em qualquer estado de vida, em que depois de diligente exame entendam dever servir ao seu Criador, mas também aprendam qual seja o ardor e quais as indústrias, os trabalhos e as ações valorosas do apostolado cristão... O mesmo Divino Mestre, não se contentando com os longos anos de escondimento na casa de Nazaré, quis passar quarenta dias inteiros no mais apartado ermo antes de mostrar às nações o pleno esplendor do seu brilho e antes de lhes ensinar de palavra a sua doutrina celeste. Mais ainda. Em plena atividade evangélica costumava de vez em quando  convidar os Apóstolos ao silêncio benfazejo do retiro: "vinde, apartai-vos para o deserto, a descansar um pouco" ( S. Marcos, XI, 31 ). E quando se ausentou desta terra de trabalhos para o céu, quis que os seus Apóstolos e discípulos recebessem a última perfeição no Cenáculo de Jerusalém, onde por espaço de dez dias "perseverando unânimes em oração" ( Atos I, 14 ), se tornassem dignos de receber o Divino Espírito Santo. Retiro verdadeiramente memorável, e primeiro esboço de Exercícios Espirituais. Dele saiu a Igreja, cheia de força e de perpétuo vigor... A partir deste dia a prática dos Exercícios Espirituais, embora não tivesse o nome e o método de que hoje em dia nos servimos, pelo menos na substância "tornou-se familiar entre os primeiros cristãos". Assim o afirmou S. Francisco de Sales ( Tratado do Amor de Deus, liv. 12,c.8 ) e no-lo indicam testemunhos evidentes, que se encontram nas obras dos Santos Padres. S. Jerônimo, por exemplo, exortava a nobre Matrona Celância: "Escolhei um lugar acomodado longe do estrépito da família, aonde como a porto seguro vos possais acolher. Aí, seja tal o gosto da leitura dos Livros Divinos, tão frequentes os tempos de oração, tão assídua a meditação sobre os novíssimos do homem, que com este repouso compenseis as ocupações do resto do tempo. Não pretendemos com estas palavras apartar-vos dos vossos; procuramos sim que aprendais ali  e mediteis como proceder com eles" ( PL., t 22, col. 1216 ).
   Contemporâneo de S. Jerônimo, o bispo de Ravena, S. Pedro Crisólogo, dirigia a todos os fiéis aquele tão conhecido convite:"Demos o espaço de um ano ao corpo; demos à alma alguns dias... Vivamos um pouco para Deus, já que para o século vivemos inteiramente... Ressoe a nossos ouvidos a voz de Deus; não seja perturbada a nossa atenção pelo ruído das ocupações domésticas... Assim amados irmãos, assim prevenidos, declaremos guerra ao pecado... seguros da vitória" ( PL., t. 52, col. 186 ).
   "Num tempo em que os bens temporais, com o consequente bem-estar material, se estendem em certa abundância aos operários e jornaleiros, levando-os assim a uma vida mais desafogada, foi providencial disposição da bondade e misericórdia de Deus tornar mais acessível ainda ao comum dos fiéis o tesouro celeste dos Exercícios Espirituais. Servirão de contrapeso que preservem o homem de cair tristemente no materialismo teórico e prático, para que o estão impelindo as vaidades que o arrastam e as comodidades e delícias da vida em que está engolfado. É por este motivo que justificadamente incitamos e favorecemos as obras em prol dos Exercícios".

  

LEMAS DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA

"TUDO PARA A MAIOR GLÓRIA DE DEUS"

   Só um interesse inspirou a vida deste santo extraordinário: o da glória de Deus e da salvação das almas. A este interesse sacrificou e subordinou tudo. É próprio dos santos fazer sempre e em tudo o que Deus quer: fazer a santíssima vontade de Deus e nunca a própria; ou melhor a própria vontade desaparece unida que foi inteiramente à Vontade de Deus. Fazer só o indispensavelmente necessário, com algum cuidado de evitar o pecado mortal, é característico dos tíbios e não dos santos. É mais perfeito procurar sempre o agrado de Deus e dirigir todos os atos à glória de Deus e à salvação da alma. 

"VENCE-TE A TI PRÓPRIO"

   A própria vida de Santo Inácio, desde a sua conversão, foi a fiel interpretação deste lema. Vencendo-se a si, tornou-se o grande Santo. O "vencer-se a si próprio" deve ser o programa de todos os que pretendem chegar à perfeição. O mundo é um vale de lágrimas e misérias, porque o primeiro homem não se soube vencer. O céu regurgita de Santos, que devem a glória ao combate contínuo, que sustentaram contra a natureza. - "Vence-te a ti mesmo" "Vince te ipsum" e terás garantida a tua salvação. Santo Inácio dizia: "Não há outro caminho para a santidade senão o da abnegação e da mortificação. Anima-te, pois! Começa resolutamente! Uma única mortificação, feita com decisão, é mais agradável a Deus que praticar muitas boas obras". 

"QUÃO DESPREZÍVEL É A TERRA QUANDO OLHO PARA O CÉU"

   "A boca fala da abundância do coração": Santo Inácio era chamado o homem que está sempre em colóquio com Deus e vê o céu aberto. Os olhos procuram o que mais lhes agradam. Caríssimos, nós somos cidadãos do céu. Ele é nossa pátria definitiva. Estamos na terra como peregrinos e estrangeiros. Portanto, despojemo-nos do apego a qualquer coisa da terra: riquezas, prazeres, honras. Olhemos para o céu. "Senhor! dai-me a vossa graça e o vosso amor: e serei suficientemente rico" (Santo Inácio).
   "SANTO INÁCIO DE LOIOLA!  ROGAI POR NÓS!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA ENQUANTO SACRIFÍCIO


"Em todo lugar é sacrificada e oferecida ao meu nome uma oblação pura" (Malaquias I, 11).

23. Enquanto sacrifício, esse mistério augustíssimo derrama não somente sobre cada homem, mas sobre todo o gênero humano, uma grandíssima abundância de frutos de salvação; por isso a Igreja costuma oferecê-lo assiduamente pela salvação do mundo inteiro. Convém que todos os piedosos cristãos se esforcem por aumentar cada vez mais a estima e o culto desse sacrifício; e nos nossos dias é isto mais do que nunca necessário. Por isto nós queremos que as suas virtudes múltiplas sejam conhecidas mais perfeitamente e mais atentamente meditadas.

24. Os princípios seguintes são manifestamente reconhecidos pelas luzes naturais da razão: Deus criador e conservador possui sobre os homens, quer a título privado quer sob o ponto de vista público, um poder supremo e absoluto; tudo o que somos e tudo o que temos de bom, individualmente e na sociedade, vem-nos da liberalidade divina: em troca, testemunhar a Deus o maior respeito como ao nosso senhor, e uma vivíssima gratidão como ao nosso principal benfeitor. E no entanto, hoje em dia quantos homens se contam que praticam e observam estes deveres com a piedade que convém? Se jamais houve época em que se mostrasse o espírito de revolta contra Deus é certamente esta, em que de novo reboam mais fortes contra Cristo estes gritos ímpios: "Não queremos que este reine sobre nós" (S. Luc. XIX, 14), e estas palavras criminosas "Arranquemo-lo do meio de nós" (Jer. XI, 19). E há mesmo uns que se encarniçam com impetuosa violência em banir definitivamente Deus de toda sociedade civil e conseguintemente de toda associação humana.

25. Se bem que um tal grau de demência celerada não se manifeste em toda parte, todavia é triste ver quantos esqueceram a divina Majestade, dos seus benefícios e sobretudo da salvação que Cristo nos adquiriu. Mas agora tal perversidade ou tal despreocupação devem ser reparadas por uma reduplicação de ardor de piedade comum para com o sacrifício eucarístico: nada pode honrar mais a Deus nem lhe ser mais agradável. Divina, com efeito, é a vítima que é imolada: por ela, pois, nós tributamos à augusta Trindade toda a honra exigida pela sua imensa dignidade; oferecemos também a Deus Pai um holocausto de valor e de doçura infinitos, seu Filho único; donde resulta que não somente rendemos graças à sua benevolência, mas nos quitamos inteiramente para com o nosso benfeitor.

26. Desse tão grande Sacrifício podemos e devemos recolher ainda um duplo fruto dos mais preciosos. A tristeza invade o espírito de quem reflete nesse dilúvio de torpezas que por toda parte se entornou depois, que, como dissemos, o poder divino foi deixado de lado e desprezado. O gênero humano parece, em grande parte, chamar sobre si a cólera do céu; de resto, essa messe de obras culpadas que se levanta está também madura para a justa reprovação de Deus. Cumpre, pois, excitar os fiéis piedosos e zelosos a se esforçarem por aplacar a Deus que pune os crimes, e por obterem para um século de calamidades socorros oportunos. Saibamos que esses resultados devem ser pedidos sobretudo por esse Sacrifício. Porquanto não podemos satisfazer plenamente as exigências da divina justiça, nem obter em abundância os benefícios da clemência divina, senão pela virtude da morte de Cristo. Ele quis que essa virtude da morte de expiação e de oração ficasse inteira na Eucaristia: esta não é uma vã e simples comemoração da sua morte, mas é a sua reprodução verdadeira e maravilhosa, posto que mística e incruenta.

27. Aliás, apraz-nos declará-lo, grande alegria experimentamos em ver que nestes últimos anos as almas dos fiéis começaram a renovar-se no amor e devoção ao sacramento da Eucaristia, o que nos faz esperar tempos e acontecimentos melhores [ndr.: foi o tempo de São Pio X, o Papa da Eucaristia]. Neste intuito, como fizemos notar no início desta Carta, obras numerosas e variadas foram estabelecidas por uma piedade inteligente, especialmente as confrarias, fundadas quer para aumentar o brilho das cerimônias eucarísticas, quer para adorar perpetuamente, dia e noite, o augusto Sacramento, quer enfim para reparar os insultos e as injúrias que a ele são feitos. Todavia, Veneráveis Irmãos, não nos é lícito, nem a vós tão pouco, descansar sobre o que foi realizado: porque muito mais ainda resta por fazer e por empreender para que esta dádiva, de todas a mais divina, receba, daqueles mesmos que praticam os deveres da religião cristã, homenagens mais numerosas e mais esplendentes, e para que tão grande mistério seja honrado o mais dignamente possível.

Conclusão: renovar o antigo fervor.

28. É por isso que cumpre aperfeiçoar com ardor dia a dia mais vigoroso as obras empreendidas, fazer reviver, onde quer que tenham desaparecido, as antigas instituições, e entre outras as confrarias eucarísticas, as rogações ao Santíssimo Sacramento exposto às adorações dos fiéis, as procissões solenes e triunfais feitas em sua honra, as piedosas genuflexões diante dos divinos tabernáculos, e todas as outras santas e salutaríssimas práticas do mesmo gênero; cumpre-nos, além disso, empreender tudo aquilo que nesta matéria podem sugerir-nos a prudência e a piedade. Mas é preciso sobretudo nos esforçarmos por fazer reviver em larga medida nas nações católicas o uso frequente da Eucaristia. É o que ensinam o exemplo da Igreja nascente, lembrado mais acima, os decretos dos Concílios, a autoridade dos Padres e dos homens mais santos de todas as épocas. Como o corpo, a alma precisa a miúdo de alimento: ora, a Sagrada Eucaristia oferece-lhe o alimento de vida por excelência. E é por isso que mister se faz dissipar os preconceitos dos adversários, os vãos temores de grande número de pessoas, e afastar absolutamente as razões especiosas de se abster da comunhão. Porque se trata de uma devoção que, mais do que qualquer outra, será útil ao povo cristão, já para desviar o nosso século da sua inquieta solicitude pelos bens perecíveis, já para fazer renascer e alimentar constantemente em nossas almas o espírito cristão.

29. Sem dúvida alguma, as exortações e os exemplos dados pelas classes elevadas, mormente o zelo e a atividade do clero, para isso contribuirão poderosamente. Com efeito, os sacerdotes que o Cristo Redentor encarregou de cumprir e de dispensar os mistérios do seu Corpo e do seu Sangue, melhor não podem certamente agradecer-lhe a grandíssima honra que receberam, do que se esforçando para desenvolver com todo o seu poder a glória eucarística de Jesus Cristo, e, consoante os desejos do seu Coração santíssimo, convidar e atrair as almas dos homens às fontes ordinárias de tão augusto sacramento e de tão grande sacrifício".


(Excerto da Encíclica "MIRAE CARITATIS" escrita pelo Papa Leão XIII em 28 de maio de 1902). 

domingo, 16 de julho de 2017

ORIGENS DA ORDEM CARMELITANA

Era o ano 860 antes de Cristo. As Sagradas Escrituras no 1º Livro dos Reis, XVIII, 16 a 45 assim nos narram: "Acab saiu a encontrar-se com Elias. E, vendo-o, disse: Porventura és tu aquele que trazes perturbado Israel? Elias respondeu: Não sou eu que perturbei Israel, mas és tu e a casa de teu pai, por terdes deixado os mandamentos do Senhor, e por terdes seguido Baal. Mas, não obstante, manda agora, e faze juntar todo o povo de Israel no monte Carmelo, como também os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, os quatrocentos profetas dos bosques, que comem da mesa de Jezabel. Mandou, pois, Acab chamar todos os filhos de Israel e juntou os profetas no monte Carmelo.


  Elias, aproximando-se de todo o povo disse: Até quando claudicareis vós para dois lados? Se o Senhor é Deus, segui-o; se, porém, é Baal, segui-o. O povo não respondeu palavra. Elias tornou a dizer ao povo: Eu sou o único que fiquei dos profetas do Senhor; mas os profetas de Baal chegam a quatrocentos e cinquenta homens. Deem-nos dois bois: escolham eles para si um boi, e, fazendo-o em pedaços, ponham-no sobre a lenha, mas não lhe ponham fogo por baixo; eu tomarei o outro boi, pô-lo-ei sobre a lenha e também não lhe porei fogo por baixo. Invocareis vós os nomes dos vossos deuses, e eu invocarei o nome do meu Senhor. O Deus que ouvir, mandando fogo, esse seja considerado o ( verdadeiro ) Deus. Todo o povo, respondendo, disse: Ótima proposta. Disse, pois Elias aos profetas de Baal: Escolhei para vós um boi e começai vós primeiro, porque sois em maior número; invocai os nomes dos vossos deuses e não ponhais fogo por baixo.

  
Eles,pois, tomando o boi que lhes foi dado, sacrificaram-no, e invocaram o nome de Baal, desde manhã até o meio-dia dizendo: Baal, ouve-nos. Mas não se percebia voz, nem havia quem respondesse. E saltavam diante do altar que tinham feito. Sendo já meio-dia, Elias escarnecia-os, dizendo: Gritai mais alto, porque ele é um deus, e talvez esteja falando em alguma estalagem, ou em viagem, ou dorme e necessita que o acordem. Eles, pois, gritavam em alta voz, e retalhavam-se segundo o seu costume, com canivetes e lancetas, até se cobrirem de sangue. Mas, passado o meio-dia, e enquanto eles profetizavam, chegou o tempo em que era costume oferecer-se o sacrifício, e não se ouvia voz, nem havia quem respondesse, nem ouvisse os seus rogos. Disse Elias a todo o povo: Aproximai-vos de mim. Aproximando-se o povo dele, Elias reparou o altar do Senhor, que tinha sido destruído. Tomou doze pedras, segundo o número das tribos dos filhos de Jacó, a quem o Senhor dirigira a sua palavra, dizendo: Israel será o teu nome. Com estas pedras edificou um altar em nome do Senhor. Fez um regueiro como dois pequenos sulcos, em volta do altar, acomodou a lenha, dividiu o boi em quartos, pô-lo sobre a lenha, e disse: Enchei de água quatro talhas, entornai-as sobre o holocausto e sobre a lenha. Disse outra vez: Fazei isto ainda segunda vez. E, tendo-o eles feito segunda vez, disse: Fazei ainda terceira vez, isto mesmo. Eles o fizeram terceira vez. As águas corriam em volta do altar e o regueiro encheu-se.

   Sendo já o tempo de se oferecer o holocausto, chegando-se o profeta Elias, disse: Ouve-me, Senhor, ouve-me, para que este povo aprenda que tu és o Senhor Deus e que converteste novamente o seu coração.

   O fogo do Senhor baixou do céu, devorou o holocausto, a lenha e as pedras, consumindo o mesmo pó e a água que estava no regueiro. Todo povo vendo isto, prostrou-se com o rosto em terra e disse: O Senhor é o Deus! O Senhor é o Deus! Elias disse-lhes: Apanhai os profetas de Baal, não escape deles nem um só. Tendo-os o povo agarrado, Elias levou-os à torrente de Cison, onde os matou.

   Elias disse a Acab: Vai, come e bebe, porque já se ouve o ruído duma grande chuva. Acab retirou-se a comer e beber; Elias, porém, subiu ao alto do Carmelo, e, inclinado por terra, pôs o seu rosto entre os joelhos, e disse ao seu criado: Vai e olha para o lado do mar. Tendo este ido e tendo olhado, disse: Não há nada. Elias disse-lhe segunda vez: Torna a ir sete vezes. À sétima vez, eis que se levanta do mar uma pequena nuvem, como a pegada dum homem. Disse-lhe Elias: Vai e dize a Acab: Manda atrelar os cavalos no seu carro e corre, não te apanhe a chuva.
   E, quando ele voltava para uma e para outra parte, eis que se cobriu o céu de trevas, vieram nuvens e vento e caiu uma grande chuva". Até aqui as palavras das Sagradas Escrituras. ( 1Reis, XVIII, 16 a 45 ).

   Esmagada que foi a cabeça do demônio que suscitara a idolatria, destruído aquele nefasto ecumenismo, exterminados os falsos profetas, apareceu no céu o sinal da Virgem, e na terra, terão início a sua Ordem e o seu culto, oitocentos e poucos anos antes de seu nascimento.

   Num futuro não tão longe, doutores da Igreja como Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São João Damasceno e outros, explicarão ao mundo como esta nuvenzinha, erguendo-se pura do mar amargo, e deixando atrás as impurezas do mar, é figura de uma Virgem Imaculada, que sairá pura do mar da humanidade, liberta de toda impureza do pecado original.

   Dois mil e cento e dez anos mais tarde, São Luiz IX, rei de França, ouviu falar da santidade de certos monges do Carmelo, dos quais alguns haviam emigrado para a Europa, por causa das vitórias dos sarracenos na Palestina. E São Luiz IX foi a Palestina , subiu o Monte Carmelo. Desejava conhecer aqueles monges que a si mesmos se denominavam Eremitas de Santa Maria do Monte Carmelo. Queria-os também em França e ficou maravilhado ao ouvir da boca daqueles monges o relato da tradição da Ordem. Dizem que são descendentes do profeta Elias. E este lhes ensinara que vira numa nuvem com a forma de pegada humana, que pelo poder divino, se levantara do mar, uma imagem profética da Virgem Maria Imaculada, a qual havia de trazer a salvação dos homens, e vencer o orgulho de satanás, com o seu calcanhar de humildade. Elias ensinara a seus discípulos a implorar a vinda desta Virgem, dizendo que a planta do pé que a nuvem apresentava manifestava em si a maldição divina contra o demônio. "Porei inimizades entre ti e a mulher; entre a tua descendência e a descendência dela: tu armarás ciladas ao seu calcanhar e Ela esmagará a tua cabeça". ( Gen. III, 15 ).

   Contaram, também, a São Luiz IX que, na plenitude dos tempos, tendo aparecido a Virgem Imaculada, e depois da Encarnação do Verbo, a própria Virgem Maria se dignou visitá-los; e a Sagrada Família ao voltar de seu exílio de sete anos no Egito, havia descansado algum tempo com eles. Por eles fora construída ali no Monte Carmelo, a primeira capela do mundo dedicada à Mãe de Deus.

   São Luiz IX ficou edificado e cheio de reverência ao ver a santidade daqueles monges e ao ouvir este relato.

   E uns trinta anos antes da ida de São Luiz IX ao Monte Carmelo, alguns destes monges haviam se transferido para a Inglaterra. Ali tinha-se-lhes reunido um homem muito santo chamado Simão. Recebera o apelido de "stock"por ter vivido solitário na concavidade do tronco de uma árvore no interior de uma floresta inglesa, tal como Elias havia vivido nas grutas naturais do Carmelo.

   Dadas as perseguições,muitos carmelitas passaram para a Europa. Foi mister, então, nomear um Vigário Geral na Europa. Simão Stock foi o escolhido e, seis anos mais tarde foi eleito geral de todo Ordem.

  
O demônio que tem ódio a Maria Santíssima e a sua descendência, fomentou toda espécie de discórdias e perseguições tanto fora como dentro da Ordem do Carmelo. Vemos por isso no ano de 1251 Simão retirar-se para o Mosteiro de Cambridge, curvado sob o peso dos seus 90 anos e do de tantas provações. Ajoelhado na sua pequenina cela derrama a sua alma em ardentíssimos suspiros: "Flor do Carmelo, vinha florífera, esplendor do céu, virgem fecunda, singular. Ó Mãe benigna, sem conhecer varão, aos carmelitas dá privilégios, ó Estrela do mar"!

   E ao levantar os olhos velados pelas lágrimas, a cela enche-se-lhe de uma grande luz: Rodeada por uma multidão de anjos a Rainha do Céu desce até ele, trazendo na mão e Escapulário marrom castanho dos monges e diz-lhe;"Recebe filho queridíssimo, este hábito da minha Ordem: isto será para ti e para todos os carmelitas um privilégio. Quem morrer revestido dele não sofrerá o fogo eterno". Era o dia 16 de julho de 1251.

   A partir daí veio a paz, e a Ordem tornou-se objeto de simpatia no mundo inteiro. Eis Maria Santíssima esmagando a cabeça da infernal serpente.

   A Santa Madre Igreja reconhece o profeta Elias como o fundador da Ordem Carmelitana.Na Basílica de São Pedro no Vaticano, por ordem dos papas, foram colocadas as imagens de todos os santos fundadores de Ordens Religiosas. E, assim, lá foi colocada, por ordem do papa Bento XIII em 26 de junho de 1725, a imagem do Santo Profeta Elias, reconhecido por toda Ordem Carmelitana como o seu Fundador.






sábado, 15 de julho de 2017

FRUTOS QUE SE DERIVAM DA DEVOÇÃO À SS. EUCARISTIA


"Vinde a mim, vós todos, que estais oprimidos, e eu vos aliviarei" (S Mateus XI, 28).

20. Estes poucos ensinamentos a propósito de um assunto tão vasto serão, não duvidamos, fecundos em frutos de salvação para o povo cristão se, por vossos cuidados, Veneráveis Irmãos, forem em tempo oportuno expostos e recomendados. Mas esse sacramento é tão grande e tão abundante em toda sorte de virtudes, que ninguém poderá jamais nem lhe celebrar assaz eloquentemente os louvores, nem por suas adorações honrá-lo como ele o merece. Quer o meditemos com piedade, quer o adoremos nas cerimônias oficiais da Igreja, quer sobretudo o recebamos, com a pureza e a santidade requeridas, deve ele ser considerado como o centro de uma vida cristão tão completa como pode sê-lo; todas as outras modalidades de piedade, quaisquer que sejam, conduzem e vão ter, em última análise, à Eucaristia. Mas é principalmente neste mistério que se realiza e se cumpre cada dia o benévolo convite e a promessa, mais benévola ainda, de Cristo: Vinde a mim, vós todos, que estais onerados, e eu vos aliviarei (S. Mat. XI< 28).

21. Esse mistério, finalmente, é como que a alma da Igreja; é para ele que se eleva a própria plenitude da graça sacerdotal pelos diversos graus das Ordens. É nele, ainda, que a Igreja haure e possui toda a sua virtude e toda a sua glória, todos os tesouros das graças divinas e todos os bens: por isso ela consagra os maiores desvelos a dispor e a trazer os espíritos dos fiéis a uma íntima união com Cristo por meio do sacramento de seu Corpo e de seu Sangue; é pelo mesmo motivo que ela procura fazê-lo venerar ainda mais pelo esplendor das suas cerimônias mais santas. A perpétua solicitude desenvolvida a este respeito pela Igreja, nossa Mãe, é magnificamente salientada por uma exortação publicada no santo Concílio de Trento, a qual respira uma caridade e uma piedade admiráveis e merece verdadeiramente que a transmitamos integralmente ao povo cristão: "O Santo Concílio adverte com afeto paternal, exorta, pede e conjura, pelas entranhas da misericórdia de nosso Deus, todos  e cada um dos que trazem o nome de cristãos, a se unirem enfim e viverem em boa harmonia nesse sinal da unidade, nesse vínculo da caridade, nesse símbolo de concórdia; a se lembrarem da tão grande majestade e do tão admirável amor de Jesus Cristo Nosso Senhor, que deu sua alma bem-amada como preço da nossa salvação, e que nos deixou seu corpo como alimento; a crerem e a venerarem esses mistérios sagrados do corpo e do sangue de Cristo com uma fé tão constante e tão firme, com uma devoção, uma piedade e um respeito tais, que possam frequentemente receber esse pão supersubstancial, que este seja deveras a vida das suas almas e a saúde perpétua dos seus corações, e que, fortificados por esse alimento, possam, ao sair desta miserável vida, chegar à pátria celeste, onde se nutrirão sem velame desse Pão dos anjos que agora só lhes é distribuído sob os véus sagrados" (Sess. XIII, De Echar., X, c. VIII).

22. Também a história nos atesta que a vida cristã foi especialmente florescente no povo nas épocas em que a Eucaristia era recebida mais frequentemente. Em compensação, e fato é este não menos certo, as pessoas se habituaram a ver o vigor da fé cristã enfraquecer-se sensivelmente à medida que os homens negligenciavam o pão celestial e, por assim dizer, lhe perdiam o gosto. Para que essa fé não desaparecesse completamente, no Concílio de Latrão Inocêncio III tomou uma medida oportuníssima, fazendo para todo cristão uma obrigação gravíssima de não se abster da comunhão do Corpo do Senhor ao menos por ocasião das solenidades pascais. Evidente é, porém, que esse preceito foi dado com pesar e como remédio extremo: porque a Igreja sempre desejou que em cada sacrifício os fiéis pudessem participar desse banquete divino. "O Santo Concílio desejaria que em cada missa os fiéis presentes não fizessem apenas a comunhão espiritual, mas, também que viessem receber sacramentalmente a Eucaristia; assim os frutos desse Santíssimo Sacrifício manariam mais abundantes sobre eles" (Conc. Trid. sess. XXII, c. VI).


(Excerto da Encíclica "MIRAE CARITATIS"  de Leão XIII sobre a Santíssima Eucaristia, escrita em 1902). 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA E O PURGATÓRIO



18. "Ademais, o benefício da caridade mútua entre os vivos, à qual o sacramento eucarístico traz tanta força e incremento, derrama-se principalmente, pela virtude do sacrifício, sobre todos aqueles que são abrangidos pela Comunhão dos Santos. Esta, como ninguém ignora, outra coisa não é senão uma comunicação mútua de socorros, de expiações, de orações, de benefícios entre os fiéis, quer os que já estão de posse da pátria celeste, quer os que ainda estão condenados às chamas expiatórias, quer enfim os que ainda são viandantes nesta terra, mas não formando todos senão uma só cidade que tem por cabeça Cristo e por forma a caridade. Ora, a fé ratifica esse dogma: conquanto só a Deus seja lícito oferecer o augusto sacrifício, podemos entretanto celebrá-lo em honra dos santos que reinam nos céus com Deus que os coroou, no intuito de nos conciliarmos o patrocínio deles, e também, como o ensinaram os apóstolos, a fim de apagarmos as faltas de nossos irmãos que, mortos no Senhor, ainda não expiaram completamente.


19. Assim, pois, a caridade sincera, acostumada a fazer tudo e a tudo sofrer pela salvação e pelo bem de todos, jorra, abundante, ardente e cheia de atividade, da santíssima Eucaristia; na Eucaristia Cristo reside, vivo ele próprio; nela, entrega-se sobretudo ao seu amor para conosco; nela enfim, arrastado pelo transporte da sua divina caridade, renova incessantemente o seu sacrifício. Assim, fácil é ver em que fonte os homens apostólicos hauriram a sua força para os seus duros labores, e d onde as instituições católicas, tão numerosas e tão diversas, que se têm tornado beneméritas da família humana, tiram a sua inspiração, o seu poder, a sua perpetuidade e os seus felizes resultados". (Excerto da Encíclica "MIRAE CARITATIS" de Leão XIII sobre a Santíssima Eucaristia). 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

JESUS NA EUCARISTIA FOMENTA VÁRIAS OUTRAS VIRTUDES


"Aquele que come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia" (S. João VI, 55).
"Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha" (1 Cor. XI, 26).
"Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, nós todos que participamos de um mesmo pão" (1 Cor. X, 17).

A esperança

13. Eis aqui outro efeito deste sacramento: ele fortifica maravilhosamente assim a esperança dos bens imortais como a confiança no socorro divino. De feito, o desejo da felicidade, natural a todas as almas e inato nelas, é cada vez mais aguçado pela falsidade dos bens terrenos, pelas injustas violências de homens infames, enfim por todas as outras dores físicas e morais. Ora, o augusto sacramento da Eucaristia é ao mesmo tempo a causa e o penhor da felicidade e da glória, não para a alma somente, mas também para o corpo. Porquanto, enriquecendo as almas da abundância dos bens celestes, eles as inundam de alegrias dulcíssimas bem superiores aos que os homens imaginam e esperam: ampara-os na adversidade, dá-lhes forças no combate pela virtude, guarda-os para a vida eterna, e a ela os conduz fornecendo-lhes de alguma sorte os víveres necessários à viagem. Quanto ao corpo frágil e sem força, essa divina Hóstia comunica-lhe o germe da ressurreição futura: o corpo imortal de Cristo infunde-lhe uma semente de imortalidade que, um dia, germinará e dará seus frutos. Que esta dupla sorte de bens deva daí resultar para a alma e para o corpo, sempre o ensinou a Igreja, conformemente à afirmação de Cristo: "Aquele que come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (Jo VI, 55).

A penitência

14. O nosso assunto leva-nos a considerar, e é isto para nós de grande interesse, que a Eucaristia, instituída por Nosso Senhor como um memorial eterno da sua paixão, demonstra ao cristão a necessidade de emendar-se eficazmente (S. Tomás de Aquino, Opusc. LVIII, Ofício da festa do SS. Sacramento). Jesus disse, efetivamente, aos seus primeiros sacerdotes: Fazei isto em memória de mim (S. Lucas, XXII, 19); quer dizer, fazei-o para recordar minhas dores, minhas amarguras, minhas angústias, minha morte na cruz. É por isso que este sacramento - e esse sacrifício   -  é uma exortação constante a fazer penitência em todo tempo, e a suportar os maiores sofrimentos; é também uma grave e severa condenação desses prazeres que homens sem pudor tanto gabam e exaltam: Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha (1 Cor XI, 26).

A caridade do próximo

15. Além disso, se investigarmos seriamente as causas dos males presentes, veremos que eles decorrem de haver a caridade dos homens entre si esmorecido ao mesmo tempo que se lhes arrefecia o amor a Deus. Eles se esqueceram de que são filhos de Deus e irmãos em Jesus Cristo; não se preocupam senão com seus interesses pessoais; quanto aos negócios alheios, não somente os descuram, mas não raras vezes os atacam e deles se apossam. Daí, entre as diversas classes de cidadãos, distúrbios e frequentes conflitos: a arrogância, a dureza e as fraudes, entre os poderosos; entre os pequenos, a miséria, a invejas e as divisões. Debalde se procura remediar esses males por leis previdentes pelo temor do castigo e pelos conselhos da prudência humana. Como já mais de uma vez e mais detidamente lembramos, é preciso preocupar-se e esforçar-se por obter que, por uma permuta de bons ofícios, as diversas classes de cidadãos contraiam entre si uma união de que Deus seja o princípio, e que produza  obras conformes ao espírito fraterno e à caridade de Jesus Cristo. Trouxe Cristo à terra essa virtude e quis que todos os corações sejam abrasados dela, a única capaz de proporcionar, mesmo para a vida presente, um pouco de felicidade assim para a alma como para o corpo: por ela, com efeito, o amor imoderado de si é refreado no homem;  por ela é reprimido o desejo ardente das riquezas, que é a raiz de todos os males (1Tim VI, 10). Se bem que, em verdade, se devam fazer observar todas as prescrições da justiça nas relações das diversas classes de cidadãos, todavia é principalmente com o socorro e os temperamentos da caridade que se poderá enfim obter a realização e a mantença, na sociedade humana, dessa igualdade aconselhada por São Paulo (2 Cor. VIII, 14).

16. Instituindo esse augusto sacramento, Cristo quis excitar o amor a Deus e, por esse mesmo fato, reaquecer o afeto mútuo entre os homens. Evidente é, com efeito, que este deriva naturalmente daquele, e que dele decorre como que espontaneamente. É impossível que ele venha a faltar no quer que seja; muito mais, ele será necessariamente ardente e vigoroso se os homens considerarem seriamente nesse sacramento o amor de Cristo a eles: aí, o poder e a sabedoria de Cristo manifestam-se com esplendor, e as riquezas do seu divino amor aos homens aí são como que derramadas (Conc. Trid. ss. XIII. De Euchar., cap. II). À vista do exemplo insigne de Cristo prodigalizando-nos todos os seus bens, quanto não devemos nós amar-nos e ajudar-nos mutuamente, nós que estamos unidos por laços fraternos cada dia mais estreitos! Acrescentemos que os sinais constitutivos desse sacramento são, por sua vez incitamentos muito apropriados a essa união. A este respeito, S. Cipriano escreve: Enfim, os próprios sacrifícios do Senhor afirmam a universal união dos cristãos entre si por uma caridade firme e indissolúvel. Com efeito, quando o Senhor chama "seu corpo" ao pão formado por um conjunto de grãos, indica a união do nosso povo; e quando chama "seu sangue" ao vinho espremido desses milhares de cachos ou bagos de uva e formando uma só quantidade líquida, designa também o nosso rebanho formado pelo mistura de uma multidão de homens reunidos (Ep. 69, ad Magnum, n. 5). Do mesmo modo, nestes termos reproduz o Doutor angélico o pensamento de Agostinho (Trat. XXVI, in Joan., n. 13, 17): Nosso Senhor confiou seu corpo e seu sangue a essas substâncias que são formadas de múltiplos elementos reduzidos a um só corpo; primeiramente é o pão, composto de numerosos grãos reunidos; e em seguida é o vinho, proveniente de bagas inúmeras; e é por isso que Agostinho diz noutro lugar: Ó sacramento de piedade, ó sinal de unidade, ó vínculo de caridade! (Sum. Theol., III p., q. 79).

17. Essa doutrina é confirmada pelo Concílio de Trento, que ensina haver Cristo deixado à Igreja a Eucaristia "como o símbolo da sua unidade, e da caridade pela qual Ele quis que todos os cristãos fossem unidos e ligados entre si...; o símbolo desse corpo único de que Ele foi a cabeça, e ao qual quis que estejamos intimamente presos, como membros, pelos laços estreitíssimos da fé, da esperança e da caridade" (Sessão XIII, De Euchar., c. II). É também o que São Paulo ensinara: Por sermos um só pão, um só corpo, apesar do número, nós todos, que participamos de um só pão (1 Cor X, 17). E, certamente, belíssimo e dulcíssimo exemplo de fraternidade cristã e de igualdade social é ver se comprimirem indistintamente em torno dos altares o patrício e o homem do povo, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, participando todos igualmente do mesmo banquete celeste. E se, merecidamente, nos anais dos seus primórdios, cabe à Igreja uma glória especial de que a multidão dos crentes não tivesse senão um só coração e uma só alma (Atos IV, 32), não há dúvida alguma de que esse resultado tão precioso era devido à frequentação da mesa divina. Lemos, com efeito, a respeito dos primeiros cristãos: Eles perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão da fração do pão (Atos II, 42).

(Da Encíclica "MIRAE CARITATIS"  de Leão XIII Sobre a Santíssima Eucaristia). 

terça-feira, 11 de julho de 2017

JESUS NA EUCARISTIA FOMENTA A FÉ E REFREIA AS PAIXÕES


"O Senhor instituiu um memorial das suas maravilhas, ele que é misericordioso e compassivo. Deu alimento aos que o temem"  (Salmo 110, 4 e 5).

A fé

10. Graças a esse sacramento excelentíssimo, onde aparece sobretudo como os homens são elevados à natureza divina, podem estes fazer os maiores progressos em todas as virtudes da ordem sobrenatural. E primeiramente a fé. Em todos os tempos a fé tem tido os seus adversários: porquanto, se bem que ela eleve o espírito humano pelo conhecimento das verdades mais sublimes, todavia, como mantém oculta a natureza dessas verdades que ela mostra como excedendo a natureza, por isso mesmo parece rebaixar os espíritos. Outrora atacava-se ora tal dogma de fé, ora tal outro; mais tarde, essa guerra estendeu a muito mais longe as suas devastações, e, na hora presente, chegou-se afirmar que absolutamente não existe nada de sobrenatural. Ora, nada mais apto a reconduzir aos espíritos o vigor e o fervor da fé que o mistério eucarístico, propriamente chamado o mistério de fé: por uma especial abundância e variedade de milagres, ele sozinho contém tudo o que está acima da natureza: O Senhor clemente e misericordioso perpetuou a lembrança de suas maravilhas: deu um alimento aos que o temem (Salmo 110, 4 e 5). Realmente, se Deus fez tudo o que está acima da natureza, referiu-o à Encarnação do Verbo, pela qual devia operar-se a restauração e a salvação do gênero humano, consoante a palavra do Apóstolo: Ele se propôs... restaurar em Cristo tudo o que está no céu e tudo o que está na terra (Efésios I, 9  e 10).

11. No testemunho dos santos Padres, a Eucaristia deve ser considerada como uma continuação e uma extensão da Encarnação; por ela, a substância do Verbo encarnado é ainda a cada um dos homens, e o supremo sacrifício do Calvário é renovado de maneira admirável, segundo esta profecia de Malaquias: Em todo lugar é sacrificada e oferecida ao meu nome, uma oblação pura (Malaquias I, 11). Esse milagre, o maior de todos no seu gênero, é acompanhado de milagres inúmeros. Aqui todas as leis da natureza são suspensas: toda a substância do pão e do vinho é convertida no Corpo e no Sangue de Cristo; as espécies do pão e do vinho, não contendo realidade alguma, são sustentadas pelo poder divino; o corpo de Cristo acha-se presente simultaneamente em tantos lugares quantos lugares houver onde o sacramento se cumpre simultaneamente. E, para obter da razão humana uma maior submissão a respeito de tão grande mistério, milagres realizados outrora e em nossos dias, e de que em mais de um lugar existem testemunhos públicos, lhe vêm, por assim dizer, em auxílio, e contribuem para a glória da Eucaristia. Esse sacramento, pois, como vemos, alimenta a fé, nutre o espírito, destrói os sistemas dos racionalistas, e mostra-nos sobretudo os esplendores da ordem sobrenatural.

Refreia as paixões


12. Não obstante, o enfraquecimento da fé nas verdades divinas não é unicamente obra do orgulho de que falamos mais acima; é devido também à depravação do coração. Porquanto, se é um fato de experiência que, quanto melhores os costumes de um homem, tanto mais viva também a sua inteligência, em compensação os prazeres da carne embotam os espíritos: reconheceu-o a prudência pagã e predisse-o a sabedoria divina (Sab. I, 4). Mas é sobretudo na ordem das coisas divinas que as volúpias carnais obscurecem a luz da fé, e mesmo, por uma justa reprovação de Deus, a extinguem. Em nossos dias, o desejo insaciável desses prazeres da carne [ndr: que diria hoje Leão XIII?!] incendeia  todos os homens, que mesmo desde a mais tenra juventude, sentem os efeitos desse contágio mórbido. O remédio para um mal tão horrendo acha-se na Eucaristia. O seu primeiro efeito é, aumentando a caridade, reprimir a paixão. Santo Agostinho diz, com efeito: O alimento desta (da caridade) é o enfraquecimento da paixão, e a sua perfeição é ausência da paixão(De diversis quaestionibus LXX  XII, quaest. XXXVI). Além disso, como o ensinou S. Cirilo de Alexandria, a carne castíssima de Jesus comprime a insolência da nossa carne: Realmente, o Cristo existente em nós aplaca a lei da carne que impera nos nossos membros (Liv. IV, c. II, sobre S. João, VI, 57). Bem mais, o fruto todo particular e dulcíssimo da Eucaristia é Aquele que esta profecia significava: Que há de bom n'Ele (em Cristo), e que há de belo, se não é o trigo dos eleitos e o vinho que faz germinar as virgens? (Zac. IX, 17); quer dizer, esse desejo forte e constante da santa virgindade, que, mesmo num século imerso nas delícias, floresce na Igreja Católica sobre uma extensão de dia para dia mais vasta e com abundância sempre crescente. Em toda parte, bem se sabe, é ele uma fonte de progresso e de glória para a religião e para a sociedade. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

JESUS NA EUCARISTIA É FONTE DE VIDA SOBRENATURAL


"Eu sou o pão da vida" . "Se alguém comer desse pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo" (Jo. 6, 48 e 52).

Demos a palavra ao Papa Leão XIII, de santa memória:

5. "Conhecer com fé íntegra a virtude da Santíssima Eucaristia, tal qual é, é conhecer tal qual é a obra que, na sua onipotente misericórdia, Deus feito homem realizou em favor do gênero humano. Porquanto a mesma fé que nos obriga a confessar e a honrar a Cristo como o soberano Autor da nossa salvação, o qual, pela sua sabedoria, pelas suas leis, ensinamentos, exemplos e pela efusão do seu sangue, renovou todas as coisas, igualmente nos força a crê-lo e adorá-lo assim realmente presente na Eucaristia, onde ele próprio permanece mui verdadeiramente até o fim dos tempos no meio dos homens, e como mestre e pastor cheio de bondade, como intercessor onipotente junto a seu Pai, para haurir em si mesmo e distribuir a eles com eterna abundância os benefícios da sua redenção. Quem atenta e religiosamente considerar os benefícios que emanam da Eucaristia, compreenderá que o mais excelente e o mais eminente é aquele que contém todos os outros, sejam quais forem: com efeito, é da Eucaristia que se transfunde nos homens essa vida que é a verdadeira vida: O Pão que darei é a minha carne para a vida do mundo (Jo 6, 52).

6. Não é só desta maneira (...) que Cristo é a Vida, Ele que declarou que o fim da sua vinda ao meio dos homens era trazer-lhes verdadeira abundância de uma vida mais do que humana: Vim a fim de que eles tenham a vida e a tenham superabundantemente (Jo 10, 10). E, realmente, ninguém o ignora, desde que a bondade e a humanidade de Deus nosso Salvador apareceram (Tito 3, 4) na terra, fez-se sentir uma força criadora de uma ordem de coisas toda nova e a difundir-se em todas as veias da sociedade civil e doméstica. Desde então, novas relações se estabeleceram entre o homem e seu semelhante, novas leis regeram a sociedade e os indivíduos, novos deveres foram impostos, as instituições, as ciências e as artes adquiriram novo surto; mas o principal é que os corações e as mentes foram reconduzidos à verdade da religião e à pureza dos costumes; bem mais: uma vida toda celeste e toda divina foi-nos comunicada; é o que certamente significam estas expressões frequentemente relembradas na Sagrada Escritura: lenho de vida, palavra de vida, livro de vida, coroa de vida, e, em particular, pão de vida.

7. A vida de que falamos tem muita semelhança com a vida natural do homem, e esta é entretida e fortalecida pelo alimento; deve, pois, aquela ser sustentada e reanimada pelo seu alimento próprio. Importa lembrar aqui em que tempo e de que maneira Cristo nos exortou e induziu a receber convenientemente e dignamente o pão de vida que ele se propunha dar-nos. Quando se espalhou a notícia do milagre da multiplicação dos pães, realizado nas margens do lago de Tiberíades para saciar a multidão, logo muitos afluíram para Ele, esperando talvez obter para si mesmos um benefício semelhante. Jesus aproveitou essa ocasião, e, assim como outrora, à Samaritana que lhe pedia tirar para ela água do poço, Ele mesmo inspirara a sede da água que jorra para a vida eterna (Jo 4, 14), assim também eleva as almas dessa multidão ávida a fim de fazer desejar com mais ardor esse outro pão que permanece para a vida eterna (Jo 6, 27). "Mas esse pão, diz Jesus prosseguindo o seu ensinamento, não é aquele maná celeste que, na sua marcha através do deserto, vossos pais acharam já pronto; não é sequer esse que, de todo admirados, recebestes recentemente de mim; porém eu mesmo sou esse pão: Eu sou o pão de vida (Jo, 6, 48). E, para ainda mais os convencer desta verdade, dirige-lhes este convite e lhes dá este preceito: Se alguém comer desse pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo (Jo 6, 52). Ele mesmo lhes prova assim a importância desta ordem: Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do homem e se não beberdes seu sangue, não tereis a vida em vós (Ib. 54, 10). Longe de nós, pois, esse erro, tão difundido e perniciosíssimo, dos que pensam que o uso da Eucaristia deve ser quase exclusivamente reservado a esses homens livres de todos os cuidados, acusados de terem o coração estreito, e de só o repouso buscarem num regime de vida mais religiosa. Esse bem,  fora do qual nada é mais excelente nem mais salutar, oferece-se a todos indistintamente, sejam quais forem a condição e a categoria de cada um; pertence a todos os que querem (e ninguém há que não deva querê-lo) alimentar em si a vida da graça, cujo termo é a aquisição da vida bem-aventurada com Deus.

8. E prazam ao céu façam uma justa ideia da vida eterna e não a percam de vista aqueles, sobretudo, cujo talento, atividade, autoridade tanto podem para dirigir os acontecimentos e os homens. Mas, ao contrário, vemos e deploramos que a maioria deles consideram com orgulho o haverem inculcado ao século como que uma vida nova e próspera, porque, graças ao seu impulso, o obrigam a marchar a largos passos para toda sorte de progressos e de maravilhas. Na realidade, para qualquer lado que se dirijam os olhares, o que se verá é a sociedade humana, se se afastar de Deus, ao invés de fruir da tranquilidade que deseja, ser, ao contrário, presa de angústia e de agitação, como o doente atormentado por uma febre ardente: ao passo que ela aspira ansiosamente à prosperidade em que coloca a sua única esperança, vê-a desaparecer e fugir-lhe no momento em que acredita possuí-la. Efetivamente, os homens e os Estados dependem necessariamente de Deus, de sorte que não podem viver, nem mover-se, nem fazer qualquer bem senão em Deus, por Jesus Cristo, de quem têm promanado e promanam abundantemente todos os bens, os melhores e os mais preciosos.
9. Ora, a fonte e o princípio de todos esses bens é sobretudo a sagrada Eucaristia: esta entretém, fortifica essa vida cuja privação nos causa tamanho pesar, e aumenta maravilhosamente essa dignidade humana de que se faz tanto caso agora. Com efeito, que coisa maior e mais desejável do que nos tornarmos, tanto quanto possível, participantes e associados da natureza divina? Ora, é isso precisamente o que Cristo nos concede na Eucaristia, pela qual ele prende e une a si ainda mais estreitamente o homem, elevado pela graça até à divindade. Há, com efeito, esta diferença entre o alimento do corpo e o da alma: que aquele se converte na nossa própria carne, ao passo que este nos transforma nele; e, a este propósito, eis o que Santo Agostinho faz o próprio Cristo dizer: Tu não me transformarás em ti como faz o alimento de tua carne, mas serás transformado em mim (Conf. lib. 7, c. 10).

AVISO: Até aqui são palavras do Papa Leão XIII, na Encíclica Sobre  Santíssima Eucaristia, "Mirae Caritatis" escrita em 1902.

Quero aproveitar o ensejo para avisar ao "FRATRES IN UNUM" e aos seus caríssimos leitores que ficarei em recesso nesta coluna por 2 meses a partir do dia 17 de julho. Farei, se Deus quiser OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO (30 dias) e depois farei várias consultas e tratamentos médicos. Caríssimos, peço-lhes a caridade de vossas valiosas orações e, desde já, vos agradeço. Que Deus Nosso Senhor abençoe a todos e os cumule de escolhidas graças. Salve Maria! Amém!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

SANTA MARIA GORETTI

PUREZA NA LAMA
                                                                                                                  Dom Fernando Arêas Rifan*

        A virtude da pureza está se tornando uma pérola rara e esquecida, em meio a essa onda de devassidão que assola o mundo de hoje. Por isso vale a pena recordar a vida da Santa cuja memória Igreja celebra amanhã, Santa Maria Goretti, mártir da pureza.
        Santa Maria Goretti, denominada a Santa Inês do século XX, foi assassinada em 6 de julho de 1902, com cerca de 12 anos de idade, porque preferiu morrer a ofender a Deus, pecando contra a castidade, como a queria forçar seu assassino. Ela era uma menina de família católica, de boa formação. Tive a graça de visitar, por duas vezes, o local do seu martírio.
        Dela disse o Papa Pio XII: “Santa Maria Goretti pertence para sempre ao exército das virgens e não quis perder, por nenhum preço, a dignidade e a inviolabilidade do seu corpo. E isso não porque lhe atribuísse um valor supremo, senão porque, como templo da alma, é também templo do Espírito Santo. Ela é um fruto maduro do lar cristão, onde se reza, onde se educam os filhos no temor de Deus e na obediência aos pais. Que o nosso debilitado mundo aprenda a honrar e a imitar a invencível fortaleza desta jovem virgem”.
        Seu assassino, Alessandro Serenelli, então com 20 anos, passou 30 anos na prisão e, graças às orações e ao perdão da santa, arrependeu-se e se converteu, morrendo santamente aos 89 anos num convento dos padres capuchinhos em 6 de maio de 1956.
        Ele escreveu o livro “O Punhal de tantos remorsos”, onde diz: “Aos 20 anos, cometi um crime passional, de que agora tenho horror só em recordá-lo. Maria Goretti, agora santa, foi o anjo bom que a Providência colocou no meu caminho para me salvar. Peço perdão ao mundo pelo ultraje feito à mártir Maria Goretti e à pureza. Exorto a todos a se manterem afastados dos espetáculos imorais, dos perigos e das ocasiões que podem conduzir ao pecado. Eu gostaria que os que lessem esta carta (seu testamento) aprendessem a fugir do mal e a fazer sempre o bem. Pensassem desde crianças que a religião, com seus preceitos, não é algo de que se possa prescindir, senão o verdadeiro alento, o único caminho seguro em todas as circunstâncias da vida, até as mais dolorosas”.
        Santa Maria Goretti e muitas outras santas e santos que viveram sua pureza e castidade são exemplo para todos, especialmente em meio à lama de impureza que nos cerca de todos os lados, especialmente pelos espetáculos e pelos meios de comunicação.
        Eu recordo as graves palavras do saudoso Dom Lucas Moreira Neves, acusando a Televisão, o que poderíamos aplicar também a certos sites da Internet, pela onda de impureza que traz para dentro dos lares: “Acuso-a de ministrar copiosamente a violência e a pornografia. A primeira é servida em filmes para todas as idades. A segunda impera, solta, em qualquer gênero televisivo: telenovelas, entrevistas, programas ditos humorísticos, spots publicitários e clips de propaganda. A TV brasileira está formando uma geração de voyeurs, uma geração de debilóides. Acuso-a de ser corruptora de menores”.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

O CORAÇÃO DE JESUS NOS DÁ POR MÃE SUA PRÓPRIA MÃE


LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
30º dia de junho

Não há corações mais intimamente unidos do que o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. Afinal, o Coração de Jesus saiu do Coração de sua Mãe Santíssima. Foi  nela que o Espírito Santo operou o mistério inefável da Encarnação do Verbo Eterno de Deus. E Maria Santíssima não só nos trinta anos de vida oculta de seu Filho, esteve com todo carinho e amor junto d'Ele, mas também no primeiro milagre operado por Jesus e em muitas outras ocasiões. Mas especialmente, o seu Coração Imaculado estava junto do de seu Filho lá no Calvário.

Junto a Cruz Maria estava de pé. Nem a angústia do coração, nem as injúrias do povo, a crueldade dos algozes ou perigo da morte podiam apartá-la de Jesus, seu querido Filho. Seu coração estava pronto a morrer na presença de Jesus ou a assistir-Lhe na agonia. De todos os Apóstolos só o predileto de Jesus, São João Evangelista, estava ao lado de Maria Santíssima.

Ao ver a Virgem Mãe e o discípulo virgem, tão amados do Coração Divino, disse Jesus, olhando para a Mãe: "Mulher (que em hebraico significa Senhora), eis aí teu filho". Depois, dirigindo-Se ao discípulo, representante de todos nós, disse-lhe: "Eis aí tua Mãe". E desde esta hora o discípulo a tomou por Mãe; e depois levou-A para sua casa. (cf. Jo. XIX, 26 e s.).

Justamente quando os homens levavam ao auge a sua malícia, quando não cessavam de afligir o Coração de Jesus com injúrias, ele superabundou em amor e nos deu sua Mãe por Mãe Nossa. O Coração de Jesus instituíra no dia anterior à sua morte, a Santíssima Eucaristia, não nos querendo deixar órfãos. Mas também fez, momentos antes de morrer, o que nenhum humano pode fazer: deu-nos por Mãe a sua própria Mãe, a melhor de todas as mães.

Neste ato, o Coração de Jesus mostra, outrossim, o desvelo e cuidado por sua Mãe, provendo à honra e ao amor que lhe eram devidos. Jesus mostra que o Seu Coração e o Coração de sua Mãe Santíssima, devem ao mesmo tempo, ser conhecidos e juntamente amados.

Nós, pobres pecadores não podemos calcular toda grandeza e intensidade do amor do Coração de Maria por seu Filho e seu Deus. É algo inefável! Não há no céu e na terra criatura que prestasse tantas honras e dedicasse tanto amor a Jesus, quanto a sua Mãe Santíssima. A Santíssima Trindade empregou todo seu amor e poder em preparar aquele Coração de Mãe, com a capacidade de amar um Filho que é também o Filho do Altíssimo. Portanto, em parte alguma se poderia encontrar um coração que fosse tão unido e agradável ao Coração de Jesus qual foi o Coração Imaculado da Virgem Mãe.  Por outro lado, o Coração de Jesus quis e quer ver o Coração de sua Mãe, em toda parte e sempre, honrado e amado. O Coração de Jesus quer que, em qualquer parte do mundo, e até a consumação dos séculos, onde for adorado o Seu Coração, seja venerado de modo todo singular, o Coração Imaculado de Sua Mãe Santíssima.

Maria Santíssima compartilhando as dores de Jesus, nos adotou ao pé da cruz. Como nossa Mãe, devemos prestar-lhe honra todos os dias da nossa vida, lembrando-nos de quanto Ela sofreu com Jesus por nossa causa. Devemos reconhecer este grande dom do Coração agonizante de Jesus, ao dar-nos uma tal Mãe. Depois que Jesus se deu a si mesmo por nós na Eucaristia, quis dar-nos a sua Mãe para ser a nossa Mãe também. Assim, o Coração materno de Maria Santíssima transborda de singular afeto, compaixão, amor e solicitude pelos seus filhos.

O Coração de Maria, formado à semelhança do Coração de Jesus, a todos se acha aberto sob o dulcíssimo título de Coração materno. Por intermédio do Coração Imaculado de Maria seremos introduzidos no Coração de Jesus. Pois, pela Virgem Maria , Jesus Cristo veio aos homens e também por Ela, Deus quer que cheguemos até Jesus. Quaisquer graças que desejarmos obter de Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos recomendá-las a Maria, nossa Mãe, para que ela, sendo Mãe de Deus e nossa, invoque em nosso favor o Coração Sacratíssimo de Jesus. Na verdade os direitos maternos que Nossa Senhora possuiu e exerceu na terra, não os perdeu no céu, onde, como Soberana de todos os anjos e santos, reina com Jesus, seu divino Filho.

Ao comparecer ao tribunal no Juízo teremos a dulcíssima consolação de ter por Advogada junto ao Juiz, sua Mãe e nossa Mãe! Esta Mãe, a quem o Juiz deu todo o poder sobre o seu Coração, intercederá ao seu Filho em favor dos seus outros filhos que somos nós seus devotos. Amém!


quinta-feira, 29 de junho de 2017

O SACERDOTE É O AMOR DO CORAÇÃO DE JESUS


Catecismo do Santo Cura d'Ars sobre o Sacerdócio

   Meus filhos, chegamos ao sacramento da Ordem. É um sacramento que parece não dizer respeito a ninguém dentre vós, e que diz respeito a toda gente. Esse sacramento eleva o homem até a Deus. Que é o sacerdote? Um homem que ocupa o lugar de Deus, um homem que é revestido de todos os poderes de Deus. "Ide, diz Nosso Senhor ao sacerdote, assim como meu Pai me enviou, assim eu vos envio... Todo poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, instruí todas as nações... Quem vos escuta a mim escuta; quem vos despreza a mim despreza".
   Quando o padre perdoa os pecados, não diz: "Deus te perdoe". Diz: "Eu vos absolvo". Na consagração, ele não diz: "Isto é o corpo de Nosso Senhor". Diz: "Isto é o meu corpo".
   São Bernardo diz que tudo veio por Maria. Podemos dizer também que tudo nos veio pelo sacerdote: sim, todas as venturas, todas as graças, todos os dons celestes.
   Se não tivéssemos o sacramento da Ordem, não teríamos Nosso Senhor. Quem foi que o pôs aí neste tabernáculo? Foi o padre. Quem foi que recebeu vossa alma à entrada na vida? O padre. Quem a alimenta para lhe dar a força de fazer a sua peregrinação? O padre. Quem a prepara para comparecer perante Deus, lavando essa alma pela primeira vez no sangue de Jesus Cristo? O padre, sempre o padre. E se essa alma vier a morrer, quem a ressuscitará? Quem lhe restituirá a calma e a paz? Ainda o padre. Nos vos podeis lembrar de um só benefício de Deus sem encontrardes, ao lado dessa lembrança, a imagem do padre.
   Ide-vos confessar à Santíssima Virgem ou a um anjo: eles vos absolverão? Não. Dar-vos-ão o corpo e o sangue de Nosso Senhor? Não. A Santíssima Virgem não pode fazer descer seu divino Filho à hóstia. Tivésseis aí duzentos anjos, e eles não poderiam absolver-vos. Um padre, por mais simples que seja, pode-o; pode dizer-vos: "Ide em paz, eu vos perdôo". Oh! como o padre é alguma coisa de grande!
   O padre só será bem compreendido no céu... Se o compreendêssemos na terra, morreríamos, não de pavor, mas de amor...
   Os outros benefícios de Deus de nada nos serviriam sem o padre. De que serviria uma casa cheia de ouro, se não tivésseis ninguém para vos abrir a porta? O padre tem as chaves dos tesouros celestes; é ele quem abre a porta; ele é o ecônomo de Deus, o administrador dos seus bens.
   Se não fosse o padre, a morte e a paixão de Nosso Senhor de nada serviriam. Vede os povos selvagens: de que lhes serviu que Nosso senhor morresse? Ai! eles não poderão ter parte nos benefícios da redenção enquanto não tiverem padres para lhes fazerem a aplicação do seu sangue.
   O padre não é padre para si; não dá a si a absolvição, não administra a si os sacramentos. Ele não é para si, é para vós.
   Depois de Deus o sacerdote é tudo!... Deixai uma paróquia vinte anos sem padre, adorarão ali os animais.
   Se o senhor missionário e eu fôssemos embora, vós diríeis: "Que fazer nesta igreja? Não há mais missa. Nosso Senhor não está mais nela, tanto vale rezar em casa..."
   Quando se quer destruir a religião, começa-se por atacar o padre, porque onde quer que não haja mais padre, não há mais sacrifício, e onde não há mais sacrifício, não há mais religião.
   Quando um sino vos chama à igreja, se vos perguntassem: "Onde ides?" Poderíeis responder: "Vou alimentar minha alma". Se vos perguntassem, mostrando -vos o tabernáculo: "Que é essa porta dourada? É a copa: é o guarda-comida de minha alma. Quem é que tem a chave dele, quem faz as provisões, quem apronta o festim, quem serve à mesa? É o padre. - E a comida? - É o precioso Corpo de Nosso Senhor..." Ó meu Deus, meu Deus, como nos amastes!
   Vede o poder do padre! A língua do padre, de um pedaço de pão faz um Deus! É mais que criar o mundo. Alguém dizia: "Santa Filomena obedece então ao Cura d'Ars? Certo, ela bem pode obedecer-lhe, já que Deus lhe obedece.
   Se eu encontrasse um padre e um anjo, cumprimentaria o padre antes de cortejar o anjo. Este é amigo de Deus, mas o padre faz as vezes de Deus... Santa Teresa beijava o lugar por onde um padre havia passado...
   Quando virdes um padre, deveis dizer: "Eis aquele que me tornou filho de Deus e me abriu o céu pelo santo batismo, aquele que me purificou depois do meu pecado, que dá a comida a minha alma..." À vista dum campanário, podeis dizer: "Que há ali? - O corpo de Nosso Senhor. - E por que está ele ali? - Porque um padre passou por ali e disse missa".
   Que alegria tinham os apóstolos depois da ressurreição de Nosso Senhor, por verem o Mestre que tanto haviam amado! O padre deve ter a mesma alegria vendo Nosso Senhor que ele segura nas mãos...  Dá-se grande valor aos objetos que foram depositados na escudela da Santíssima Virgem e do Menino Jesus em Loreto. Mas os dedos do padre, que tocaram a carne adorável de Jesus Cristo, que mergulharam no cálice onde esteve o seu sangue, no cibório onde esteve o seu corpo, não são porventura mais preciosos?...
   O sacerdote é o amor do Coração de Jesus. Quando virdes o padre, pensai em Nosso Senhor Jesus Cristo.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O AMOR DIVINO DO CORAÇÃO DE JESUS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
28 dia de junho

Vimos como o amor humano do Coração de Jesus é imenso, inefável, admirável. Mas, caríssimos, o amor divino do Coração de Jesus é infinito, é eterno. É o amor com que o Coração de Jesus nos ama em sua Divindade. Toda compreensão desta verdade é dada pelo mistério da Encarnação. O Verbo podia e pode ainda dizer: "Eu vos amo pela minha Divindade com um amor comum às três Pessoas divinas, e vos amo pela minha Humanidade. Fui eu quem, em meu corpo e em minha alma humana, sofreu por vós, fui eu, Verbo Eterno quem orou por vós, quem mereceu por vós pela alma santa que tomei no dia de minha Encarnação. Hoje, na morada da glória, deleito meus fiéis pela graça de minha Humanidade e pela glória infinita de minha Divindade".

Em seu Filho, que é o espelho, o esplendor de sua substância, Seu Verbo, isto é, sua Palavra eterna,  Deus Pai sempre  nos viu. Amou-nos desde toda eternidade. Tudo em Deus é infinito, e, portanto, seu amor e sua bondade são infinitos. Deus nos ama desejando ver-nos felizes pela santidade, felizes da santidade que é fruto da virtude e do puro amor. Na verdade, ser virtuoso, ser santo, é amar a Deus, procurar a Deus, dirigir-se a Deus, e o termo da santidade é a posse de Deus. A graça santificante que Deus nos dá pelo santo Batismo outra coisa não é senão Deus dando-se à alma, vivendo nela, unindo-se a ela, em uma palavra, divinizando-a. Eis a explicação de tudo em duas frases bíblicas: "Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho" e "O Verbo se fez carne". E por que estes dois mistérios inefáveis? Para que Jesus Cristo, sendo Deus e Homem, pudesse nos salvar. Como Homem pôde sofrer e morrer por nós, e sendo Deus, pois, Jesus é uma Pessoa divina, é o Filho de Deus, deu aos seus sofrimentos e à sua Morte um valor infinito.

Mas por que Deus nos ama com esse ardor infinito? Em nós nada há que possa excitar tanto amor. As qualidades que temos, Deus no-las deu por amor. Amou-nos, portanto, antes destas qualidades, antes de todos os nossos atos. Na verdade, onde abundou em nós o pecado, Deus fez superabundar a graça. Supriu todas as nossas fraquezas e reparou todas as nossas loucuras. Tudo quanto Deus faz por nós é a mais gratuita das liberalidades.

Deus nos ama porque Ele é o Amor. Em relação às criaturas, o amor de Deus é livre; mas quão bem responde aos desejos de seu Coração! Na verdade, Deus sendo a própria Bondade, se compraz em amar: "Bonum est sui difusivum". Levado por este amor infinito, Deus concede-nos os seus dons, dons sobrenaturais e divinos.

Mas Deus quer também ser amado. "Deus tem um tal desejo que O amemos, diz o autor espiritual Tauler, que desse amor parece depender a sua felicidade. Todas as criaturas são outras tantas vozes que nos convidam a amá-Lo. Tudo o que Ele fez, tudo o que ainda faz, Ele o fez ou faz para levar a alma a ouvir-Lhe as súplicas e a amá-Lo. Assim o menor ato de amor da mais miserável de suas criaturas O encanta mais que toda a magnificência de suas obras materiais, ou todo o esplendor dos astros, com que guarneceu o espaço. Parece não poder suportar a perda do nosso amor e todas as suas obras, quer na ordem da natureza, quer na da graça, são feitas para ganhar os nossos corações, e os mesmos castigos eternos, pelos quais pune as almas ingratas e obstinadas e os corações pertinazmente fechados ao amor, visam ainda levar outros corações a se abrirem ao amor de seu Coração. "Deus, diz ainda Tauler, é mais pronto em perdoar que um braseiro em consumir algumas palhas ou estopas lançadas nas chamas"; "Uma mãe, vendo queimar-se o seu filho, não corre mais pressurosa em seu auxílio do que Deus em auxílio do pecador".

Caríssimos, quão doloroso há de ser para o Coração amante de Jesus o excesso de tanta bondade sua, de uma parte, e de tamanha ingratidão de nossa parte! "Meus olhos, diz Deus pelo profeta, derramaram rios de lágrimas, porque não é observada a lei" (Salmo 118, 136). Se nos foi dado, através destas reflexões que venho fazendo neste mês sobre o amor do Coração de Jesus, compreender sua ternura e amor, caríssimos, devemos esforçar-nos por compensá-los pela nossa generosidade e fidelidade. Hoje, quando reina o indiferentismo religioso por falta de fé em Deus e de amor a Ele, hoje quando poucos amam verdadeiramente a Deus sobre todas as coisas, será um desagravo muito suave ao Coração de Jesus, o nosso amor ardente. Peçamos sempre: "Coração de Jesus, Homem-Deus, que tanto nos amais, fazei que Vos ame cada vez mais!" Amém!

  

terça-feira, 27 de junho de 2017

O AMOR HUMANO DO CORAÇÃO DE JESUS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
27º dia de junho

Sabemos pela Teologia que em Nosso Senhor Jesus há duas vontades: a humana e a divina. Assim, também devemos considerar no Coração de Jesus, o seu amor humano e o se amor divino por nós.  Na verdade o dulcíssimo Salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, nos amou muito, nos ama muito e nos há de amar muito durante toda a eternidade.

O amor de Jesus em sua alma humana, através de seu Coração palpitante, nos seus 33 anos na terra, hoje no Céu à direita de seu Eterno Pai, e na terra, na Santíssima Eucaristia, é, digo, um amor admirável, inefável. Mas em sua divindade, Jesus que é o Verbo Divino, nos ama com o mesmo amor que o Pai e o Espírito Santo, ou seja, com um amor eterno e infinito.

Hoje vamos meditar no amor humano do Coração de Jesus, e amanhã, se Deus quiser, meditaremos no amor divino do Coração de Jesus.

Jesus, chorou diante do túmulo de seu amigo Lázaro de Betânia, e o povo exclamou: "Vede como Ele o amava". Caríssimos, meditando durante este mês de junho, em tudo que o Coração de Jesus fez por nós, na Encarnação, no seu nascimento, na sua vida oculta e na vida pública, na instituição da Santíssima Eucaristia e sobretudo em sua Paixão e Morte, nós também exclamamos: "Vede como Ele nos amou!".

O Coração de Jesus nos ama com um amor humano imenso! Pois, a sua fonte é a alma de Jesus, e esta é a obra-prima de Deus aqui na terra. Deus a fez tão perfeita o quanto é possível a uma criatura. E Deus onipotente tornou esta alma capaz de um amor tal que, excede em intensidade ao de todos os homens que existiram, existem e hão de existir, ao amor de todos os anjos e ao da própria Santíssima Virgem Maria, reunidos num só. Já percorremos toda a vida de Jesus e meditamos na imensidade deste amor por nós.

E agora na glória do Céu, à direita de seu Pai Eterno, o Coração de Jesus continua a nos amar. São João declara que mesmo os pecadores são ainda muito caros a Jesus, porque lhes advoga a causa junto de seu Pai: "Filhinhos meus, eu vos escrevo estas coisas, para que não pequeis; mas, se algum pecar, temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo justo. Ele é propiciador pelos nossos pecados, e não somente, pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo" (1 S. João, II, 1 e 2). Assim, o próprio pecado mortal, que Lhe inspira tanto horror, não Lhe altera os sentimentos do Coração. Seu olhar não é de ódio, mas de ternura entristecida, de compaixão para com o louco, monstruoso e mísero pecador. Jesus com suas chagas radiantes de luz e glória, está a lembrar a seu Pai que Ele sofreu tanto pelos pecadores, que pagou caríssimo pelos seus pecados; suplica, então, e implora graças de contrição. O Coração de Jesus é sempre ouvido pelo seu Pai, embora, infelizmente, muitos põem obstáculos. O Coração de Jesus pede também a graça de uma perfeita penitência, de tal modo que o pecador, se assim o quiser, poderá reparar plenamente suas faltas.

Caríssimos, agora meditemos no seguinte: Se Jesus ama assim os pecadores, qual não será o amor de seu Coração pelos verdadeiros amigos, pelos justos, pelos santos?! São João Eudes diz: "Tão grande é o seu amor, que Ele estaria pronto a sacrificar sua vida no universo inteiro e com sofrimentos imensos; e porque o seu amor é eterno, estaria pronto ainda a sacrificá-lo eternamente e com dores eternas". Sofreria, portanto, uma nova paixão por cada um dos filhos dos homens. Faria por cada um o que fez por todos. Mas sabemos que Jesus não pode sofrer e morrer mais, depois de ressuscitado e glorioso. Como seu Coração é onipotente, arranjou um meio de fazê-lo por nosso amor: A Santíssima Eucaristia como Sacrifício e como Sacramento. A Santa Missa renova, de maneira incruenta, a imolação do Calvário, e nos aplica seus merecimentos infinitos. E aqui no Altar se aniquila de alguma maneira, mais do que na Cruz. Quanto o Coração de Jesus se alegra em poder através da Santa Missa, derramar sobre o mundo torrentes de graças! E faz ainda mais: A Eucaristia como Sacramento! Se faz nosso alimento, nosso hóspede na comunhão, e dá-se a nós todo inteiro, convidando-nos a renovar cada dia essa união tão doce ao seu Coração. O Coração de Jesus quis ficar conosco até o fim do mundo, não quis nos deixar órfãos. É realmente o Emanuel, isto é, o Deus conosco. Amém!


segunda-feira, 26 de junho de 2017

O AMOR INFINITO DO CORAÇÃO DE JESUS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
26º dia de junho

É uma verdade que dispensa demonstração. O católico que não o reconhecesse seria um católico sem coração, ou melhor não seria verdadeiro cristão.

 Deus nos amou desde toda a eternidade: "Eu amei-te com um amor eterno, por isso, compadecido de ti, te atraí a mim" (Jeremias XXXI, 3). E o Apóstolo do Amor, disse: "Nós conhecemos o amor de Deus, porque deu sua vida por nós" (1, João IV, 9); transmitiu-nos a afirmação do próprio Jesus: "Amou Deus de tal modo o mundo (os homens), que deu por ele o seu Unigênito Filho (S. João III, 16).  Pelo que já meditemos até hoje desde o início deste mês ficou suficientemente demonstrado o amor infinito do Coração de Jesus por nós. Pois, basta para isto contemplar toda a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi o amor aos homens a causa de tudo o que fez e sofreu. Por nosso amor o Filho de Deus deixou o Céu e desceu a este vale de lágrimas; revestiu-Se de nossa mesma carne; deu a vida por nosso amor, para que pudéssemos viver eternamente com Ele no Paraíso. Como já meditamos, uma só gota de seu Sangue seria suficiente para remir todo o mundo e até milhares de mundos, mas seu amor por nós levou-O a derramá-lo até a última gota. Como diz São Pedro: "Não fomos remidos com ouro e prata, mas sim com o sangue do Cordeiro Imaculado" ( 1 S. Pedro, I, 18); e São Paulo diz o mesmo: "Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai e trazei a Deus no vosso corpo" (1 Cor. VI, 20). E Jesus não só derramou seu sangue por uma única ferida, mas entregou seu corpo às mãos dos verdugos desumanos, que o puseram numa só chaga, dos pés à cabeça. Enfim, ao abrir-vos os Santos Evangelhos qual é a página que não fala do seu amor aos homens?! Em cada milagre encontramos uma prova dele.

E Nosso Senhor Jesus Cristo, amou-nos como ninguém! Já meditemos sobre o amor do Coração de Jesus ao instituir a Santíssima Eucaristia. Amou-nos e deu-Se a si mesmo por nós, sua carne, seu sangue, sua alma e sua Divindade. Foi por nosso amor que o Coração de Jesus quis ficar conosco na terra, para que n'Ele tivéssemos um amigo fiel, um pai amoroso, em cujos braços nos pudéssemos lançar na hora do abandono e da tribulação.

E assim como ficamos tristes em ver em muitos uma verdadeira homolatria! E para desagravar o Adorável Coração de Jesus exclamamos com São Paulo: "Seja anatematizado aquele que não amar a Nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Cor. XVI, 22).

Caríssimos, pensemos sempre neste amor infinito do Coração de Jesus por nós, pobres pecadores! Procuremos fazer como os Santos fizeram: passavam grande parte do dia com o Evangelho diante dos olhos, meditando nos padecimentos a que o divino Salvador se entregou por nosso amor.

O Coração de Jesus nos amou tanto que quis ficar conosco na Eucaristia. Quem ama gosta de receber em sua casa a pessoa amada. Jesus está no solidão dos templos, à nossa espera para abrirmos o coração diante d'Ele. E mais: Jesus nos ama tanto que, Ele o Senhor, está batendo à porta de nosso coração: "Meu filho, dá-me, teu coração" . E, se amarmos verdadeiramente a Jesus, não há como ficarmos insensíveis diante de um ternura e bondade infinitas! E quem é Ele, e quem sou eu?!

Caríssimos, diante desta fornalha de amor que é o Coração de Jesus, não é possível permanecermos com o coração gelado! Quem não ama a Jesus não se ama a si mesmo. Não amar a Jesus é amar ao mundo; não amar a Jesus é amar as criaturas; e amar o mundo e as criaturas é amar o que não tem valor, é preparar para si a ruína espiritual.


Então digamos de todo coração: "CORAÇÃO DE JESUS QUE TANTO NOS AMAIS, FAZEI QUE EU VOS AME CADA VEZ MAIS! Amém!