terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O SERMÃO DOS ANÁTEMAS


 Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   No fim da tarde do Domingo de Ramos, Jesus sobe novamente o Monte das Oliveiras  e volta para à casa de seus amigos em Betânia. Será que ninguém ofereceu pousada ao recém aclamado Rei? 

   Mas nestes cinco dias, até sua prisão no Horto das Oliveiras, muitas coisas aconteceram. Jesus voltava a Jerusalém, oferecendo até o fim, oportunidade de conversão para os fariseus. Amaldiçoa uma figueira e no outro dia já está seca. É um ato que funciona qual parábola. Expulsa os vendilhões do templo. Desfaz por várias vezes as ciladas feitas a Ele. Jesus Cristo provou suficientemente a sua Divindade, rompendo as malhas destas redes de armadilhas, e deixa os astutos e maldosos fariseus reduzidos ao silêncio.

   Mas, talvez, o que mais prova sua Divindade nestas discussões com os seus figadais inimigos foi o discurso dos anátemas, discurso este lançado diretamente na cara dos inimigos e fê-lo com aquela autoridade que não tem similar entre os simples homens.

   Acabaram-se os chamamentos, e chega a hora terrível dos anátemas e da verdade nua e crua sobre o malévolo e orgulhoso espírito farisaico. Foi, de todos os discursos de Jesus, o mais terrível. A força da sua ira é tão fulminante como o império da sua doçura. Na verdade, já não havia nada a fazer com aqueles corações irredutíveis de orgulho.

   Como exórdio, Jesus começa por se dirigir a todos os ouvintes: "Os escribas e fariseus estão sentados na cátedra de Moisés. Fazei, pois, o que vos dizem, mas não façais o que fazem. Dizem e não fazem. Atam fardos pesados e insuportáveis, e os põem aos ombros dos outros; mas eles nem com um dedo estão dispostos a tocar-lhes. Tudo o que fazem, fazem-no para que os homens os vejam". "Por isso alargam as filatérias e aumentam as orlas dos mantos. E procuram  os primeiros lugares nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas. Procuram as saudações na praça e ficam inchados quando os homens lhes chamam rabi". 

   - Mas vós, - acrescenta Jesus, dirigindo-se aos seus discípulos - a ninguém chameis pai nesta terra, porque um só é o vosso Pai, que está nos céus. Nem vos chameis mestres uns aos outros, porque um só é o vosso Mestre, Cristo". 

   Até aqui, apenas o exórdio do discurso. De súbito, Jesus Cristo levanta a voz  e pronuncia grandes e terríveis maldições:

   - "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que fechais aos homens o reino dos céus; porque nem vós entrais, nem quereis que os outros entrem!

    - "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que devorais as casas das viúvas com o pretexto de fazer longas orações!

    - "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que percorreis os mares e a terra para fazer um prosélito e, mal o conseguis, o converteis num filho do inferno, duas vezes pior do que vós!

    - "Ai de vós, guias cegos, que dizeis que jurar pelo templo não é nada e que o que obriga é jurar pelo ouro do templo! Néscios e insensatos, o que vale mais, o ouro, ou o templo que santifica o ouro!

    - "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que pagais dízimo da menta e do cominho e abandonastes as coisas essenciais da Lei, a justiça, a misericórdia e a fé! Devíeis observar estas, sem omitir aquelas. Guias de cegos, que filtrais um mosquito e engolis um camelo.

    "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que vos mostrais como sepulcros caiados, vistosos aos olhos dos homens e, por dentro, cheios de ossadas de mortos e de podridão asquerosa!..."

    - "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos santos e afirmais que, se tivésseis vivido nos tempos antigos, não teríeis manchado vossas mãos com o sangue dos profetas! Vós mesmos o confessais; Sois dignos filhos dos que assassinaram os enviados de Deus. Acabai de encher a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras, como conseguireis fugir à eterna condenação? Por isso, eis que Eu vos envio profetas e sábios e escribas; e matareis alguns deles e crucificareis outros; outros ainda, haveis de os açoitar nas vossas sinagogas e perseguir de cidade em cidade, para que desça sobre vós todo o sangue vertido na terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que vós matastes entre o templo e o altar. Em verdade vos digo que tudo isto virá sobre esta geração".

   Caríssimos e amados irmãos, havia por detrás destes anátemas uma visão do futuro, um castigo. E Jesus, por isso, termina estas suas invectivas com um soluço vibrante de amor, pois tinha sido o amor que havia inspirado este requisitório supremo. À apóstrofe mais trágica junta-se uma exclamação transbordante de ternura: 

    - "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes Eu quis acolher teus filhos, com a galinha recolhe os pintainhos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa fica deserta. Porque Eu vos digo: Não me vereis enquanto não disserdes: Bendito seja o que vem em nome do Senhor!"

    

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

OBRIGAÇÕES DE VÁRIOS ESTADOS DE VIDA



S. Antônio M. Claret

OBRIGAÇÕES DAS ESPOSAS
01.  Estimar seu marido.
02.  Respeitá-lo como a sua cabeça.
03.  Assisti-lo com toda diligência.
04.  Ajudá-lo com reverência.
04.  Responder-lhe com mansidão.
05.  Calar quando estiver zangado, e enquanto durar a zanga.
06.  Suportar com paciência seus defeitos.
07.  Repelir toda familiaridade.
08.  Cooperar com o marido na educação de seus filhos.
09.  Não desperdiçar as coisas e os bens de casa.
10.  Conservar boa harmonia com todas as pessoas da casa.

OBRIGAÇÕES DAS VIÚVAS
01.  Ser modelo de virtudes para as donzelas e casadas.
02.  Ser amiga de retiro.
03.  Ser inimiga da ociosidade.
04.  Amante da mortificação.
05.  Dada à oração.
06.  Zelosa de seu bom nome.

OBRIGAÇÕES DOS OPERÁRIOS E JORNALEIROS
01.  Oferecer a Deus com frequência todas as privações e fadigas.
02.  Trabalhar com toda diligência e exatidão.
03.  Não trabalhar nos domingos e dias santos de guarda.
04.  Não perder a paciência e nem blasfemar.
04.  Não reter as coisas alheias.
05.  Não ocasionar gastos, nem causar prejuízos a seus próprios patrões.
06.  Não perder tempo.
07.  Não faltar à palavra dada.
08.  No trabalho não murmurar, nem ter conversações livres, maliciosas e inconvenientes.

OBRIGAÇÕES DOS POBRES
01.  Resignar-se à vontade de Deus em sua pobreza.
02.  Não apropriar-se de coisas alheias nem mesmo sob o pretexto de necessidade.
03.  Esforçar-se para adquirir um honesto bem estar.
04.  Procurar enriquecer-se em bens eternos.
05.  Lembrar-se que Jesus Cristo e Maria Santíssima foram pobres.

OBRIGAÇÕES DE VÁRIOS ESTADOS DE VIDA


 S. Antônio M. Claret

OBRIGAÇÕES DOS CHEFES DE FAMÍLIA
01.  Sustentar a família conforme o próprio estado.
02.  Não dissipar os bens da família em jogos nem em vaidades.
03.  Pagar pontualmente o ordenado aos criados, jornaleiros, etc.
04.  Vigiar sobre os costumes de seus filhos e dependentes.
05.  Procurar que freqüentem a palavra de Deus e os santos Sacramentos.
06.  Corrigi-los com prudência.
07.  Castigá-los sem paixão de ira, etc.
08.  Tratá-los com benevolência.
09.  Tê-los ocupados.
10.  Assisti-los em suas doenças.
11.  Edificá-los com o bom exemplo.
12.  Encaminhá-los a Deus, e proporcionar-lhes bons mestres, patrões, etc.
13.  Procurar a devida separação entre pessoas de diferente sexo.
14.  Não admitir pessoa alguma que possa, com suas conversações, ou de qualquer outra maneira, ser motivo de escândalo à família.

OBRIGAÇÕES DOS FILHOS E DEPENDENTES
01.  Olhar e considerar os pais e patrões como representantes de Deus.
02.  Amá-los de coração.
03.  Respeitá-los devidamente e falar bem deles, tanto em sua presença como em sua ausência.
04.  Obedecer-lhes com prontidão.
05.  Servi-los com fidelidade.
06.  Socorrê-los em suas necessidades.
07.  Sofrer seus defeitos, calando sempre.
08.  Rogar a Deus por eles.
09.  Ter cuidado das coisas de casa.

OBRIGAÇÕES DOS MARIDOS
01.  Amar a sua esposa, como Jesus Cristo a Igreja.
02.  Não desprezá-la, porque é companheira inseparável.
03.  Ter cuidado dela, como guarda de sua pessoa.
04.  Sustentá-la com decência.
05.  Suportar seus defeitos com toda paciência.
06.  Assisti-la com caridade.
07.  Quando necessário, corrigi-la com benevolência.
08.  Não maltratá-la com palavras nem obras.
09.  Não fazer nem dizer coisa alguma diante dos filhos, ainda que pequenos, que possa ser para eles motivo de escândalo.

NB. Continua em próximas postagens. 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

MÁXIMAS PARA CADA DIA DO MÊS


 S. Antônio M. Claret

01.  Deus me vê, Deus me ouve, Deus há de julgar-me.
02.  Deus é meu Criador, meu Redentor, meu Benfeitor, meu Pai: ousarei eu ofendê-Lo?
03.  A alma é minha, é uma só, é eterna... infeliz de mim se a perder!
04.  Se a alma se salvar, tudo está salvo; se ela se perder, tudo está perdido para mim e perdido para sempre.
05.  Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se perder sua alma?
06.  Não há paz, felicidade nem contentamento para quem vive apartado de Deus.
07.  A morte chega na hora menos pensada.
08.  Num instante se peca, num instante se morre, num instante se cai no inferno.
09.  A morte é conforme à vida: tal vida, tal morte.
10.  Fomos criados unicamente por Deus e para o Céu.
11.  Tudo é vaidade, menos amar a Deus.
12.  Um momento de prazer... e depois?... depois uma eternidade de tormentos!
13. Quem poderá habitar em meio do fogo devorador do inferno, e entre os ardores sempiternos?
14.  Que faria um condenado se tivesse o tempo que eu tenho? E eu, que faço?
15.  O inferno está cheio de bons desejos não levados a efeito.
16.  A estrada do céu é estreita e poucos são os que caminham por ela; a estrada do inferno é larga e muitos vão por ela. Convém viver com os poucos, para salvar-se com os poucos.
17.  Breve sofrer, e eterno gozar.
18.  Quem desprezar os pecados veniais, não tardará em cair nos mortais.
19.  Na hora da morte nada nos consolará senão as boas obras, nada nos dará pena senão o mal que houvermos feito.
20.  Foi conveniente que Jesus padecesse e assim entrasse na glória.
21.  Cristo em jejum, eu em fartura! Cristo pobremente vestido, e eu luxuosamente vestido? Cristo entre penas, e eu nadando em delícias?
22.  Faze agora o que quiseres ter feito na hora da morte, porque naquele instante quererás fazê-lo, mas não será tempo.
23.  Vigiai e orai para não cairdes em tentação: Jesus Cristo é quem nos avisa.
24.  É necessário orar e nunca deixar de o fazer.
25.  Sem fazer-se violência a si mesmo, não se entra no reino dos céus.
26.  Ai do mundo por causa dos escândalos; mais desgraçado ainda aquele por quem vier o escândalo. Jesus Cristo mesmo o diz.
27.  Que consolação recebem agora os condenados, dos deleites que gozaram neste mundo, com os quais compraram o inferno?
28.  Aquele que não faz o que pode para salvar sua alma, ou não tem fé, ou é um louco.
29.  Para salvar-se é preciso ter a eternidade na cabeça, Deus no coração, e o mundo debaixo dos pés.
30.  Se desejarmos entrar no céu, lembremo-nos que Maria é a porta do céu.
31.  O Anjo da guarda está sempre conosco; respeitemos sua presença, agradeçamos seu amor, confiemos em seu auxílio, e tenhamos uma terna devoção a S. José.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A IGREJA CORPO MÍSTICO DE CRISTO

A IGREJA CORPO "MÍSTICO" DE CRISTO

"Cristo é a Cabeça do Corpo da Igreja" (Colossenses I, 18).

"Ao meditar este ponto da doutrina católica ocorrem-nos logo aquelas palavras do Apóstolo: 'Onde o delito abundou superabundou a graça' (Rom V, 20). Sabemos que Deus constituiu o primeiro progenitor do gênero humano em tão excelsa condição, que com a vida terrena transmitiria aos seus descendentes a vida sobrenatural da graça celeste. Mas depois da triste queda de Adão toda a humana linhagem, infeccionada pela mancha original, perdeu o consórcio da natureza divina (cf 2 Ped I, 4) e todos ficamos sendo filhos de ira (Ef II, 3). Deus, porém, na sua infinita misericórdia 'amou tanto ao mundo que lhe deu seu Filho unigênito' (Jo III, 16); e o Verbo do Eterno Pai, com a mesma divina caridade, revestiu a natureza humana da descendência de Adão, mas inocente e imaculada, para que do novo e celeste Adão dimanasse a graça do Espírito Santo a todos os filhos do primeiro pai; e estes que pelo primeiro pecado tinham sido privados da filiação adotiva de Deus, pelo Verbo encarnado, feitos irmãos segundo a carne do Filho Unigênito de Deus, recebessem o poder de virem a ser filhos de Deus (Cf Jo I, 12).

"E assim Jesus Crucificado não só reparou a justiça do Eterno Pai ofendida, senão que nos mereceu a nós, seus consaguíneos, inefável abundância de graças. Estas graças podia Ele distribuí-las diretamente por si mesmo a todo o gênero Humano. Quis, porém, comunicá-las por meio da Igreja visível, formada por homens, a fim de que por meio dela todos fossem em certo modo seus colaboradores na distribuição dos divinos frutos da Redenção. E assim como o Verbo de Deus, para remir os homens com suas dores e tormentos, quis servir-se da nossa natureza, assim, de modo semelhante, no decurso dos séculos se serve da Igreja para continuar perenemente a obra começada".
"Ora, para definir e descrever esta verdadeira Igreja de Cristo, - que é Santa, Católica, Apostólica Igreja Romana, nada há mais nobre, nem mais excelente, nem mais divino do que o conceito expresso na denominação "Corpo Místico de Jesus Cristo"; conceito que imediatamente resulta de quanto nas Sagradas Escrituras e nos escritos dos Santos Padres frequentemente se ensina".
"Que a Igreja é um corpo, ensinam-nos muitos passos da Sagrada Escritura. 'Cristo, diz o Apóstolo, é a Cabeça do Corpo da Igreja' (Col I, 18). Ora, se a Igreja é um Corpo, deve necessariamente ser um todo sem divisão, segundo  aquela sentença de Paulo: 'Nós, muitos, somos um só corpo em Cristo' (Rom XII, 5). E não só deve ser um todo sem divisão, mas também algo concreto e visível, como afirma Nosso Predecessor de feliz memória Leão XIII, na Encíclica 'Satis Cognitum': 'Por isso mesmo que é um corpo, é a Igreja visível aos olhos'.

"Estão pois longe da verdade revelada os que imaginam a Igreja por forma, que não se pode tocar nem ver, mas é apenas, como dizem, uma coisa 'pneumática' que une entre si com vínculo invisível muitas comunidades cristãs, embora separadas na fé."
"O corpo requer também multiplicidade de membros, que unidos entre si se auxiliem mutuamente. E como no nosso corpo mortal, quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele, e os sãos ajudam os doentes; assim também na Igreja os membros não vivem cada um para si, mas socorrem-se e auxiliam-se uns aos outros, tanto para mútua consolação, como para o crescimento progressivo de todo o Corpo".

"Mais ainda. Como na natureza não basta qualquer aglomerado de membros para formar um corpo, mas é preciso que seja dotado de órgãos ou membros com funções distintas e que estejam unidos em determinada ordem, assim também a Igreja deve chamar-se corpo sobretudo porque resulta de uma boa e apropriada proporção e conjunção de partes e é dotada de membros diversos e unidos entre si. É assim que o Apóstolo descreve a Igreja quando diz: 'como num só Corpo temos muitos membros, e os membros não têm todos a mesma função, assim muitos somos um só Corpo de Cristo, e todos e cada um membros uns dos outros' (Rom XII, 4).

"Não se julgue, porém, que esta bem ordenada e 'orgânica' estrutura do Corpo da Igreja se limita unicamente aos graus da hierarquia; ou, ao contrário, como pretende outra opinião, consta unicamente de carismáticos, isto é, dos fiéis enriquecidos de graças extraordinárias, que nunca hão de faltar na Igreja. É fora de dúvida que todos os que neste Corpo estão investidos de poder sagrado são membros primários e principais, já que são eles que, por instituição do próprio Redentor, perpetuam os ofícios de Cristo Doutor, Rei e Sacerdote. Contudo, os Santos Padres, quando celebram os ministérios, graus, profissões, estados, ordens, deveres deste Corpo Místico, não consideram só os que têm ordens sacras, senão também todos aqueles que, observando os conselhos evangélicos, se dão à vida ativa, ou à contemplativa, ou à mista, segundo o próprio instituto; bem como os que, vivendo no século, se consagram ativamente a obras de misericórdia espirituais ou corporais; e finalmente também os que vivem unidos pelo santo Matrimônio"


"Antes é de notar que, sobretudo nas atuais circunstâncias, os pais e as mães de família, os padrinhos e madrinhas, e notadamente todos os seculares que prestam o seu auxílio à Hierarquia eclesiástica na dilatação do reino de Cristo, ocupam um posto honorífico, embora muitas vezes humilde, na sociedade cristã, e podem muito bem sob a inspiração e com o favor de Deus subir aos vértices da santidade, que por promessa de Jesus Cristo nunca faltará na Igreja" (Todo o artigo compõe-se de excertos da Encíclica do Papa Pio XII "MYSTICI CORPORIS CHRISTI" - 1943). 

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

PROFECIA QUE CONDENA O MODERNISMO

LEITURA ESPIRITUAL 


"Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino: prega a palavra, insiste, quer agrade quer desagrade, repreende, suplica, admoesta com toda a paciência e doutrina, porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas multiplicarão para si mestres ao capricho de suas paixões, (levados) pelo prurido de ouvir novidades. Afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas" (II Timóteo IV, 1-4).

Há homens de coração reto que têm sede de uma luz infinita. E esta sede do infinito, só Deus pode saciá-la. E Deus se fez Homem para lhes dar a segurança dizendo: Eu sou a Verdade. E o grande foco da luz divina é a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Divino Mestre cingiu a fronte de sua Esposa mística com o diadema visível de Rainha da Verdade. A unidade, a indefectibilidade, a santidade e a infalibilidade refulgem na coroa da Igreja, quais gemas preciosas, prendas que são deste Divino Esposo e que distinguirão a Igreja das rugas das adulterações humanas e das manchas das sociedades heréticas ou cismáticas. Dado o orgulho humano, estas últimas infelizmente sempre existirão. Daí as exortações do Apóstolo  ao seu discípulo e bispo Timóteo, exortações estas sobre as quais vamos ora refletir.

São Paulo, num tom pleno de solene gravidade, conjura o seu discípulo caríssimo, o Bispo Timóteo, a ser fiel à sua missão de pregar a doutrina imutável de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, portanto, deverá insistir, quer agrade quer desagrade, e repreender aqueles que dela se afastarem. O Apóstolo dos Gentios, exorta o seu discípulo a ter sempre firmeza em defender a verdade, a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo que não muda, e, ao mesmo tempo, mostra que é mister fazê-lo sempre com bondade e paciência, isto é, sem discussões e altercações.

Não há a mínima dúvida de que São Paulo faz aqui uma profecia: "virá tempo" afirma ele. Já na primeira carta ao mesmo Bispo Timóteo, o Apóstolo São Paulo já alertava: "O Espírito (Santo) diz claramente que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, dando ouvido a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios..." (I Tim., IV, 1). E ao terminar esta mesma carta, faz esta exortação: "Ó Timóteo, guarda o depósito (da fé), evitando as novidades profanas de palavras e as contradições de uma ciência de falso nome, professando a qual, alguns se desviaram da fé" (I Tim. VI, 20 e 21).

A lídima Palavra de Deus da qual os bons têm sede, causa náuseas aos orgulhos. Não suportam ouvir a sã doutrina. Almejam uma multidão de pregadores que adulem suas paixões. Por isso São Paulo já na primeira epístola, havia dito a Timóteo: "Se alguém ensina, de modo diferente e não abraça as sãs palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo e aquela doutrina que é conforme à piedade, é um soberbo..." (I Tim., VI, 3 e 4). Não suportam ouvir sempre a mesma coisa; desejam ardentemente ouvir novidades. Em lugar do Evangelho, da verdade confirmada com tantos milagres, e assim tornada a mais evidente e incontestável, abraçarão fabulosas, estranhas e inacreditáveis doutrinas. Assim agiram os gnósticos, maniqueus e outros hereges.

Em verdade, esta profecia de São Paulo vem se realizando desde os primeiros séculos; mas, com certeza se realizará plenamente nos últimos tempos, na época do Anti-Cristo. Mas não resta a mínima dúvida de que ela se cumpre ao pé da letra em relação aos modernistas. São Pio X dizia que o Modernismo é a reunião de todas as heresias, e a sua origem está no orgulho humano que procura novidades que agradam. Agravando-se o espírito de contestação contra a Tradição e os dogmas, compreende-se que os modernistas não suportem mais ouvir a verdade. Daí vem a apostasia da fé, e passam a pregar abertamente doutrinas diabólicas. Os modernistas são pessoas ávidas de popularidade, que lançam a divisão na Igreja e nas famílias. Organizam conciliábulos e preparam os cismas dentro da Igreja. Procuram ensinar outras coisas diferentes e rejeitam a linguagem escolástica tradicional. Cabe aqui perfeitamente seguirmos a mesma exortação que S. Paulo fez a Tito: "Foge do homem herege, depois da primeira e da segunda correção, sabendo que tal homem está pervertido e peca, como quem é condenado pelo seu próprio juízo" (Tito, III, 10 e 11).

Caríssimos, um só é o código que liga nossas almas aos destinos eternos: o Evangelho genuíno sem alterações e acomodações humanas. A própria Santa Madre Igreja é infalível enquanto guarda santamente e expõe fielmente o que Jesus ensinou, ensinamento este em parte escrito por inspiração do Espírito Santo (S. Escritura), e em parte (maior) transmitido como de mão em mão através das gerações também sob a assistência do Espírito Santo (Tradição).  Guardemo-lo com toda fidelidade e amor.  A graça de Deus seja com todos vós. Amém. 

domingo, 28 de janeiro de 2018

São Pio X: "Um dos graves erros do "Sillon" é o interconfessionalismo"

   Apresentamos aqui apenas alguns excertos da Encíclica "Notre Charge Apostolique" com que São Pio X condenou o movimento nascido na França e chefiado por Marc Sangnier: "Le Sillon" ( = Sulco).
   No início foi bom. Eis como São Pio X fala dos bons tempos do "Sillon":
 "O "Sillon" levantou, entre as classes operárias, o estandarte de Jesus Cristo, o sinal da salvação para os indivíduos e as nações, alimentando sua atividade social nas fontes da graça, impondo o respeito da religião nos ambientes menos favoráveis , habituando os ignorantes e os ímpios a ouvir falar de Deus..."
  Era um movimento da juventude. Infelizmente, os sillonistas, como demonstra São Pio X, caíram em vários erros e se tornaram anti-clericais. São Pio X desmascara e condena os seus erros. Mas aqui vamos transcrever o que São Pio X diz sobre o "INTERCONFESSIONALISMO":
"Houve um tempo em que o Sillon , como tal, era formalmente católico. Em matéria de força moral, só conhecia uma: a força católica, e ia proclamando que a democracia havia de ser católica, ou não seria democracia. Em dado momento, entretanto, mudou de parecer. Deixou a cada um em sua religião ou sua filosofia. Ele próprio deixou de se qualificar de "católico", e a fórmula "A democracia há de ser católica" substituiu-a por esta "A democracia não há de ser anti-católica", tanto quanto, aliás, antijudaica ou antibudista. Foi a época do "maior Sillon". Todos os operários de todas as religiões e de todas as seitas foram convocados para a construção da cidade futura. Outra coisa não se lhes pediu a não ser que abraçassem o mesmo ideal social, que respeitassem todas as crenças e que trouxessem um saldo de forças morais. Certamente, proclamava-se, "Os chefes do Sillon põem sua fé religiosa acima de tudo. Mas podem recusar aos outros o direito de haurir sua energia moral lá onde podem? Em troca, querem que os outros respeitem seu direito, deles, de hauri-la na fé católica. Pedem, pois, a todos aqueles que querem transformar a sociedade presente no sentido da democracia, que não se repilam mutuamente por causa de convicções filosóficas ou religiosas que os possam separar mas que marchem de mãos dadas, não renunciando a suas convicções, mas experimentando fazer, sobre o terreno das realidades práticas, a prova da excelência de suas convicções pessoais. Talvez que neste terreno de emulação entre almas ligadas à diferentes convicções religiosas ou filosóficas a união se possa realizar" (Marc Sangnier, discurso de Rouen, 1907); ... "Os camaradas católicos se esforçarão entre si próprios, numa organização especial, por se instruir e se educar. Os democratas protestantes e livre-pensadores farão o mesmo de seu lado. Todos, católicos, protestantes e livre-pensadores terão em mira armar a juventude não para uma luta fratricida, mas para uma generosa emulação no terreno das virtudes sociais e cívicas" (Marc Sangnier, Paris, maio de 1910). Estas declarações e esta nova organização da ação sillonista provocam bem graves reflexões. Eis uma associação interconfessional, fundada por católicos, para trabalhar na reforma da civilização, obra eminentemente religiosa, porque não há civilização verdadeira sem civilização moral, e não há verdadeira civilização moral sem a verdadeira religião: é uma verdade demonstrada, é um fato histórico. E os novos sillonistas não poderão pretextar que só trabalharão "no terreno das realidades práticas" onde a diversidade das crenças não importa. Seu chefe tão bem percebe esta influência das convicções do espírito sobre o resultado da ação, que os convoca, qualquer que seja a religião a que pertençam, a "fazer no terreno das realidades práticas a prova da excelência de suas convicções pessoais". E, com razão, porque as realizações práticas revestem o caráter das convicções religiosas, como os membros de um corpo, até às últimas extremidades, recebem sua forma do princípio vital que o anima. Isto posto , que deve pensar da promiscuidade em que se acharão agrupados os jovens católicos com heterodoxos e incrédulos de toda espécie, numa obra desta natureza? Esta não será mil vezes mais perigosa para eles do que uma associação neutra? Que se deve pensar deste apelo a todos os heterodoxos e a todos os incrédulos para virem provar a excelência de suas convicções no terreno social, numa espécie de concurso apologético, como se este concurso já não durasse há 19 séculos, em condições menos perigosas para a fé dos fiéis e sempre favorável à Igreja Católica? Que se deve pensar deste respeito a todos os erros e deste estranho convite, feito por um católico a todos os dissidentes, fortificarem suas convicções pelo estudo e delas fazer as fontes sempre mais abundantes de novas forças? Que se deve pensar de uma associação em que todas as religiões, e mesmo o livre-pensamento, podem manifestar-se altamente à vontade? Porque os sillonistas que, nas conferências públicas e em outras ocasiões proclamam altivamente sua fé individual, não pretendem certamente fechar a boca aos outros e impedir que o protestante afirme seu protestantismo e o cético, seu cetiscismo. Que pensar, enfim, de um católico que, ao entrar em seu círculo de estudos, deixa na porta seu catolicismo, para não assustar seus camaradas que, "sonhando com uma ação social desinteressada, têm repugnância de a fazer servir ao triunfo de interesses, de facções, ou mesmo de convicções, quaisquer que sejam"?  Tal é a profissão de fé na nova Comissão Democrática da Ação Social, que herdou a maior tarefa da antiga organização, e que, assim afirma, "desfazendo o equívoco em torno do maior Sillon, tanto nos meios racionários como nos meios anticlericais", está aberta a todos os homens "respeitadores das forças morais e religiosas e convencidos de que nenhuma emancipação social verdadeira será possível sem o fermento de um "generoso idealismo". Ah, sim! O equívoco está desfeito; - conclui com ironia São Pio X - a ação social do Sillon não é mais católica; o sillonista, como tal não trabalha para uma facção, e "a Igreja, ele o diz, não deveria, por nenhum título, ser a beneficiária das simpatias que sua ação possa suscitar". Insinuação estranha, em verdade! Teme-se que a Igreja se aproveite, com objetivo egoísta e interesseiro, da ação social do Sillon, como se tudo o que aproveita à Igreja não aproveitasse à humanidade! Estranha inversão de idéias: a Igreja é que seria beneficiária da ação social, como se os maiores economistas já não houvessem reconhecido e demonstrado que a ação social é que, para ser real e fecunda, deve beneficiar-se da Igreja. Porém, mais estranha ainda, ao mesmo tempo inquietantes e acabrunhadoras, são a audácia e a ligeireza de espírito de homens que se dizem católicos, e que sonham refundir a sociedade em tais condições, e estabelecer sobre a terra, por cima da Igreja Católica, "o reino da justiça e do amor", com operários vindos de toda parte, de todas as religiões ou sem religião, com ou sem crenças, contanto que se esqueçam do que os divide: suas convicções religiosas e filosóficas, e ponham em comum aquilo que os une: um generoso idealismo e forças morais adquiridas "onde possam". Quando se pensa em tudo que foi preciso de forças, de ciência, de virtudes sobrenaturais para estabelecer a sociedade cristã, e nos sofrimentos de milhões de mártires, e nas luzes dos Padres e dos Doutores da Igreja, e no devotamento de todos os heróis da caridade, e numa poderosa Hierarquia nascida no céu, e nas torrentes da graça divina, e tudo isto edificado, travado, compenetrado pela Vida e pelo Espírito de Jesus Cristo, a Sabedoria de Deus, o Verbo feito homem; quando se pensa, dizíamos, em tudo isto, fica-se atemorizado ao ver novos apóstolos se encarniçarem por fazer melhor, através da atuação dum vago idealismo e de virtudes cívicas. Que é que eles querem produzir? Que é que sairá desta colaboração? Uma construção puramente verbal e quimérica, em que se verão coruscar promiscuamente, e numa confusão sedutora, as palavras liberdade, justiça, fraternidade e amor, igualdade humana, e tudo baseado numa dignidade humana mal compreendida. Será uma agitação tumultuosa, estéril para o fim proposto, e que aproveitará aos agitadores de massas, menos utopistas. Sim, na realidade, pode-se dizer que o Sillon escolta o socialismo, o olhar fixo numa quimera. Tememos que ainda haja coisa pior. O resultado desta promiscuidade em trabalho, o beneficiário desta ação cosmopolita só poderá ser uma democracia, que não será nem católica, nem protestante, nem judaica; seria uma religião (porque o sillonismo, como seus chefes o afirmam, é uma religião) mais universal do que a Igreja Católica, reunindo todos os homens tornados enfim irmãos e camaradas no "reino de Deus". - "Não se trabalha pela Igreja, dizem, trabalha-se pela humanidade".

Que é a Igreja para o Teólogo Modernista?

  É um parto da consciência coletiva, isto é, da coletividade das consciências individuais, que, por virtude da permanência vital, estão todas pendentes do primeiro crente, que para os católicos foi Cristo. 
  Afirmam os modernistas que foi erro das eras passadas pensar-se que a autoridade da Igreja emanou de princípio estranho, isto é, imediatamente de Deus; e por isso, com razão, era ela considerada autocrática. Estas teorias, porém, já não são para os tempos modernos. Assim como a Igreja emanou da coletividade das consciências, a autoridade nasce também da consciência religiosa, e por esta razão fica dependente da mesma; e se faltar a essa dependência, torna-se tirânica. Nos tempos que correm o sentimento de liberdade atingiu o seu pleno desenvolvimento. No estado civil a consciência pública quis um regime popular. Mas a consciência do homem, assim como a vida, é uma só. Se, pois, a autoridade da Igreja não quer suscitar e manter uma intestina guerra nas consciências humanas, há também mister curvar-se a formas DEMOCRÁTICAS. Seria loucura pensar que o vivo sentimento de LIBERDADE, ora dominante, retroceda. Dizem os modernistas que se a Igreja quiser reprimir e enclausurar este sentimento de liberdade, ele transbordará mais impetuoso, destruindo conjuntamente a religião e a Igreja. 

A IGREJA E A SOCIEDADE CIVIL: São as mesmas regras que serviram para a ciência e a fé. Falava-se outrora do temporal sujeito ao espiritual; nas questões mistas, a Igreja intervinha qual senhora e rainha, porque então se tinha a Igreja como instituída  imediatamente por Deus, enquanto autor da ordem sobrenatural. Mas, dizem os modernistas, estas crenças já não são admitidas pela filosofia, nem pela história. Deve, pois, a Igreja separar-se do Estado, e assim também o católico do cidadão. E é por este motivo também que o católico, não se importando com a autoridade, com os desejos, com os conselhos e com as ordens da Igreja, e até mesmo desprezando as suas repreensões, tem direito e dever de fazer o que julgar mais oportuno ao bem da pátria. Querer, sob qualquer pretexto, impor ao cidadão uma norma de proceder, é por parte do poder eclesiástico verdadeiro abuso, que se deve repelir com toda a energia. (Estas heresias já tinham sido condenadas por Pio VI na "Auctorem fidei").

Observação importante: Hoje que os modernistas comandam e estão nos postos mais elevados da hierarquia, dizem que o povo deve obedecer à hierarquia e em tudo. Assim, o modernismo vai se alastrando também entre os fiéis. Sabemos que, sendo a Igreja divina, nunca faltará o "sensus fidei", isto é, sempre haverá, nem que seja em pequeno número, fiéis que guardem íntegra a Tradição e não aceitem a evolução dos dogmas. Muitos guardam o bom senso de que a Igreja está em crise, e fora do campo da infalibilidade a hierarquia pode fazer e ordenar coisas que favoreçam  à heresia e da parte de bispos, vêem muitas heresias. Assim sendo sabem que não devem obedecer tais ordens. Infelizmente é muito mais cômodo obedecer em tudo e fechar os olhos por conveniência. Talvez, hoje, a maioria age desta maneira e não dá testemunho da verdade.

  Na coisas temporais a Igreja tem que sujeitar-se ao Estado dizem os modernistas. Os protestantes liberais caíram em mais um erro que é a religião individual. 
   O que acabamos de explicar, refere-se à autoridade disciplinar. Agora, as afirmações modernistas em relação à autoridade doutrinal e dogmática. Aí são ainda mais graves e perniciosas. Dizem: A sociedade religiosa não pode deveras ser uma, sem unidade de consciência nos seus membros e unidade de fórmula. Daí tiram o conceito de Magistério eclesiástico: Não é mais do que um produto das consciências individuais, e só para cômodo das mesmas consciências lhe é atribuído ofício público. Assim sendo, ele, dependendo dessas consciências, deve inclinar-se a formas DEMOCRÁTICAS. É abuso da autoridade querer impedir a necessária evolução dos dogmas. Protestando embora o seu profundo respeito à autoridade, o católico deve continuar sempre a trabalhar à sua vontade. Em geral, os modernistas admoestam a Igreja de que, sendo o fim do poder eclesiástico todo espiritual, não lhe assenta bem essas exibições de aparato exterior e de magnificência, com que sói comparecer às vistas da multidão. São Pio X, de imediato, refuta tão descabida crítica modernista: "E quando assim o dizem procuram esquecer que a religião, conquanto essencialmente espiritual, não pode restringir-se exclusivamente às coisas do espírito, e que as honras prestadas à autoridade espiritual se referem à pessoa de Cristo que a instituiu. 

   A DOUTRINA MODERNISTA DA EVOLUÇÃO NA IGREJA. Têm eles por princípio geral que, numa religião viva, tudo deve ser mutável e mudar-se de fato. Por aqui abrem caminho para uma das suas principais doutrinas, que é a da EVOLUÇÃO.  O dogma, a Igreja, o culto, os livros sagrados a té mesmo a fé, se não forem coisas mortas, devem sujeitar-se às leis da evolução. Dizem ainda os modernistas: A Igreja mostra-se inimiga dos progressos das ciências naturais e teológicas; A verdade não é menos imutável do que o homem, pois que evolui com ele, nele e por ele; Cristo não ensinou um corpo fixo de doutrina aplicável a todos os tempos e a todos os homens; inaugurou em vez certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares; A Igreja mostra-se incapaz de defender eficazmente a moral evangélica, porque adere obstinadamente a doutrinas imutáveis, que não podem conciliar-se com o progresso moderno; O progresso das ciências exige que se reformem os conceitos da doutrina cristã sobre Deus, a Criação, a Revelação, a Pessoa do Verbo Encarnado e a Redenção; O Catolicismo atual não pode harmonizar-se com a verdadeira ciência a não ser que se transforme num cristianismo sem dogmas, isto é, num protestantismo largo e liberal. 

sábado, 27 de janeiro de 2018

O PAPA HONÓRIO I E SÃO MÁXIMO, O CONFESSOR

   Honório I foi um papa legitimamente eleito em 625 e que governou a Santa Igreja até sua morte que se deu no ano de 638. Portanto governou a Igreja durante 13 anos.Na lista dos papas legítimos da Igreja, Honório I ocupa o 70º lugar. Dizem os historiadores que ele foi um ótimo administrador. Reconstruiu o Aqueduto de Trajano e o teto da Basílica de São Pedro construída por Constantino. Transformou muitos ambientes pagãos em igrejas cristãs. O essencial, porém, é que um papa seja um muro de bronze contra as heresias. Mas, infelizmente, não o foi.
   Baseada nas Sagradas Escrituras e na Tradição a Teologia Católica sempre ensinou que em Jesus Cristo há uma só pessoa (a Pessoa Divina do Filho de Deus); mas são duas naturezas, a divina e a humana, que tem cada uma sua vontade e sua operação; de sorte que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, isto é, a vontade e a operação divina, a vontade e a operação humana.
   A heresia que ensinava haver em Jesus Cristo uma só vontade e uma só operação, chamava-se Monotelismo. E os seus principais chefes foram dois Bispos e Patriarcas: Sérgio e Pirro. É bom saber que Patriarca era a maior autoridade no Oriente. O Bispo Sérgio era Patriarca de Constantinopla; e o Bispo Pirro era Patriarca de Alexandria. Diz São João Bosco que estes dois hereges empregaram toda sorte de meios para arrastar o Papa Honório I a seu erro. E também o Imperador que, na época, era Constante, favorecia os hereges. Para este fim o Bispo Patriarca Sérgio escreveu uma carta mui subtilmente insidiosa ao Papa Honório I. Nesta carta o Bispo Patriarca Sérgio dizia que, em vista da efervescência de opiniões, seria coisa muito prudente para se evitar tais discussões e escândalos, proibir que se afirmasse haver em Jesus Cristo uma só vontade e operação ou duas, e que se impusesse silêncio a respeito. E o Papa Honório I não tendo advertido o laço que lhe havia armado o Bispo e Patriarca Sérgio, aprovou como prudente o silêncio aconselhado por este herege. O Papa Honório I em duas cartas dirigidas ao Bispo Sérgio (Cf. D. 251 e 252) além de expor a doutrina de maneira ambígua (sobre as duas vontades em Jesus Cristo) cai também na cilada do Bispo e Patriarca Sérgio. Eis, em resumo, o que escreveu o Papa Honório I nestas cartas ao Bispo e Patriarca de Constantinopla: 1º - a ambigüidade: Ele afirma que em Jesus Cristo há uma só vontade. A primeira vista e não lendo todo o contexto, e, sobretudo, escrevendo para o Bispo Sérgio que erradamente dizia haver uma só vontade em Jesus Cristo, esta afirmação de Honório I parecia herética. Mas, na verdade, ele queria apenas dizer uma vontade moral, e não física; em outras palavras, ele queria dizer que em Jesus Cristo não podia haver duas vontades contrárias, como acontece conosco pecadores, em que pela concupiscência encontram-se em nós a vontade do espírito e a vontade da carne. Então todos os teólogos dizem que no contexto a doutrina era ortodoxa, mas dado o contexto histórico, ou seja, naquelas circunstâncias, o Papa Honório I deu ocasião para ser mal interpretado, ou melhor dizendo, ele deu azo para ser malevolamente interpretado pelos hereges monotelitas.
   Além desta falha, ou seja a ambigüidade, que é sempre um mal, mas que se torna mais desastrosa na época de heresia, Honório I teve uma outra falha não menos perniciosa: foi negligente e consequentemente imprudente, fazendo não o que os teólogos ortodoxos, como São Máximo monge e São Sofrônio bispo, ensinaram segundo a Tradição e as Sagradas Escrituras, mas deu ouvidos com facilidade, para não dizer com displicência, aos Bispos e Patriarcas hereges Sérgio e Pirro.
   Eis algumas de suas palavras: "Não nos devemos preocupar em dizer ou entender que em Jesus Cristo, por causa das obras da divindade e da humanidade, seja uma ou duas operações. Deixamos estas coisas para os gramáticos discutirem... Nós, porém, não percebemos pelas Sagradas Escrituras, se (em Jesus Cristo) é uma ou se são duas operações, mas vemos que Ele opera de muitas maneiras."... "Portanto, para evitar o escândalo de uma nova invenção, não nos interessa pregar definindo se é uma ou se são duas operações". E depois o Papa Honório I diz que se pode falar em duas naturezas, mas não se deveria empregar a expressão "duas operações". Em latim está assim: "ablato geminae operationis vocabulo".
   Agora vejamos a atitude de São Máximo, o Confessor. Na verdade, não foi só ele que não obedeceu ao Papa Honório I, mas, entre muitos outros podemos citar ainda: São Sofrônio que era Bispo e dois discípulos de São Máximo ambos chamados Anastácio. Um era núncio do Papa, e o outro era monge. Mas vamos falar só de São Máximo, o Confessor. D. Antônio de Castro Mayer na sua carta pastoral "Aggiornamento e Tradição" diz: "Entre os que continuaram a ensinar as duas vontades em Jesus Cristo está o grande São Máximo, chamado o Confessor porque selou com o martírio sua fidelidade à doutrina católica tradicional".
   São Máximo se tornou um dos homens mais sábios do século VII. Sua capacidade era tanto mais notável quanto a cobria uma grande humildade.
   Embora em consciência viu claramente que não podia obedecer ao Papa Honório I, no entanto, nunca lhe faltou o respeito, e na medida do possível, procurou até defender o Papa Honório I. Por exemplo, numa carta a um padre chamado Marino, São Máximo faz ver que os Santos Padres da Igreja reconhecem em Jesus Cristo duas vontades e diz: "Eu estou mesmo persuadido de que o Papa Honório, falando em sua carta a Sérgio de uma vontade, não negou as duas vontades naturais, mas ao contrário, as estabelece. Pois ele somente negou a vontade carnal e viciosa. A razão que dá prova-o, isto é, que a divindade tomou nossa natureza e não nosso pecado".
   São Máximo, apesar da proibição do Papa Honório I, teve uma disputa pública com o Bispo Pirro, Patriarca de Alexandria, e companheiro de heresia do Bispo e Patriarca Sérgio. Pois bem! São Máximo conseguiu refutar o Bispo Pirro e este terminou abjurando a heresia do monotelismo. Mas, talvez influenciado pelas fraquezas que teve o papa Honório I, infelizmente recaiu na heresia.
   Como acontecera com o Arianismo, favorecido pelo Papa Libério (embora isto seja nebuloso) e pelos imperadores, e, por outro lado, combatido por mais de quarenta anos seguidos por Santo Atanásio, o Monotelismo foi favorecido pelo Papa Honório I e também pelos imperadores.
   Quase 1200 anos mais tarde, se discutia no Concílio Vaticano I, a proclamação do dogma da Infalibilidade papal, e os adversários da definição, puseram sobre o tapete a chamada questão de Honório I, e se procedeu a um estudo de todas as fontes documentais e se rechaçou a objeção como infundada.
   1º - A defesa de Honório I, feita pelo próprio São Máximo, como já vimos.
   2º- A defesa feita por alguns papas. Por exemplo: o Papa João IV (640-642) dá, das palavras de seu antecessor o papa Honório I, a mesma explicação dada por São Máximo, que referimos acima.
   3º - A maior objeção contra Honório I, foi o III Concílio de Constantinopla, que foi o VI Concílio Ecumênico na Igreaja (680). Neste Concílio os bispos (que eram em número de 160) condenaram os monotelitas como hereges e entre eles o papa Honório I. Mas é preciso lembrar uma verdade básica sobre um Concílio Ecumênico. E é o seguinte: Os bispos num Concílio Ecumênico são infalíveis em questão de fé e moral. Mas não podemos esquecer que para tanto é absolutamente necessária a confirmação do Papa. Do contrário não é infalível. Pois bem! O que aconteceu neste Concílio de Constantinopla III? Todos os bispos condenaram o Papa Honório como herege. Mas o Papa São Leão II, não aprovou esta condenação de Honório I como herege. É certo que aprovou a condenação dos monotelitas como hereges. Mas quanto ao Papa Honório I, aprovou a sua condenação, ou seja, o lançamento do anátema, não por ter sido herege, mas por ter favorecido a heresia por sua ambiguidade, negligência e omissão. Eis então a condenação do Papa Honório I feita pelo Papa São Leão II: "Anatematizamos também Honório (Papa) que não ilustrou esta Igreja Apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas permitiu, por sua traição sacrílega, que fosse maculada a fé imaculada (...) "e não extinguiu, como convinha à sua autoridade apostólica, a chama incipiente da heresia, mas a estimulou por sua negligência". ( Denz-Sch. 563 e 561).
   O Papa Adriano II diz que Honório I foi condenado pelos bispos orientais como herético. Sabemos que os bispos reunidos no 3º Concílio de Constantinopla realmente incluíram o papa Honório I na condenação dos monotelitas como hereges. Mas, como acabamos de ver, a decisão de um Concílio mesmo Ecumênico, depende da aprovação do Papa. E São Leão II aprovou o anátema contra os monotelitas por serem heréticos, mas, quanto ao papa Honório I, lançou um anátema em separado, ou seja, como favorecedor de heresia por ambiguidade, negligência e omissão. E, em um papa, estas faltas são realmente merecedoras de anátema.
   Vamos resumir aqui as falhas do Papa Honório I:
   1º - O Papa Honório I foi ambíguo em expor a verdade. E isto é objetivamente muito grave da parte de um papa. E se torna mais grave ainda se a ambiguidade é sobre uma verdade pregada pela Tradição da Santa Igreja e que está sendo negada pelos hereges como foi o caso. E vejam bem, caríssimos leitores. Apesar de alguns papas sucessores de Honório I terem procurado dar a interpretação ortodoxa da exposição ambígua de Honório I, no entanto, a heresia continuou, alimentada sempre pela fraqueza de Honório I. A ambiguidade é como algo inflamável. Mas, se uma tubulação de gaz está com algum vazamento, é claro que as pessoas de bem evitarão qualquer faísca; mas, não faltará um terrorista para lançar de propósito a faísca.  Então, não é suficiente, colocar um aviso alertando para o perigo. Chama-se imediatamente o Corpo de Bombeiros para eliminar o vazamento. Na verdade, o papa Honório I fora ambíguo. Não resolveu o problema o fato de alguns papas sucessores de Honório alertarem para não se lançar nenhuma faísca herética. Mas a ambiguidade continuava. Consequentemente também o perigo. Então, que fez o Papa Leão II. Eliminou a causa, eliminou o mal pela raiz. Condenou o Papa Honório I pela sua ambiguidade e negligência. E, assim, a heresia do Monotelismo só acabou mesmo depois que São Leão condenou expressamente e de maneira enérgica, as falhas de Honório I. E, para sermos mais preciso, a heresia ainda sobreviveu alguns poucos anos após a condenação de Honório  feita pelo Papa São Leão II; mais ou menos como uma roda de uma máquina que, mesmo depois de desligada da energia elétrica, ainda trabalha mais um pouco pelo impulso anteriormente recebido. É bom, caríssimos leitores, para se avaliar melhor o mal que Honório I causou à Igreja, saber que a heresia do Monotelismo durou mais de 40 anos. O papa Honório I morreu no ano de 638 e o Papa São Leão II condenou-o no ano 680.
   2º- Além da ambiguidade, a segunda falha do Papa Honório I foi a imprudência.
   Se o pastor e guia, não vigia, ai do rebanho!!! Os hereges, sobretudo os saídos da própria hierarquia da Igreja (e a maioria o é) são astutos, são lobos com peles de ovelha. Então, o guia supremo da Igreja, o Papa, deve estar muito atento para não cair nas ciladas dos seus inimigos. Aliás, não é precisamente isto que a Santa Madre Igreja nos ensina a rezar?! ..."et non tradat eum in animam inimicorum ejus"? (Oração pelo Sumo Pontífice na bênção do SS. Sacramento). E pedimos a Deus na Ladainha de Todos os Santos: "Para que Vos digneis conservar em santa Religião o Sumo Pontífice".
   Como diz São Leão II, a atitude de Honório I foi uma "traição sacrílega", porque, como papa, ele tinha obrigação de vigiar e, notando que a fumaça, ou melhor, a chama de Satanás estava começando, ele, como autoridade apostólica e suprema, tinha o grave dever de extingui-la inteira e imediatamente; e, não só não o fez, mas alimentou esta mesma chama com a ambiguidade e negligência e, sobretudo tendo a fraqueza de impor silêncio aos santos e doutos homens da Igreja, São Máximo e São Sofrônio que defendiam a verdade contra os bispos e patriarcas hereges. Ainda bem que estes homens, hoje canonizados pela Igreja, não obedeceram ao Papa Honório I. Não faltaram o respeito ao Papa Honório I, que favorecia a heresia; nem tão pouco caíram no SEDEVACANTISMO.
   Para terminar,vejamos as lições que nos dá São Máximo, o Confessor: Quando um papa, por sua negligência e/ou imprudência, favorece a heresia, em consciência diante de Deus, não podemos obedecer; não podemos segui-lo. Aí, devemos obedecer antes a Deus que aos homens. O Papa Honório I proibiu que se falasse em duas operações em Jesus Cristo. São Máximo não obedeceu e continuou pregando a verdade da Tradição. Talvez, na época, o monge Máximo fosse considerado desobediente e rebelde. Mas hoje sabemos que um papa e aliás, um papa santo, ou seja São Leão II condenou o Papa Honório I como Traidor da Tradição; e o monge Máximo foi canonizado pela Igreja e recebeu o epíteto de "o Confessor". De fato desobedeceu ao Papa, para confessar a Tradição.
   O que o Papa Honório I fez moralmente contra São Máximo, fê-lo também fisicamente o Imperador que era monotelita. Este também proibiu São Máximo de continuar pregando que em Cristo há duas operações e duas vontades. Como São Máximo não obedeceu, o imperador mandou o carrasco lançá-lo na prisão, açoitá-lo e finalmente mandou cortar-lhe a língua e a mão direita.
   São Máximo é venerado na Igreja como mártir e "o Confessor" no dia 13 de agosto.
   Caríssimos e amados leitores, invoquemos a São Máximo que nos obtenha junto a Nosso Senhor Jesus Cristo as luzes e a força necessárias para defendermos a Santa Madre Igreja contra as ciladas dos modernistas, contra a fumaça de Satanás, contra a autodemolição desta amada "Esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo". Peçamos, outrossim, a Nosso Senhor Jesus Cristo que nos livre do Sedevacantismo; que nos livre de toda rebelião contra a autoridade em si. Que nos dê a firmeza para obedecermos antes a Deus que aos homens, quando as autoridades legítimas nos mandarem algo contra a Lei de Deus. Mas, mesmo nestes casos de resistência às autoridades, que Deus, Nosso Senhor, nos guarde de qualquer desrespeito, insulto à autoridade em si mesma. Amém!

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A BATINA

ORIGEM
   Padres e fiéis vestiam-se da mesma túnica de mangas largas, toga e manto, na primitiva Igreja. Veio depois, com as invasões bárbaras, o uso de vestes curtas e exóticas, Só então é que, no Concílio de Macom em 581, a Igreja tornou obrigatório aos clérigos o uso da toga. Começa daí a distinção entre leigos e clérigos, no modo de trajar. E os cânones castigavam com penas severas os clérigos que ousassem trajar vestes seculares. No século XIII introduziram-se abusos na toga. Usavam-na muitos clérigos de cores berrantes e de ricos tecidos. Diversos Concílios protestaram  contra estas vaidades pouco edificantes em homens consagrados ao serviço de Deus. Foi regulamentado o uso das cores: o vermelho e o verde eram reservados só aos bispos. Os sacerdotes e clérigos inferiores podiam escolher entre o roxo, o preto e o branco. Mas, ai! a impenitente vaidade humana ainda achou pábulo na veste clerical. Vieram as golas plissadas  e  bordadas com arte e fino gosto, as sobre-mangas de seda, etc. Era mister uma reforma. Vem Xisto V, o severo Pontífice das reformas. Em 1588 pela Bula "Sacrosanctum", fica definitivamente introduzido o uso da batina como hoje a temos. Os termos da Bula de Xisto V são enérgicos. A veste eclesiástica será toda preta, longa e bem fechada. A vaidade de alguns clérigos e os alfaiates encontraram, na batina da Bula "Sacrosanctum" , uma barreira intransponível. Que fariam diante desta mortalha preta e simplificada ao extremo (Dictionaire des connaissances religieuses....(soutaine)  tomo VI).
  
SIMBOLISMO
   A Igreja de Deus, dirigida pelo Divino Espírito santo, faz transparecer nas coisas sensíveis e exteriores o quanto possível, o que há de mais oculto nos seus mistérios. Pelos gestos, vestes litúrgicas, cerimônias etc. Traduz na medida do possível o que se passa nas profundezas da alma. A veste clerical, a batina, não foi arbitrariamente imposta ao clérigo. Tem um simbolismo profundo e belo. Ela nos repete as palavras de Jesus Cristo aos discípulos: "Vos de mundo non estis". "Vós não sois do mundo". E como não é o padre do mundo, diz Bossuet, nos recorda que ela é a bandeira mortuária do mundo.
   E sob este aspecto é que é preciso considerá-la. Estamos mortos para o mundo para vivermos com o Cristo para sempre. O beato Olier no seu admirável "Traté des saintes Odres" nos dá o simbolismo da batina, da santa batina, "la sainte soutaine", como ele sempre a chamava. "A santa batina, diz o bem-aventurado Olier, é um sudário que nos traz sepultados, e exprime ao bispo o estado de morte e de sepultura em que pela obediência o clérigo se apresenta diante de seu prelado. Eu digo a santa batina, porque sendo a Igreja um mundo novo, um mundo de santidade, na qual fomos chamados a representar Deus e Jesus Cristo, Seu Filho, nada pode aí haver que não seja santo. A santa batina diz que o clérigo morreu para o século e dele há de se separar pelo coração como está separado pelo hábito. A santa batina cobre todo o seu corpo para testemunhar que toda a carne está morta em Jesus Cristo. São Paulo diz que todo cristão deve estar cercado em todo o seu corpo da morte de Jesus Cristo: "Semper mortificationem Jesu in corpore nostro circumferentes" (2 Cor., IV, 10).
   É o que simboliza a santa batina cobrindo todo o corpo do clérigo como um hábito de morte, que só deixa ver a cabeça, os pés e as mãos. A cabeça para nos dizer a nós padres, que somos: "Viri caput Christus"; mãos livres, para as boas obras, para a luta pelo reino de Deus; dos pés para a evangelização; " Bem-aventurados os pés daqueles que evangelizam"... Quanta lição no simbolismo da santa batina!!!
  
Exortação do Santo Padre João Paulo II (hoje santo) ao Clero de Bolonha, no dia 19 de abril de 1979.
   Não é cedendo às sugestões de uma fácil laicização que se exprima, ou no abandono do hábito eclesiástico, ou na assimilação dos costumes mundanos, ou na adoção de um ofício profano, não é assim que se aproxima eficazmente do homem de hoje. Tal assimilação poderia talvez, à primeira vista, dar a impressão de vantagem nos contatos imediatos mas que vantagem haveria se ela devesse ser paga com a perda da específica função evangelizadora e santificadora que faz do sacerdote "Sal da terra" e "Luz do mundo"? O risco que o sal se torne insípido e que a luz se apague, é claramente previsto por Jesus no Evangelho. A que serviria um sacerdote assim "assimilado" ao mundo que se torne diminuído e não seja mais o fermento transformador"?
   Exortação do Papa João XXIII, santo: " Convém saber usar por toda a parte e com grande dignidade o traje eclesiástico, nobre e distinto: imagem da túnica de Cristo, sinal resplandecente da veste interior da graça".
    Gosto imensamente do testemunho de convertidos, almas profundamente trabalhadas pelo Divino Espírito Santo: Em primeiro lugar uma poesia escrita por um protestante convertido:
   Aquela simples batina
   Que o Sacerdote trazia
   Aos meus olhos de menino
   Lindas coisas traduzia.
               
          Era o emissário divino,
          Tinha  que ser diferente,
           Fosse grande ou pequenino,
           A consolar sempre a gente.

                    Hoje me vai adiante
                    Um moço todo frajola
                    Será "aquele estudante",
                    Ou o padre que vem da escola?

                             Meu padre, estou muito triste...
                             Poderei chamá-lo assim?
                             Será que em ti ainda existe,
                             O pai de todos enfim...?!

                                       Se do pastor protestante
                                       Tu fizeste à imitação,
                                       Deve ter sido um instante
                                       De uma grande tentação.

                                                   Pode o pastor protestante
                                                   Ser um grande pregador. 
                                                   Tu, porém, vais adiante:
                                                    És um Ministro do Senhor!

                                                               Se um ministério do mundo
                                                               Ao protocolo obedece, 
                                                               Ministério tão profundo
                                                               Ser distinguido carece!
  
   Agora o testemunho também de uma convertida, não em versos mas não menos  valioso. É da caríssima Juliana Fragetti Ribeiro Lima já de todos muito conhecida e estimada pelo seu blog "Diligit anima mea". Eis apenas um trecho de seu post "Até um cético vê": "Acreditem, padres, não há coisa mais linda que ver um sacerdote que ama e tem orgulho - no bom sentido desta palavra - do chamado que Deus lhe fez. Que não se envergonha de ser sacerdote, ao contrário. Isso é um colírio numa sociedade secularizada. O padre nos lembra do sagrado, nos lembra de rezar, nos lembra de Deus. Se estivermos afastados, irá nos tocar a consciência: volta a Deus. Se estivermos bem, iremos procurar com mais desejo que nunca a santidade, seremos lembrados que temos muito que caminhar nessa senda da santidade ainda. É lindo andar no centro de uma metrópole como Rio de Janeiro, São Paulo etc e ver um sacerdote de batina. Faz você parar e pensar: dediquei tempo hoje para Deus? Saímos dessa inércia que muitas vezes nos toma."

   A batina também é uma defesa para o padre e para o próximo. Hoje nem tanto, mas nas décadas de 70 e 80 nós padres que conservamos a santa batina, sofremos muito. Comigo mesmo se deram algumas passagens tristes ou melhor divertidas. Uma vez, em plena rua, umas pessoas me chamaram de urubu.  Mas continuei andando e pensando com os botões de minha santa batina: não é que elas têm razão?! Quem tira a podridão e o mau cheiro dos pecados e vícios do mundo? Não é o pobre sacerdote?! Com uma grande diferença: os sacerdotes ressuscitam os mortos espirituais, uns, como a filha de Jairo , logo após a morte; outros, como o jovem filho da viúva de Naim, já sendo levados à sepultura; e outros, como Lázaro, já cheirando mal na sepultura dos vícios e pecados. E também os padres devem por muito tempo ficar pairando nas alturas dos ares puros do silêncio, da oração e da contemplação, bem perto de Deus, para que não se deixem contaminar pelos miasmas do mundo. Outro exemplo:  Umas moças ficaram rindo e dizendo: quem será que morreu? Eu respondi: "Quem morreu foi eu mesmo.. Morri para o mundo, e talvez haja uma outra defunta: a fé de vocês". Mas isto mostra como a batina mexe nas consciências, como bem explicou a Filotéia. "O mundo vos odeia", disse Jesus. São  Paulo diz: "Aqueles que querem viver piedosamente com Jesus Cristo, hão de sofrer perseguições". Afinal muitos acham que os padres de batina são tristes. Não é verdade: somos felizes por sofrer por amor a Jesus as ofensas dos maus e também felizes por ter o apoio e alento dos bons. Como diz São Paulo: "Parecemos tristes, mas sempre alegres..."
Vale a pena terminar com mais uma poesia, esta de autoria de Dom Aquino Correia:

     A MINHA BATINA
Minha pobre batina mal cerzida,                                    
Tu vales mais que todos os amores,                               
Pois, negra embora, enches-me de flores                   
E de esperanças imortais a vida.

Com seus sorrisos escarnecedores,                                 
Zomba o mundo de ti, de ti duvida,                                  
Porque não sabe a força, que na lida,                               
Tu me dás, do teu beijo aos resplendores.

Tu serenas de orgulho as brutas vagas,
E a mostrar-me do mundo a triste sina,
Toda volúpia das paixões apagas.

Oh! como o bravo envolto na bandeira,
Contigo hei de morrer, minha batina,
Ó minha heroica e santa companheira.




quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

 DE PERSEGUIDOR A APÓSTOLO

                                                                                                                            Dom Fernando Arêas Rifan*

Celebraremos amanhã a conversão do grande apóstolo São Paulo, uma das colunas da Igreja ao lado de São Pedro. São Paulo foi o apóstolo dos gentios, dos povos não judeus, instrumento da propagação da Igreja fora da Judéia; o verdadeiro propagador do cristianismo.
           O primeiro livro de História da Igreja, os Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, discípulo de São Paulo e testemunha dos fatos, narra-nos que Saulo - esse era o seu nome antes - era um fariseu fanático, cheio de ódio pelos discípulos de Cristo. Ele, quando jovem, já havia participado, como coadjuvante, do apedrejamento de Santo Estevão, diácono. Quando ia pelo caminho de Damasco, capital da Síria, com ordens dos Sumos Sacerdotes, para prender os cristãos da cidade, foi violentamente derrubado do cavalo por uma luz misteriosa, que o cegou, da qual saia uma voz tonitruante que o invectivava: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” E ao perguntar quem era aquele a quem ele perseguia, a voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”. Jesus atribuía a si a perseguição feita aos seus discípulos, os cristãos.
           A partir daí, Saulo foi instruído na Fé cristã e batizado. Tornou-se o grande Apóstolo Paulo, escolhido por Deus para evangelizar os gentios, os povos não judaicos. É o autor de 14 epístolas endereçadas às primeiras comunidades cristãs, mas de valor e ensinamento perenes.
            Foi martirizado em Roma, na perseguição de Nero. Sua grande basílica é a homenagem cristã àquele que, com São Pedro, é uma das colunas da Igreja Romana.
Jesus tinha escolhido 12 apóstolos para evangelizarem o mundo. Mas eles eram pessoas simples. Deus tudo pode, mas usa dos meios humanos mais apropriados, conforme ele quer e capacita. Para espalhar sua doutrina no mundo greco-romano pagão, ele quis escolher alguém, perito em diversas línguas, douto na doutrina judaica, cidadão romano, conhecedor do mundo grego e homem de decisão e forte personalidade. E o escolheu entre os seus piores inimigos: os fariseus. E esse fariseu fanático tornou-se, pela graça de Deus, o grande São Paulo.
            A admirável conversão de São Paulo é a mostra do que pode a Graça de Deus. E essa Graça tem operado maravilhosas conversões no decurso dos séculos. Temos, entre tantos, os exemplos de Agostinho, gênio intelectual que, de gnóstico e herege, tornou-se o grande Santo Agostinho, doutor da Igreja, convertido pela força das lágrimas de sua mãe e pela convincente pregação de Santo Ambrósio; de Francisco de Assis que, de mundano tornou-se o grande santo da pobreza; de Santo Inácio de Loyola, convertido ao ler a vida dos santos, num leito de hospital; de Dr. Aléxis Carrel, prêmio Nobel de medicina, ao examinar um milagre de Lourdes.
            Conversão é a saída do pecado para a Graça de Deus. É mudança de mentalidade e de vida. Para melhor. É por isso que todos nós precisamos nos converter. Todos os dias.
            “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento” (Francisco, Evangelii gaudium, 1).
                                                                                      *Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney
                                                                                                             http://domfernandorifan.blogspot.com.br/