quinta-feira, 23 de novembro de 2017

NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO ( I )

                
    Hodiernamente temos que falar e escrever sobre doutrina cientes de estarmos numa crise dentro da Igreja. Olvidá-lo seria correr o risco de açoitar o ar. Nem muito menos podemos nos esquecer de que a Igreja é divina.
   Pois bem! Em época de crise há sempre muitos perigos e quase sempre o perigo "dos extremos". A História da Igreja no-lo ensina. Caminhamos como sobre uma ponte estreita sem corrimão, num real perigo de cairmos tanto para um lado como para o outro. A prudência manda que em tal conjuntura, caminhemos no meio e com pé firme. Não quero com isto, de modo algum, dizer que se deva ficar sobre o muro. Não, absolutamente não!
   Quais são estes dois extremos que devemos evitar a todo custo? O Progressismo e o Sedevacantismo. E por incrível que pareça, há um caminho comum que leva a ambos: uma idéia errônea da Infalibilidade Pontifícia. Uma infalibilidade que não é a que foi definida pelo Concílio Vaticano I e por Pio IX. E só esta é que vale. Excogitar outra ou outras no intuito de querer salvar opiniões próprias, não é válido e nem legítimo.
   Há aqueles teólogos que parecem pretender corrigir um Concílio Ecumênico Dogmático. Querem ampliar os contornos definidos pelo Concílio Vaticano I. Excogitam distinções que não encontramos nas Atas deste Concílio nem nos teólogos tradicionais que as comentam. Não confiando na minha memória, consultei os  cinco Manuais de Teologia Dogmática que possuo: além de  outros manuais menores em que estudei desde o Seminário Menor.
   Há um axioma que diz: "Contra fatos não há argumentos". Assim,  há  fatos inegáveis de leis eclesiásticas que deram azo, espaço e mesmo motivo para abusos prejudiciais à almas.  Por exemplo, a reforma litúrgica post-conciliar estabeleceu a Comunhão na mão (à escolha do comungante); a existência de ministros e ministras extraordinários da Eucaristia. Já mostramos em post anterior que a comunhão na mão favorece as profanações e consequentemente prejudica a fé dos fiéis. Os ministros e ministras da Eucaristia que dão comunhão aos doentes, e ás vezes, durante muito tempo, sem o padre atender as confissões. Já imaginaram quantos sacrilégios isto pode causar?!  Quanto a Missa quero citar o então cardeal Ratzinger, hoje Bispo Emérito de Roma: "Se bem que haja numerosos motivos que possam ter levado um grande número de fiéis a encontrar refúgio na liturgia tradicional, o mais importante dentre estes motivos é que eles aí encontram preservada a dignidade do sagrado". (sublinhados nossos). No meu bestunto entendo assim: Os fiéis tradicionalistas têm motivo para fugir da Liturgia nova porque esta não oferece segurança para se conservar a dignidade do sagrado, principalmente na Santa Missa, pois ela é o que a Igreja tem de mais sagrado. Ratzinger, quando ainda cardeal, disse que era necessário fazer uma "reforma da reforma". Para quem quer entender é bem claro. Mas ele renunciou, e creio que só no dia do Juízo Final saberemos o real "porque". 
   Diante de fatos inegáveis de leis eclesiásticas que dão azo, espaço e mesmo motivos para abusos prejudiciais às almas, alguns concluem que o Papa não é papa. Caem no Sedevacantismo. Isto porque não admitem, que fora do campo da Infalibilidade um papa  possa prejudicar as almas com leis ambíguas.
   Outros, pelo mesmo motivo, ou seja, o papa não pode errar nunca em se tratando de leis eclesiásticas porque, além da infalibilidade positiva, existe uma outra chamada "negativa", aliás mais abrangente do que a própria infalibilidade absoluta e positiva. Então, temos que aceitar tudo de olhos fechados. E muitos caem no Progressismo. Existe sim a infalibilidade "passiva", ou seja, os fiéis, devidamente instruídos pelo Magistério Vivo, Perene e Infalível, também não erram, seguindo fielmente estes ensinamentos. 
   Como eu disse no início, estamos em tempo de crise na Igreja. Em tempos normais não seriam necessárias estas advertências.
   Mas o próprio Código das leis eclesiásticas, isto é, o Código de Direito Canônico, cânon 212 § 3 assim reza: "Os fiéis, segundo a ciência , a competência e a proeminência de que desfrutam, têm o direito e mesmo por vezes o dever, de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja, e de exporem aos restantes fiéis, salva a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas."
  Aqui, reconhece-se o direito à liberdade de expressão e de opinião pública dentro da Igreja acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja. Não há esta liberdade quando se trata de dogmas. Fora do campo da Infalibilidade há este direito, mas deve ser exercido com toda reverência devida aos Pastores.
   Caríssimos e amados leitores, é obvio que não podemos aceitar aquela teoria dos Galicanos segundo a qual a Infalibilidade é dada à Sé Romana e não a pessoa do Papa, de tal modo que, se um papa errar em questão de fé e moral, a Providência Divina daria um dia a um outro papa a visão infalível para corrigir o que o antecessor houvesse ensinado de errado contra a fé e/ou a moral.
   Porém, nos casos em que não entra a Infalibilidade, podemos sim dizer que a Providência Divina não deixará de enviar um papa que corrija o que estiver de alguma maneira prejudicando as almas. Assim entendemos as crises que sofre a Igreja, como eclipses que passam.
   Caríssimos e amados fiéis, nos casos em que não entra a Infalibilidade, a Igreja pode, inclusive mudar de rumo. Eis um exemplo: O Papa Pio VI em 1794 condenou os jansenistas do Sínodo de Pistóia que negavam a existência do Limbo das crianças: "É falsa, temerária e injuriosa às escolas católicas a doutrina que rejeita, como se fosse fábula pelagiana, o lugar inferior (pelos fiéis geralmente chamado limbo das crianças), onde as almas dos que morrem apenas com o pecado original são punidas pela pena do detrimento sem algum tormento do fogo".
  A Santa Igreja nos seus catecismos ensinava sempre a existência do Limbo das crianças. Mas nunca definiu como dogma. Por isso Pio VI qualifica a opinião dos jansenistas como "falsa", "temerária" e "injuriosa". Se se tratasse de dogma o papa teria dito que a proposição que nega o Limbo seria "herética", e teria lançado o anátema contra seus defensores. Aqui se trata de uma conclusão teológica e que entra na alçada das leis eclesiásticas, por causa do batismo das crianças.
   Pois bem! Hoje a linguagem do Catecismo da Igreja Católica é bem diferente. Diz no nº 1261:"Quanto às crianças mortas sem o Batismo, a Igreja só pode confiá-las à misericórdia de Deus(...) A ternura de Jesus para as crianças, que o levou a dizer: Deixai as crianças virem  mim, não as impeçais" (Mc 10,14), nos permitem esperar que haja um caminho de salvação para as crianças mortas sem Batismo".
  Há pouco tempo alguns teólogos quiseram passar na frente do Papa e foram concluindo que agora a Igreja não aceitava mais a existência do Limbo das crianças. Logo o Santo Padre o Papa Bento XVI esclareceu que a Igreja ainda não definiu nada a respeito. Mister se faz ainda muito estudo, disse ele. E muita gente já ia concluindo que não mais era necessário se preocupar com o Batismo das crianças.
   O mesmo Papa Pio VI condenou os mesmos jansenistas de Pistóia mas agora sobre questão de leis disciplinares, (que diga-se de passagem, também ainda não foi definido como dogma) diz Pio VI: "Como se a Igreja que é governada pelo Espírito de Deus, pudesse estabelecer uma disciplina não somente inútil e mais onerosa do que a liberdade cristã pode tolerar, mas que seria ainda perigosa, nociva, própria a induzir à superstição ou ao materialismo: proposição que ele condenou como "falsa, temerária, escandalosa, perniciosa, ofensiva aos ouvidos pios, injuriosa, pelo menos errônea" (Conf. Denzinger 1578).
   D. Antônio de Castro Mayer quando estava à frente da Diocese de Campos, escreveu ao Santo Padre o Papa Paulo VI dando todos os argumentos e mostrando as falhas e ambigüidades da Missa Nova, falhas e ambigüidades estas que a tornavam prejudicial à almas. Pois bem! Se fosse algo dogmático, o Santo Padre Paulo VI teria que exigir uma retratação e caso não fosse feita, teria excomungado a D. Antônio de Castro Mayer. Mas a Santa Sé não o fez, não respondeu aos argumentos apresentados. D. Mayer continuou na Diocese de Campos.
   Pelo que eu sei, posso até estar enganado, a Santa Sé não censurou aqueles que criticam a lei eclesiástica da Comunhão na mão. Aliás o que sabemos é que o Santo Padre (então Bento XVI) com muita prudência vinha agindo no sentido de voltar ao costume tradicional que desperta a piedade e a fé e não dá espaço à profanações. Até hoje creio que Mons. Gherardini não tenha sido censurado pelas críticas feitas ao Concílio Vaticano II etc. etc.
    Um outro exemplo muito esclarecedor: Santo Tomás de Aquino disse na Suma Teológica que as palavras da Consagração, por sua própria natureza, devem ser ditas em voz baixa. O Concílio de Trento anatematizou os que condenam o rito que manda dizer em voz baixa as palavras da Consagração (Ses. 22,cânon 9; cf. Denzinger-Sch. 1759). Pois bem!  O Novo "Ordo" da Missa afirma justamente o contrário, ou seja, que as palavras da Consagração, por sua própria natureza (grifo nosso), devem ser ditas em voz clara e audível (Rubrica nº 91). Devemos observar em primeiro lugar que pela Filosofia aprende-se que, quando se diz "por sua própria natureza" a coisa vale para sempre e em toda parte. O que é exigido pela própria natureza de uma coisa, é independente de tempo e espaço. E não só isto. Logo perguntamos como pode a Igreja ser sempre infalível nas suas leis se hoje adota o que ontem anatematizou. E recebemos interiormente a resposta: está provado que aí não entrou infalibilidade, mas, sendo Divina, a Igreja um dia voltará inteiramente ao rito que nunca foi abrogado e nunca poderá sê-lo. Esta nova liturgia é apenas uma eclipse que passa. 
   Mas tudo que Nosso Senhor permite é para daí se tirar algum bem. Qual bem? Um amor sempre maior a Santa Missa de Sempre. A Igreja se empenhar mais em fazer o que mandou o Santo Concílio de Trento: "Conservando o rito aprovado em toda parte de cada uma das igrejas e da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas, e para que as ovelhas de Cristo não sintam fome e não suceda que os pequeninos peçam pão e não haja quem lho reparta (Lam. de Jeremias 4, 4), manda o santo Concílio aos pastores e a cada um dos que têm cura de almas, que durante a celebração da Missa expliquem freqüentes vezes por si ou por outros algo sobre o que se lê na Missa, e falem sobre algum mistério deste santíssimo sacrifício, principalmente nos domingos e festas". 

RESUMO
   Observações: 1ª -  Infalibilidade significa segurança de não haver erro nem imprudência. Isto dentro das condições definidas pela Igreja no Concílio Vaticano I.
                           2ª -  A Igreja nunca definiu que fora destas condições ela não possa errar. Normalmente não erra. Mas, sobretudo em tempo de crise, podem acontecer erros  e imprudências. E nestes casos a bússola é a Sagrada Tradição.
                            3ª - Nenhum teólogo tem direito de acrescentar, diminuir ou modificar o que foi definido pela Santa Madre Igreja.
                             4ª - Nas coisas que a Igreja ainda não definiu há lugar para os teólogos discutirem estas questões abertas, mas não podem impor sua opinião. A Igreja é a única que pode dar a palavra final. Fá-lo quando define, e aí toda língua se cale. "Roma locuta, causa finita".
                              5ª - Seguindo estas normas não há perigo de se cair nem para um lado nem para o outro: NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO. Este será o título do próximo post, se Deus quiser.

sábado, 18 de novembro de 2017

O JUÍZO UNIVERSAL SEGUNDO S. AFONSO DE LIGÓRIO


(RESUMO)
"Cognoscetur Dominus judicia faciens"
Conhecido será o Senhor, que faz justiça (Salmo IX, 17).

O Redentor destinou o dia do Juízo Universal (chamado com razão, na Escritura, o dia do Senhor), no qual Jesus Cristo se fará reconhecer por todos como universal e soberano Senhor de todas as coisas (Sl  9, 17). Esse dia não se chama dia de misericórdia e perdão, mas "dia da ira, da tribulação e da angústia, dia de miséria e calamidade" (Sofonias I, 15). Nele o Senhor se ressarcirá justamente da honra e da glória que os pecadores quiseram arrebatar-Lhe neste mundo. Vejamos como há de suceder o juízo nesse grande dia.

A vinda do divino Juiz será precedida de maravilhoso fogo do céu (Salmo 96, 3), que abrasará a terra e tudo quanto nela exista (2 S. Pedro III, 10). Palácios, templos, cidades, povos e reinos, tudo se reduzirá a um montão de cinzas. É mister purificar pelo fogo esta grande casa, contaminada de pecados. Tal é o fim que terão todas as riquezas, pompas e delícias da terra. Mortos os homens, soará a trombeta e todos ressuscitarão (1 Cor. XV, 52). Dizia S. Jerônimo: "Quando considero o dia do juízo, estremeço. Parece-me ouvir a terrível trombeta que chama: Levantai-vos, mortos, e vinde ao juízo". Ao clamor pavoroso dessa voz descerão do céu as almas gloriosas dos bem-aventurados para se unirem a seus corpos, com que serviram a Deus neste mundo. As almas infelizes dos condenados sairão do inferno e se unirão a seus corpos malditos, que foram instrumentos para ofender a Deus.

Que diferença haverá então entre os corpos dos justos e dos condenados! Os justos aparecerão formosos, cândidos, mais resplandecentes que o sol (S. Mateus XIII, 43). Feliz aquele que nesta vida soube mortificar sua carne, recusando-lhe os prazeres proibidos, ou que, para melhor refreá-la, como fizeram os Santos, a macerou e lhe negou também os gozos permitidos dos sentidos! ... Pelo contrário, os corpos dos réprobos serão disformes,  e hediondos. Que suplício então para o condenado ter de unir-se a seu corpo! ... "Corpo maldito  -  dirá a alma   -  foi para te contentar que me perdi!" Responder-lhe-á o corpo: "E tu, alma maldita, tu que estavas dotada da razão, por que me concedeste aqueles deleites, que, por toda a eternidade, fizeram a tua e a minha desgraça?"

Assim que os mortos ressuscitarem, farão os anjos que se reúnam todos no vale de Josafá para serem julgados (Joel III, 14) e separarão ali os justos dos réprobos (S. Mat. XIII, 49). Os justos ficarão à direita; os condenados, à esquerda... Que confusão experimentarão os ímpios, quando, apartados dos justos, se sentirem abandonados! Disse S. João Crisóstomo que, se os condenados não tivessem de sofrer outras penas, essa confusão bastaria para dar-lhes os tormentos do inferno. Caríssimo irmão, abandona  o caminho que conduz à esquerda.

Os eleitos serão colocados à direita, e para maior glória   -  segundo afirma o Apóstolo  -  serão elevados aos ares, acima das nuvens, e esperarão com os anjos a Jesus Cristo, que deve descer do céu (1 Tess IV, 17). Os réprobos, à esquerda, como reses destinadas ao matadouro, aguardarão o Supremo Juiz, que há de tornar pública a condenação de todos os seus inimigos.

Abrem-se, enfim, os céus e aparecem os anjos para assistir ao juízo, trazendo os sinais da Paixão de Cristo, disse Santo Tomás. Singularmente resplandecerá a santa Cruz. "E então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu; e todos os povos da terra chorarão" (S. Mat. XXIV, 30). Os Apóstolos serão assessores e com Jesus Cristo julgarão os povos. Aparecerá, enfim, o Eterno Juiz em luminoso trono de majestade: "E verão o Filho do Homem, que virão nas nuvens do céu, com grande poder e majestade. À sua presença chorarão os povos" (S. Mat. XXIV, 30). A presença de Cristo trará aos eleitos inefável consolo, e aos réprobos aflições maiores que as do próprio inferno, disse S. Jerônimo. Cumprir-se-á, então, a profecia de S. João: "Os condenados pedirão às montanhas que caiam sobre eles e os ocultem à vista do Juiz irritado" (Apoc. VI, 16).

Começará o julgamento, abrindo-se os autos do processo, isto é, as consciências de todos (Dan. VII, 10). A própria consciência dos homens os acusará depois (Rom. II, 15). A seguir, darão testemunho clamando vingança, os lugares em que os pecadores ofenderam a Deus (Hab. II, 11). Virá enfim, o testemunho do próprio Juiz que esteve presente a quantas ofensas lhe fizeram (Jer. XXIX, 23). Disse S. Paulo que naquele momento o Senhor "porá às claras o que se acha escondido nas trevas" (1 Cor. IV, 5). Os pecados dos eleitos, no sentir do Mestre das Sentenças e de outros teólogos, não serão manifestados, mas ficarão encobertos, segundo estas palavras de Davi: "Bem- aventurados aqueles, cujas iniquidades foram perdoadas, e cujos pecados são apagados" (Salmo 31, 1). Pelo contrário   -  disse S. Basílio  -  as culpas dos réprobos serão vistas por todos, ao primeiro relancear d'olhos, como se estivessem representadas num quadro. Exclama S. Tomás: "Se no horto de Getsêmani, ao dizer Jesus: Sou eu, caíram por terra todos os soldados que vinham para o prender, que sucederá quando, sentado no seu trono de Juiz, disser aos condenados: "Aqui estou, sou aquele a quem tanto haveis desprezado!".

Chegada a hora da  sentença, Jesus Cristo dirá aos eleitos estas palavras, cheias de doçura: "Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo" (S. Mat. XXV, 34). Que consolação não sentirão aqueles que ouvirem estas palavras do soberano Juiz: "Vinde, filhos benditos, vinde a meu reino. Já não há mais a sofrer, nem a temer. Comigo estais e permanecereis eternamente. Abençoo as lágrimas que sobre os vossos pecados derramastes. Entrai na glória, onde juntos permaneceremos por toda a eternidade". A virgem Santíssima  abençoará também os seus devotos e os convidará a entrar com ela no céu. E assim, os justos, entoando gozosos Aleluias, entrarão na glória celestial, para possuírem, louvarem e amarem eternamente a Deus.

Os réprobos, ao contrário, dirão a Jesus Cristo: "E nós, desgraçados, que será feito de nós?" E o Juiz Eterno dir-lhes-á: Já que desprezastes e recusastes minha graça , apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (S. Mat. XXV, 34). Apartai-vos de mim, que nunca mais vos quero ver nem ouvir. Ide, ide, malditos, que desprezastes minha bênção..." Mas para onde, Senhor, irão estes desgraçados?... Ao fogo do inferno, para arder ali em corpo e alma..." E por quantos séculos?... Por toda a eternidade, enquanto Deus for Deus.

Depois desta sentença, abrir-se-á na terra um imenso abismo e nele cairão conjuntamente demônios e réprobos. Verão como atrás deles se fechará aquela porta que nunca mais se há de abrir... Nunca mais durante toda a eternidade!... Ó maldito pecado!... A que triste fim levarás um dia tantas pobres almas!... Ai! das almas infelizes às quais aguarda tão deplorável fim.


Meu Deus e meu Salvador! Já que declarastes pela boca do vosso Profeta: "Convertei-vos a mim, e eu me voltarei a vós" (Zac. I, 3), tudo abandono, renuncio a todos os gozos e bens do mundo, e converto-me, abraçando a Vós, meu amantíssimo Redentor. Recebei-me no vosso Coração e inflamai-me no vosso santo amor, de modo que jamais cogite em separar-me de Vós... Maria Santíssima, minha esperança, meu refúgio e minha mãe, ajudai-me e alcançai-me a santa perseverança. Amém!

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

1º DIA DOS POBRES

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*
           
No próximo domingo, dia 19, por instituição do Papa Francisco, se celebrará o primeiro Dia Mundial dos Pobres, com o lema “Não amemos com palavras, mas com obras”, extraído, da frase da 1ª Carta de São João: “Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade” (1 Jo 3, 18). E o Papa Francisco explica: “Estas palavras do apóstolo João exprimem um imperativo de que nenhum cristão pode prescindir. A importância do mandamento de Jesus, transmitido pelo ‘discípulo amado’ até aos nossos dias, aparece ainda mais acentuada ao contrapor as palavras vazias, que frequentemente se encontram na nossa boca, às obras concretas, as únicas capazes de medir verdadeiramente o que valemos”.
 “Possuímos um grande testemunho já nas primeiras páginas dos Atos dos Apóstolos, quando Pedro pede para se escolher sete homens ‘cheios do Espírito e de sabedoria’ (6, 3), que assumam o serviço de assistência aos pobres. Este é, sem dúvida, um dos primeiros sinais com que a comunidade cristã se apresentou no palco do mundo: o serviço aos mais pobres. Tudo isto foi possível, por ela ter compreendido que a vida dos discípulos de Jesus se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais, que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados herdeiros do Reino dos céus”.
“... ‘De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta’ (Tg 2,14-17)”.
“Nestes dois mil anos, quantas páginas de história foram escritas por cristãos que, com toda a simplicidade e humildade, serviram os seus irmãos mais pobres, animados por uma generosa fantasia da caridade!... Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia”.
“Não esqueçamos que, para os discípulos de Cristo, a pobreza é, antes de mais, uma vocação a seguir Jesus pobre. Pobreza significa um coração humilde, que sabe acolher a sua condição de criatura limitada e pecadora, vencendo a tentação de omnipotência que cria em nós a ilusão de ser imortal...”.
“Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste. O convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade”.
“Senhor, dai pão a quem tem fome/ e fome de justiça a quem tem pão!

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

A INFALIBILIDADE - ( V )

O SUJEITO DA INFALIBILIDADE
   Sujeito da Infalibilidade significa aqueles a quem Nosso Senhor Jesus Cristo confiou o poder de ensinar, e prometeu a Infalibilidade. São dois: a) O Papa. b) Os bispos em comunhão com o Papa.
   Vamos explicar ambos; mas antes vamos falar sobre o Magistério Eclesiástico. Na verdade, Nosso Senhor Jesus Cristo deu a Sua Igreja três poderes: 1º - de governar; 2º - de ensinar; 3º - de santificar.
   Em primeiro lugar, vamos ver mais detalhadamente em que consiste o poder de ensinar. Em outras palavras, vamos tratar do Magistério da Igreja, isto é, MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO.

MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO

   A Teologia Tradicional formula a seguinte tese: "O Magistério autêntico e vivo, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, é infalível ao transmitir a doutrina revelada".

   Explicação das palavras: Magistério autêntico: isto é, aquele que é concedido e firmado por um poder legítimo. Portanto, para que alguém ensine autenticamente é preciso uma delegação legítima para ensinar.
   Devemos observar que o simples magistério autêntico eclesiástico não é necessariamente um magistério infalível. Por exemplo: cada bispo tomado isoladamente e mesmo os bispos reunidos num concílio e até mesmo o Romano Pontífice, podem ensinar autenticamente, sem que a doutrina seja proposta infalivelmente; porque para isso (isto é, propor de maneira infalivel) requer-se pelo menos a intenção de ensinar alguma doutrina como infalível. Além desta intenção são requeridas ainda outras condições, como veremos depois.
   Vamos aqui, mais uma vez, explicar melhor o que é infalibilidade.
   DEFINIÇÃO DE INFALIBILIDADE: Infalibilidade é uma prerrogativa sobrenatural, que a Igreja docente (isto é, que ensina) goza em virtude de uma assistência divina, pela qual ela não pode errar (nem de fato nem de direito) ao propor uma doutrina revelada. Em duas palavras: é imunidade de erro. Não pode errar.
   Por que dissemos que a infalibilidade é uma prerrogativa sobrenatural? Porque o homem por sua natureza é falível, portanto, precisa de uma graça especial para não errar quando ensina.
Por que dissemos na definição: da Igreja docente? Porque aqui se trata da infalibilidade ativa. Pois, existe a infalibilidade  passiva, isto é, a infalibilidade da Igreja discente, isto é, infalibilidade daqueles que aprendem. A infalibilidade da Igreja docente é chamada ativa porque deve influenciar nos fiéis.
   A infalibilidade da Igreja discente é chamada passiva porque recebe a doutrina infalível da Igreja docente. Em outras palavras: a adesão por parte dos fiéis à doutrina proposta pela Igreja docente de modo infalível, faz com que a Igreja discente que aceita, se torne infalível. Depois vamos, se Deus quiser, explicar isto melhor, ao falarmos do "Sensus Fidei". Pelo que acabamos de expor, observemos de passagem, que não é vício capital de orgulho, conservar com firmeza, as verdades que a Santa Madre Igreja sempre nos propôs como infalíveis; mas, pelo contrário, é a virtude da fé, pela graça de Deus.
   Por que dissemos na definição: em virtude de uma assistência divina? Porque a assistência divina é causa eficiente. Portanto, a infalibilidade não vem nem da ciência, nem da santidade do sujeito, nem do talento natural.
   Por que dissemos na definição: ao propor uma doutrina revelada? Porque o objetos em torno do qual o Magistério autêntico da Igreja se diz infalível, são a doutrina revelada e todas aquelas que são necessariamente conexas com as verdades reveladas. Por exemplo: A imortalidade da alma é uma verdade revelada, é um dogma, e portanto, objeto direto da infalibilidade. A espiritualidade da alma é uma verdade necessariamente conexa com a imortalidade da alma, e portanto, é indiretamente, objeto da infalibilidade.
   Para terminar a explicação dos termos da definição de infalibilidade, quero lembrar mais uma vez que infalibilidade não significa que o sujeito (o papa e/ou os bispos em comunhão como o papa) seja onisciente, isto é, saiba todas as coisas; ou seja impecável, isto é, que não peca nunca. Só Deus é onisciente e não comunicou a onisciência a ninguém; e entre as criaturas humanas, só Nossa Senhora foi impecável.
  Ainda falta explicar por que na Tese sobre o Magistério Eclesiástico se diz Magistério VIVO?
   Antes de responder, devemos saber que os modernistas atualmente dizem Magistério Vivo num sentido ambíguo. Isto aconteceu sobretudo depois do Concílio Vaticano II. Para os modernistas o dogma deve evoluir segundo os tempos e as circunstâncias; e a Igreja deve estar sempre procurando se adaptar as novidades que o Povo de Deus vivencia, criando-as pelo sentimento religioso que vem do coração. As palavras: evolução, novidades, progresso, vivência, são capitais para os modernistas. Em outras palavras: o Magistério da Igreja é vivo, segundo os modernistas, porque tem que acompanhar o progresso do mundo. Os modernistas dizem que a Igreja é infalível, enquanto aprova as opiniões comuns do Povo de Deus. Portanto, invertem os papéis.
   Observação: Depois, ao tratarmos do Concílio Vaticano II, vamos explicar que o "aggiornamento" desejado por João XXIII, naquele concílio, era no sentido tradicional. Inclusive o Papa João XXIII, hoje Santo, que convocou o Concílio Vaticano II, havia incumbido alguns cardeais de confiança como o Cardeal Ottaviani, de preparar os esquemas do Concílio. Por exemplo, foi feito um esquema sobre a Igreja e lá fala do Magistério da Igreja. É o capítulo VII, "De Ecclesiae Magisterio", da 2ª parte do esquema "De Ecclesia", proposto pela Comissão de Teologia preparatória para o Concílio.O Cardeal Ottaviani era o presidente desta Comissão Teológica. Na confecção deste esquema sobre a Igreja trabalharam 31 membros, mais 36 consultores pertencentes a 15 nações, a maioria professores de universidade ou que ensinavam em grandes instituições eclesiásticas do mundo inteiro. Cada um deles estava credenciado por várias publicações de grande valor, algumas das quais eram utilizadas como manuais nos seminários e universidades. E levaram em conta até o lado pastoral do Concílio. Acontece que os modernistas queriam outra coisa, como veremos mais tarde, se Deus quiser.
   Vê-se claramente que o Papa João XXIII pretendia fazer como fizera o beato Pio IX no Concílio Vaticano I. Só que no Concilio Vaticano I não foram mudados os esquemas preparatórios por outros; e no Vaticano II, infelizmente foram mudados. Neste ponto o Papa João XXIII não teve a mesma força que teve o Papa Pio IX.  Vejam o que fizeram no Vaticano II: Dos 11 capítulos do esquema "De Ecclesia", ficaram só 4 e mesmo assim inteiramente mudados. O Capítulo VII sobre o Magistério foi simplesmente morto antes de nascer. Neste Capítulo VII não há nada de ambíguo: está inteiramente correto à luz da Tradição. E são grandes teólogos tradicionais que o afirmam. Lá diz: "Magistério Perene e Vivo". D. Antônio de Castro Mayer nos dizia que o seu grande amigo, o cardeal Ottaviani ficou triste e revoltado com esta troca dos esquemas e isto feito na última hora). Costumo dizer que os Modernistas trabalham muito mas onde não se deve: são como as formigas. O Cardeal Ottaviani, que era o Presidente da Comissão Teológica Preparatória, alertou várias vezes que havia muitas ambiguidades naqueles novos esquemas. E uma delas é o "subsistit in". Hoje já foi dado o sentido correto (embora até grandes teólogos tenham dificuldade em entender o emprego desta expressão) mas não foi retirada a expressão que deu azo ou espaço a tantos erros. Na minha opinião foi uma ponte para o ecumenismo, a ideia central de todo o Concílio Vaticano II.
   No próximo post, veremos o que escreveu D. Antônio de Castro Mayer sobre o Magistério Perene e Vivo.
  

 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA ( IV )

   EXPLICAÇÕES DA TEOLOGIA SOBRE INFALIBILIDADE
   Que vem a ser propriamente INFALIBILIDADE?
   Com relação à Igreja, infalibilidade é não poder a Igreja alterar a doutrina do Seu Divino Mestre, nem poder enganar-se sobre o verdadeiro sentido do que o mesmo Divino Mestre lhe ensinou, ordenou ou proibiu.
   É verdade que só Deus é infalível por natureza; mas pode Ele muito bem, por uma providência especial, conceder este privilégio a outro e proteger ou defender do erro aos que em Seu nome estão encarregados de ensinar, de tal forma que nunca neste ensino se apartem da verdade. E foi o que Deus realmente fez, dando ao seu magistério o dote da infalibilidade.
   A infalibilidade não provém de uma inspiração propriamente dita (como é o caso da Bíblia); nem vem de uma nova revelação, mas sim da uma ASSISTÊNCIA ESPECIAL concedida ou ao episcopado em união com o Papa, ou só ao Supremo Pastor para bem compreenderem e exporem a doutrina revelada por Jesus Cristo e os Apóstolos e que está contida nas Sagradas Escrituras e na Tradição. Infalibilidade não é uma moção interna miraculosa. É simplesmente uma garantia que Deus, cuja providência governa a Igreja, se digna conceder-lhes para impedir que ensinem autenticamente uma doutrina que esteja maculada de erro. E esta prerrogativa, não só não inutiliza as investigações, as controvérsias e as diligências humanas, senão também que as supõe e as exige. Vou explicar melhor. É como se o Divino Mestre dissesse aos seus representantes: "Eu estarei convosco nas vossas diligências e empenho em precisar bem a verdade, de modo que nunca proclamareis decisão alguma, que não esteja de acordo com a verdade". E assim é que somente depois de empregar todos os meios indispensáveis para não proceder com temeridade e imprudência, somente depois de ter cuidadosamente explorado as duas fontes da Revelação: a Sagrada Escritura e a Tradição, é que a Igreja (os bispos em união com o Papa) ou o Papa sozinho "ex cathedra" declara revelada uma verdade até então implicitamente encerrada no tesouro da Revelação.
   Também é preciso notar que infalibilidade é coisa inteiramente diversa da impecabilidade, que consiste em não poder alguém cometer pecado. Este privilégio foi concedido a Santíssima Virgem, mas não foi concedido aos papas. Houve papas, poucos aliás, que não foram lá modelos de virtude, infelizmente foram até viciosos. Mas devemos tomar muito cuidado neste ponto, porque há muita mentira histórica, ou seja, há muitas calúnias. O mais seguro é ler o que algum santo disse. Vamos dar apenas um exemplo. Ouçamos São João Bosco falando dos papas do século X: "O décimo século da Igreja foi assinalado por muitos deploráveis acontecimentos devidos à prepotência exercida em Roma pelo conde Adalberto e por suas filhas Marósia e Teodora. Estas duas ambiciosas mulheres introduziram no Pontificado, por meio da força, os de seu partido, sem consideração alguma a sua virtude e doutrina. Por isso, muitas vezes, fizeram-se eleições nas quais, homens de pouca ciência e de não muito bons costumes eram preferidos a outros que por doutrina e santidade eram os únicos que mereciam ser eleitos". E depois São João Bosco faz a seguinte observação: "Deve-se fazer sobressair a especial assistência que prestou Deus a Sua Igreja, posto que neste século, não houvesse heresia ou cisma, contra o qual fosse necessário convocar um Concílio Universal".
   Caríssimos e amados leitores, para que tenham uma ideia mais completa da situação, eis mais um exemplo (embora ainda no século IX). É o caso tristemente célebre do Papa Formoso que governou a Igreja de 891 a 896. O papa Estêvão VI (896-897) fez desenterrar o cadáver do papa Formoso, seu antecessor, julgou-o diante de um tribunal e depois mandou jogar o cadáver no rio Tibre. Pouco depois o próprio papa Estêvão VI foi preso e estrangulado no cárcere. É claro que em tudo isto não entra infalibilidade, mas pecados dos homens, dos quais nem os papas estão livres. Vocês já devem ter ouvido falar também do caso triste do papa Alexandre VI. Mas vamos antes meditar na palavras de São João Bosco citadas acima. Devemos só observar que em todo este século X não houve nenhum papa que até hoje fosse canonizado pela Igreja. Este triste século X foi chamado "o século de ferro".
   O Revmo. Pe. Álvaro Negromonte, célebre e erudito Diretor do Ensino Religioso na Arquidiocese do Rio de Janeiro anos antes do Concílio Vaticano II, dá a seguinte nota triste deste século X: "Morta Marósia (que, segundo São João Bosco, elegera à força papas indignos), seu filho Alberico elegeu sucessivamente, sob a influência de Santo Odon, monge de Cluny, quatro papas dignos; mas, por fim, fez eleger papa o seu próprio filho Otaviano que levou para o trono papal uma vida depravada. Mudou-se de nome, chamando-se João XII (955-964), mas não mudou de vida, sendo um dos mais indignos papas de toda a história. No entanto, continua o Padre Negromonte, nenhum papa indigno, procurou justificar seus pecados com erros doutrinários; todos guardaram intacta a pureza da Fé Católica; o que mostra como a Providência, que permite estas tormentas, vela pela Igreja. Isto deve ser frisado, porque constitui uma da mais extraordinárias vitórias da Igreja" (Cf. Hist. da Igreja, Pe. Álvaro Negromonte, p. 77 e 78, ed. de 1954. E confira também: "BREVE HISTÓRIA DOS PAPAS", livro vendido no Vaticano).

   NECESSIDADE DA INFALIBILIDADE: Um dogma fixo exige necessariamente uma infalibilidade para salvaguardá-lo. "Sem a promessa de uma assistência divina nenhum homem pode dizer a outro homem: tu hás de pensar e crer como eu. Onde não há um centro de unidade (como não há no Protestantismo) cada homem dá sua opinião, cada sábio levanta sua cátedra e funda a sua escola. E quando uma doutrina é prática (moral), quando os seus preceitos atingem a vida em todas as suas manifestações, refreiam a cobiça, mortificam a sensualidade, humilham o orgulho, é geral a oposição por causa dos interesses feridos.
   Nenhuma verdade se defende então por si só. É necessário montar-lhe ao lado uma sentinela vigilante e incorruptível que rechace assaltos, que lhe defenda a existência, a integridade, a eficácia iluminadora. Uma tocha exposta às rajadas dos ventos apaga-se; colocai-a no alto de uma torre, abrigai-a num invólucro de cristal; é farol... Divinamente assistida para repelir do tesouro da verdade qualquer mão sacrílega, ela mantém no seio da humanidade sempre aceso o farol da luz divina" (Padre Leonel Franca).
   Por isso, negar a infalibilidade, seria negar a própria Igreja. Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o Magistério da Igreja para continuar sua missão, para iniciar todos os homens de todos os tempos na doutrina revelada e conservar absolutamente íntegro e intacto, qual precioso tesouro, o "DEPÓSITO" da verdade revelada (Depositum Fidei). É evidente que esse Magistério seria ilusório se pudesse correr o risco de falhar e se os fiéis não tivessem a garantia de que é o próprio Jesus Cristo, o Mestre, quem, por este meio lhes propõe Sua doutrina. Em outras palavras: O Magistério da Igreja deve ser dotado das prerrogativas da Infalibilidade.
  Caríssimos e amados leitores, em alguns posts seguidos, falaremos, se Deus quiser, do MAGISTÉRIO DA IGREJA. Acompanhem! Obrigado!

  

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA - ( III )

B - O DOGMA DA INFALIBILIDADE DO PAPA

   Nº 1836 - Antes da definição do dogma, o Concílio Vaticano I diz: "...Os Pontífices Romanos, conforme lhes aconselhavam a condição dos tempos e as circunstâncias, ora convocando Concílios Ecumênicos, ora sondando a opinião de toda a Igreja, dispersa pelo mundo inteiro, ora por Sínodos particulares ou empregando outros meios, que a Divina Providência lhes proporcionava, têm definido como verdade de Fé tudo aquilo que, com o auxílio de Deus, reconheceram ser conforme com a Sagrada Escritura e as Tradições Apostólicas. Pois o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de São Pedro para que estes sob a revelação do mesmo (=Espírito Santo), pregassem uma nova doutrina, mas para que, com sua assistência conservassem santamente e expusessem fielmente o depósito da fé, ou seja a Revelação herdada dos Apóstolos. E esta doutrina dos Apóstolos abraçaram-na todos os veneráveis Santos Padres, veneraram-na e seguiram-na todos os santos doutores ortodoxos, firmemente convencidos de que esta cátedra de São Pedro, sempre permaneceu imune de todo erro, segundo a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo feita ao Príncipe dos Apóstolos: "Eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos" (São Lucas XXII, 32).

     1837-  "Foi, portanto, este dom da verdade e da fé, que nunca falece, concedido divinamente a Pedro e aos seus sucessores nesta cátedra, a fim de que cumprissem seu sublime encargo para a salvação de todos, para que assim todo o rebanho de Cristo, afastado por eles do venenoso engodo do erro, fosse nutrido com o pábulo da doutrina celeste, para que assim, removida toda ocasião de cisma, e apoiada no seu fundamento, se conservasse unida a Igreja Universal, firme e inexpugnável contra as portas do inferno.

   Nº  1838 -  "Mas, como nestes nossos tempos, em que mais do que nunca se precisa da salutífera eficácia do ministério apostólico, muitos há que combatem esta autoridade, julgamos absolutamente necessário afirmar solenemente esta prerrogativa que o Filho Unigênito de Deus dignou-se ajuntar ao supremo ofício pastoral.

  Nº  1839  - (Segue-se a definição dogmática da infalibilidade do papa):  "Por isso Nós, apegando-nos à Tradição recebida desde o início da fé cristã, para a glória de Deus, Nosso Salvador, para exaltação da Religião Católica, e para a salvação dos povos cristãos, com a aprovação do Sagrado Concílio, ensinamos e definimos como dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice, quando fala "Ex Cathedra", isto é, quando, no desempenho do ministério de pastor e doutor de todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica alguma doutrina referente à fé e à moral, para toda a Igreja, em virtude da assistência prometida a ele na pessoa de São Pedro, goza daquela infalibilidade com a qual o Divino Redentor quis munir a Sua Igreja quando define alguma doutrina sobre a fé e a moral; e que portanto, tais declarações do Romano Pontífice, são por si mesmas e não apenas em virtude do consenso da Igreja, irreformáveis".

   Nº 1840  - "Se, porém, alguém ousar contrariar esta nossa definição, o que Deus não permita, seja excomungado".

A INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA ( II )

HISTÓRIA DO CONCÍLIO VATICANO I   (continuação)

     Já vimos que Pio IX começou a preparar o concílio há quatro anos antes, constituindo para isso uma comissão de cardeais de sua maior confiança. Por prudência foi tudo feito em segredo. Mas quando foi revelada a intenção do papa em convocar um Concílio Ecumênico e sobretudo quando ficou-se sabendo que neste concílio deveria ser definido solenemente o dogma da Infalibilidade do Sumo Pontífice, então começaram já as disputas. (Era a fase do demônio). Muita divisão! Mas Pio IX não desistiu e disse que confiava na proteção de Maria Santíssima. Apareceram três grupos: 1º - OS ANTI-INFALIBILISTAS, cujo chefe foi o padre Döllinger, sábio historiador da Igreja, teólogo e professor de História da Igreja. Infelizmente não se converteu, morreu herege e fundou a seita dos "Velhos Católicos".
   2º grupo: OS ANTI-OPORTUNISTAS: Admitiam a Infalibilidade do papa (a verdade) mas achavam que não era oportuno na época, defini-la como dogma. O chefe foi o bispo de Orléans Mons. Dupanloup e também Montalembert. Todos os anti-infalibilistas e os anti-oportunistas apresentavam como objeção os casos dos papas Libério e Honório I, sobretudo este último.
   3º grupo: OS INFALIBILISTAS: os que eram do lado do papa. Os chefes foram vários, mas vamos citar apenas alguns. Entre os bispos: D. Dechamps, bispo de Malinas; o cardeal Manning de Westminster. Entre os leigos sobressai o grande Louis Veuillot, que, como já dissemos, era um homem de fé viva e firme, de um amor ardente a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Santa Madre Igreja. Seu jornal chamava-se: "L'Universe", nele Veuillot combateu o célebre bispo de Orléans Mons. Dupanloup que era liberal e escrevia no jornal "Le Français". Louis Veuillot combateu também um dos chefes do "Catolicismo Liberal", o conde e Montalembert (+ 1870). Este escrevia no jornal "L'Avenir" juntamente com Lamennais (Este era padre, apostatou-se e morreu sem se retratar). Como defendia a "Liberdade Religiosa" e não se retratou, foi excomungado pelo Papa Gregório XVI. Um dos seus livros: "Ensaio sobre a indiferença em matéria de Religião". Vejam uma das suas frases: "Todos os amigos da Religião precisam compreender que ela necessita somente de uma coisa: da liberdade". 
   O bispo D. Dupanloup, uma vez definido o dogma da infalibilidade do papa, aceitou-o plenamente. Montalembert morreu antes da definição do dogma, mas deixou preparado um escrito em que declarava morrer como filho obediente de Igreja, admitindo desde já todas as suas definições. 

REALIZAÇÃO DO CONCÍLIO VATICANO I

   Deveriam os bispos reunirem-se na Basílica de São Pedro do Vaticano e por isso chamou-se Primeiro Concílio do Vaticano ou Concílio Vaticano I. Inaugurou-se no dia 08 de dezembro de 1869 - Festa da Imaculada Conceição - achando-se presentes cerca de 770 pessoas entre bispos (como Santo Antônio Maria Claret), cardeais, abades (como D. Guerénger), gerais de Ordens Religiosas e insignes teólogos. Mais de três quartos dos que tinham direito a votos na Igreja. Neste Concílio só houve quatro sessões. O Concílio tinha 52 assuntos para serem tratados, mas não foi possível porque o papa foi obrigado a suspendê-lo por causa da guerra chamada franco-prussiana. E Roma também foi invadida. Portanto, este Concílio ficou inacabado. 
   NOTA: Acho necessário explicar alguns termos técnicos: "PADRES" do Concilio: Este termo é colocado entre aspas para significar os bispos, cardeais e outros que têm voz deliberativa, isto é, aqueles que podem votar. "PERITOS" do Concílio: são os teólogos que dão assistência aos "Padres". "OBSERVADORES"do Concilio: são os que não têm direito a voto e nem o direito de dar assistência aos "Padres". São geralmente autoridades católicas ( ou não, isto é, podem ser hereges: protestantes e ortodoxos cismáticos). Mas o termo "Observadores" também é técnico, ou seja, podem também falar apresentando suas sugestões. No Concílio Vaticano I, como vimos, não compareceram. Já no Concílio Vaticano II, não só compareceram, mas fizeram suas sugestões, como a História o comprova. Aliás, foram convidados justamente para falarem, já que a meta primordial do Concílio Vaticano II foi o diálogo ecumênico. Os Encontros de Assis são um prolongamento. (Fim da NOTA).
   A história da definição do dogma da Infalibilidade Pontifícia.
   Um esquema já retocado, foi apresentado a reunião ferial dos "Padres" do Concílio no dia 13 de julho de 1870. Dos 601 "Padres" votaram "SIM" (em latim= PLACET) 451; votaram "NÃO" (em latim ="NON PLACET) 88; e votaram "SIM" mas com correções (em latim= "PLACET JUXTA MODUM") 62 "Padres".
   Assim ficou preparado o decreto para a sessão pública solene, que seria no domingo seguinte; mas estourou a guerra franco-prussiana e os "Padres" anteciparam a sessão solene para o dia 18 de julho. Dos que se opunham, chefiados pelo bispo D. Dupanloup, 55 preferiram se retirar, do que votar "não" diante do papa. Como havia permissão para sair do Concílio por causa da guerra, aproveitaram e saíram.
   Então no dia 18 de julho de 1870 à 9 horas começou a sessão. No momento em que os "Padres" estavam dando os votos, estalou uma terrível tempestade, com trovões e relâmpagos, que durou duas horas e meia. Assistiam a sessão 535 "Padres". Só dois votaram "não" ou "non placet". Mas depois estes dois aceitaram docilmente.
   Ao sancionar Pio IX com sua suprema autoridade a constituição apostólica, contam que, passada a tempestade, um raio de sol penetrou pelas janelas e iluminou o rosto de Pio IX. No dia seguinte, por causa da guerra, o papa suspendeu o Concílio. O raio de sol penetrando na Basílica de São Pedro foi simbólico. Depois de tantas tempestades, de discussões apaixonadas, brilhou o sol da verdade e todos foram se acalmando. A definição tal como foi proclamada, dissipou muitas trevas, deu a chave da explicação de muitos fatos históricos (como dos papas Libério e Honório I) e houve por todas as partes o aplauso dos bispos e dos fiéis. Os que achavam que não era oportuna a definição do dogma da Infalibilidade - como D. Dupanloup, mais 54 bispos que saíram antes - se apressaram a escrever ao papa dando total adesão ao dogma e reconheceram que sua definição foi mais que oportuna, porque definindo os limites da Infalibilidade, resolveram-se as objeções sobretudo no caso do papa Honório I.
   Como já dissemos, o único caso triste foi do do Padre Döllinger ( que nem quis participar do Concílio) que não aceitou o dogma da Infalibilidade e portanto caiu na heresia e terminou fundando uma seita que se chamou "Os Velhos Católicos". Infelizmente este padre apóstata, herege e cismático morreu excomungado.

domingo, 12 de novembro de 2017

A INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA ( I )

  Faremos, se Deus quiser, uma série de artigos sobre a INFALIBILDADE PONTIFÍCIA.  Em primeiro lugar daremos um resumo da História e Doutrina do Concílio Vaticano I.

A - A HISTÓRIA DO CONCÍLIO VATICANO I

   Ano 1869 - 1870 inacabado. É o vigésimo Concílio Ecumênico da Igreja. Concílio Ecumênico é a reunião de todos, ou de uma grande parte dos Bispos da Igreja Católica, aos quais convoca e preside pessoalmente ou por delegação, o mesmo Sumo Pontífice. Ecumênico aqui quer dizer: de toda a Igreja.
   Quem convocou este Concílio foi o Papa Pio IX, hoje beato. (1846-1878). Chamava-se João Maria Mastai Ferretti. Foi um homem totalmente extraordinário. Não só foi extraordinária a duração de seu pontificado - trinta e um anos - mas também as consequências que este teve para a História da Igreja. Nunca houve um papa que fora tão querido dos católicos do mundo inteiro e tão respeitado pelos não católicos. É o papa da época de São João Bosco. Morreu dez anos antes de São João Bosco. E eis o que diz dele este grande santo: "Pela firmeza de sua fé, por sua caridade, por sua benevolência, por seus conselhos e por sua mansidão, tinha-se tornado a delícia do mundo inteiro e dos corações. Os próprios não católicos o consideravam qual amigo, pai, irmão e benfeitor... "Prova disto, continua São João Bosco, "a 6 de julho de 1871 completava-se o 25º aniversário de seu pontificado. Comoveu-se o mundo e todas as partes se prepararam de mil e diferentes modos para atestar ao Pontífice sua alegria e sua veneração... Deste a mais humilde aldeia até a mais ilustre cidade, os próprios protestantes, hereges e o Grão Sultão, todos compartilharam daquele grande dia. Os transportes de alegria dos católicos pela ocorrência do 25º ano de seu pontificado renovaram-se ao festejarem o 50º ano da celebração de sua primeira missa. O do seu jubileu episcopal, porém, excedeu a todos os demais acontecimentos da História Eclesiástica, e a tudo o que é possível legar à posteridade. Basta dizer que no ano de 1877, fiéis cristãos de toda idade e condições, partiam das mais longínquas regiões da terra para irem venerar ao chefe da Igreja e levar a seus pés quanto possuíam de mais precioso em trabalho da arte, em ouro, em prata ou em trabalhos científicos" (Hist. Ecl. de S. João Bosco). Foi um papa sobretudo missionário. "As Missões estrangeiras, diz São João Bosco, formaram um dos maiores objetos de seu paternal zelo".
   Pio IX foi ainda o papa que condenou os erros do Naturalismo e do Liberalismo com a Encíclica Dogmática "Quanta Cura" e o célebre "Syllabus" que, segundo vários abalizados teólogos, também é um documento dogmático. Foi Pio IX que definiu o dogma da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus. É o papa, como já foi dito, que convocou e presidiu o Concílio Vaticano I e nele definiu o dogma da Infalibilidade Pontifícia. Depois destes parênteses para falarmos um pouco sobre o papa Pio IX, vamos agora fazer um resumo da história do Concílio Vaticano I.
   A História deste Concílio está intimamente ligada com a história do século XIX e de seus erros. Na Constituição "DEI FILIUS" deste Concílio Vaticano I, caíram feridos de morte os erros do Racionalismo e do Ateísmo. Na Contituição "PASTOR AETERNUS" ficaram sepultadas as idéias galicanas. (Depois vamos ver o que significa GALICANISMO).

OS ANTECEDENTES DO CONCÍLIO VATICANO I

   Quatro anos antes do Concílio (em 1865) o papa Pio IX já nomeara cinco comissões de cardeais de sua maior confiança para preparar o Concílio. Enviou a trinta e cinco cardeais dos mais conspícuos e sábios da Igreja latina seu desejo de que expusessem sua opinião sobre os temas que no Concílio se haviam de ventilar e pediu que enviassem suas respostas às comissões dos cardeais. Fez o mesmo com os bispos do rito oriental. E, por prudência, os trabalhos foram feitos em segredo.
   Pio IX, aproveitando da estima que gozava até junto aos não católicos (hereges = os protestantes e os ortodoxos cismáticos) com espírito missionário e não por falso ecumenismo, convidou-os para estarem presentes no Concílio. Declarou que seria um tempo de graças e de bênçãos para eles. Tanto os protestantes como os ortodoxos cismáticos não aceitam a Infalibilidade Pontifícia. Por isso eu disse "não por falso ecumenismo," porque o próprio Pio IX  em julho de 1871 vai dizer aos Peregrinos de Nevers "... sem dúvida, deve-se praticar a caridade, fazer o possível para atrair os extraviados; entretanto, não é necessário por causa disto compartilhar com suas opiniões".
   Quando, se Deus quiser, escrevermos sobre o Concílio Vaticano II, veremos, também baseados nas palavras do papa (no caso Paulo VI), que foi bem diferente o espírito com que foram convidados os protestantes para estarem no Concílio Vaticano II e na Comissão para elaboração do "Novus Ordo Missae".
   Diz o célebre historiador eclesiástico Llorca: "O convite do papa Pio IX aos protestantes e ortodoxos cismáticos caiu no vazio", isto é, ninguém aceitou, ninguém compareceu. Se soubessem (como aconteceu no Concílio Vaticano II e na Comissão do Novus Ordo Missae) que lá ouviriam e leriam coisas ambíquas que poderiam interpretar a seu favor, certamente teriam ido, e depois teriam aceito uma foto ao lado de Pio IX, com sorrisos de satisfação e teriam elogiado os trabalhos do Concilio e de sua Comissão talvez mais do que o fizeram os próprios católicos. É preciso que todos saibam que foram os próprios protestantes que iniciaram o movimento ecumênico no começo do século passado.
   Bom! Depois de mais estes parênteses, continuemos. Diz Llorca que certo dia, um dos familiares de Pio IX se queixava das dificuldades contra a celebração do Concílio. O Papa tranqüilo respondeu: "Todos os concílios passam por três fases: a do diabo, a dos homens e a de Deus; agora estamos na fase do diabo; não são de se estranhar as dificuldades". Efetivamente a fase do demônio no furor dos inimigos da Igreja antes do concílio e mesmo durante o concílio; a fase dos homens nas disputas demasiado acres dos teólogos e "Padres" no Concílio e fora dele. A fase de Deus resplandece em suas definições dogmáticas e na aceitação pacífica delas".
   Como já dissemos anteriormente, o Concílio Vaticano I condenou os erros do Racionalismo, do ateìsmo e as idéias galicanas. Na ordem política, Pio IX sofreu a perseguição brutal de um tal Bismark na Alemanha e um tal Cavour na Itália. Pio IX foi perseguido pelas armas por Garibaldi que invadiu os Estados Pontifícios, e o Santo Padre teve que fugir para Gaeta.
   Na ordem social: o Socialismo de Luis Blanc e o Anarquismo de Proudhon (este dizia: "A propriedade é um roubo").
   Na ordem intelectual religiosa, um homem fizera muito mal às almas: um tal de Renan que escreveu a "Vida de Jesus". (1863). Este homem, padre apóstata, foi o símbolo do racionalismo ímpio. Na época de Pio IX ( que nascera em 1792 e morreu em 1878; governou a Igreja de 1846 a 1878), os católicos estavam divididos em dois grupos: os ultramontanos que condenavam todas as tendências modernas da sociedade; e os católicos liberais (como Montalembert) que pretendiam acomodar-se às exigências modernas. E o Papa Pio IX com a Encíclica "Quanta Cura" e o "Syllabus" deu razão aos ultramontanos. Entre os ultramontanos se destacou um leigo de grande firmeza na fé e um jornalista vigoroso: chamava-se Louis Veuillot ( pronuncia-se Luí Veiô).
   Sobre a situação religiosa da época diz São João Bosco: "As doutrinas errôneas destes últimos tempos, os chamados filósofos modernos, as diferentes formas de sociedades secretas, a maçonaria, o socialismo, os livres-pensadores, os espiritistas e outras seitas semelhantes se apoderaram de tal sorte do coração e da mente dos homens que o romano Pontífice Pio IX julgou necessária a convocação de um Concílio Ecumênico.

sábado, 11 de novembro de 2017

O PAPA S. LEÃO II ANATEMATIZA O PAPA HONÓRIO I

 Honório I foi um papa legitimamente eleito em 625 e que governou a Santa Igreja até sua morte que se deu no ano de 638. Portanto governou a Igreja durante 13 anos.Na lista dos papas legítimos da Igreja, Honório I ocupa o 70º lugar. Dizem os historiadores que ele foi um ótimo administrador. Reconstruiu o Aqueduto de Trajano e o teto da Basílica de São Pedro construída por Constantino. Transformou muitos ambientes pagãos em igrejas cristãs. O essencial, porém, é que um papa seja um muro de bronze contra as heresias. Mas, infelizmente, não o foi.
   Baseada nas Sagradas Escrituras e na Tradição a Teologia Católica sempre ensinou que em Jesus Cristo há uma só pessoa (a Pessoa Divina do Filho de Deus); mas são duas naturezas, a divina e a humana, que tem cada uma sua vontade e sua operação; de sorte que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, isto é, a vontade e a operação divina, a vontade e a operação humana.
   A heresia que ensinava haver em Jesus Cristo uma só vontade e uma só operação, chamava-se Monotelismo. E os seus principais chefes foram dois Bispos e Patriarcas: Sérgio e Pirro. É bom saber que Patriarca era a maior autoridade no Oriente. O Bispo Sérgio era Patriarca de Constantinopla; e o Bispo Pirro era Patriarca de Alexandria. Diz São João Bosco que estes dois hereges empregaram toda sorte de meios para arrastar o Papa Honório I a seu erro. E também o Imperador que, na época, era Constante, favorecia os hereges. Para este fim o Bispo Patriarca Sérgio escreveu uma carta mui subtilmente insidiosa ao Papa Honório I. Nesta carta o Bispo Patriarca Sérgio dizia que, em vista da efervescência de opiniões, seria coisa muito prudente para se evitar tais discussões e escândalos, proibir que se afirmasse haver em Jesus Cristo uma só vontade e operação ou duas, e que se impusesse silêncio a respeito. E o Papa Honório I não tendo advertido o laço que lhe havia armado o Bispo e Patriarca Sérgio, aprovou como prudente o silêncio aconselhado por este herege. O Papa Honório I em duas cartas dirigidas ao Bispo Sérgio (Cf. D. 251 e 252) além de expor a doutrina de maneira ambígua (sobre as duas vontades em Jesus Cristo) cai também na cilada do Bispo e Patriarca Sérgio. Eis, em resumo, o que escreveu o Papa Honório I nestas cartas ao Bispo e Patriarca de Constantinopla: 1º - a ambigüidade: Ele afirma que em Jesus Cristo há uma só vontade. A primeira vista e não lendo todo o contexto, e, sobretudo, escrevendo para o Bispo Sérgio que erradamente dizia haver uma só vontade em Jesus Cristo, esta afirmação de Honório I parecia herética. Mas, na verdade, ele queria apenas dizer uma vontade moral, e não física; em outras palavras, ele queria dizer que em Jesus Cristo não podia haver duas vontades contrárias, como acontece conosco pecadores, em que pela concupiscência encontram-se em nós a vontade do espírito e a vontade da carne. Então todos os teólogos dizem que no contexto a doutrina era ortodoxa, mas dado o contexto histórico, ou seja, naquelas circunstâncias, o Papa Honório I deu ocasião para ser mal interpretado, ou melhor dizendo, ele deu azo para ser malevolamente interpretado pelos hereges monotelitas.
   Além desta falha, ou seja a ambigüidade, que é sempre um mal, mas que se torna mais desastrosa na época de heresia, Honório I teve uma outra falha não menos perniciosa: foi negligente e consequentemente imprudente, fazendo não o que os teólogos ortodoxos, como São Máximo monge e São Sofrônio bispo, ensinaram segundo a Tradição e as Sagradas Escrituras, mas deu ouvidos com facilidade, para não dizer com displicência, aos Bispos e Patriarcas hereges Sérgio e Pirro.
   Eis algumas de suas palavras: "Não nos devemos preocupar em dizer ou entender que em Jesus Cristo, por causa das obras da divindade e da humanidade, seja uma ou duas operações. Deixamos estas coisas para os gramáticos discutirem... Nós, porém, não percebemos pelas Sagradas Escrituras, se (em Jesus Cristo) é uma ou se são duas operações, mas vemos que Ele opera de muitas maneiras."... "Portanto, para evitar o escândalo de uma nova invenção, não nos interessa pregar definindo se é uma ou se são duas operações". E depois o Papa Honório I diz que se pode falar em duas naturezas, mas não se deveria empregar a expressão "duas operações". Em latim está assim: "ablato geminae operationis vocabulo".
   Agora vejamos a atitude de São Máximo, o Confessor. Na verdade, não foi só ele que não obedeceu ao Papa Honório I, mas, entre muitos outros podemos citar ainda: São Sofrônio que era Bispo e dois discípulos de São Máximo ambos chamados Anastácio. Um era núncio do Papa, e o outro era monge. Mas vamos falar só de São Máximo, o Confessor. D. Antônio de Castro Mayer na sua carta pastoral "Aggiornamento e Tradição" diz: "Entre os que continuaram a ensinar as duas vontades em Jesus Cristo está o grande São Máximo, chamado o Confessor porque selou com o martírio sua fidelidade à doutrina católica tradicional".
   São Máximo se tornou um dos homens mais sábios do século VII. Sua capacidade era tanto mais notável quanto a cobria uma grande humildade.
   Embora em consciência viu claramente que não podia obedecer ao Papa Honório I, no entanto, nunca lhe faltou o respeito, e na medida do possível, procurou até defender o Papa Honório I. Por exemplo, numa carta a um padre chamado Marino, São Máximo faz ver que os Santos Padres da Igreja reconhecem em Jesus Cristo duas vontades e diz: "Eu estou mesmo persuadido de que o Papa Honório, falando em sua carta a Sérgio de uma vontade, não negou as duas vontades naturais, mas ao contrário, as estabelece. Pois ele somente negou a vontade carnal e viciosa. A razão que dá prova-o, isto é, que a divindade tomou nossa natureza e não nosso pecado".
   São Máximo, apesar da proibição do Papa Honório I, teve uma disputa pública com o Bispo Pirro, Patriarca de Alexandria, e companheiro de heresia do Bispo e Patriarca Sérgio. Pois bem! São Máximo conseguiu refutar o Bispo Pirro e este terminou abjurando a heresia do monotelismo. Mas, talvez influenciado pelas fraquezas que teve o papa Honório I, infelizmente recaiu na heresia.
   Como acontecera com o Arianismo, favorecido pelo Papa Libério (embora isto seja nebuloso) e pelos imperadores, e, por outro lado, combatido por mais de quarenta anos seguidos por Santo Atanásio, o Monotelismo foi favorecido pelo Papa Honório I e também pelos imperadores.
   Quase 1200 anos mais tarde, se discutia no Concílio Vaticano I, a proclamação do dogma da Infalibilidade papal, e os adversários da definição, puseram sobre o tapete a chamada questão de Honório I, e se procedeu a um estudo de todas as fontes documentais e se rechaçou a objeção como infundada.
   1º - A defesa de Honório I, feita pelo próprio São Máximo, como já vimos.
   2º- A defesa feita por alguns papas. Por exemplo: o Papa João IV (640-642) dá, das palavras de seu antecessor o papa Honório I, a mesma explicação dada por São Máximo, que referimos acima.
   3º - A maior objeção contra Honório I, foi o III Concílio de Constantinopla, que foi o VI Concílio Ecumênico na Igreaja (680). Neste Concílio os bispos (que eram em número de 160) condenaram os monotelitas como hereges e entre eles o papa Honório I. Mas é preciso lembrar uma verdade básica sobre um Concílio Ecumênico. E é o seguinte: Os bispos num Concílio Ecumênico são infalíveis em questão de fé e moral. Mas não podemos esquecer que para tanto é absolutamente necessária a confirmação do Papa. Do contrário não é infalível. Pois bem! O que aconteceu neste Concílio de Constantinopla III? Todos os bispos condenaram o Papa Honório como herege. Mas o Papa São Leão II, não aprovou esta condenação de Honório I como herege. É certo que aprovou a condenação dos monotelitas como hereges. Mas quanto ao Papa Honório I, aprovou a sua condenação, ou seja, o lançamento do anátema, não por ter sido herege, mas por ter favorecido a heresia por sua ambiguidade, negligência e omissão. Eis então a condenação do Papa Honório I feita pelo Papa São Leão II: "Anatematizamos também Honório (Papa) que não ilustrou esta Igreja Apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas permitiu, por sua traição sacrílega, que fosse maculada a fé imaculada (...) "e não extinguiu, como convinha à sua autoridade apostólica, a chama incipiente da heresia, mas a estimulou por sua negligência". ( Denz-Sch. 563 e 561). 
   O Papa Adriano II diz que Honório I foi condenado pelos bispos orientais como herético. Sabemos que os bispos reunidos no 3º Concílio de Constantinopla realmente incluíram o papa Honório I na condenação dos monotelitas como hereges. Mas, como acabamos de ver, a decisão de um Concílio mesmo Ecumênico, depende da aprovação do Papa. E São Leão II aprovou o anátema contra os monotelitas por serem heréticos, mas, quanto ao papa Honório I, lançou um anátema em separado, ou seja, como favorecedor de heresia por ambiguidade, negligência e omissão. E, em um papa, estas faltas são realmente merecedoras de anátema.
   Vamos resumir aqui as falhas do Papa Honório I:
   1º - O Papa Honório I foi ambíguo em expor a verdade. E isto é objetivamente muito grave da parte de um papa. E se torna mais grave ainda se a ambiguidade é sobre uma verdade pregada pela Tradição da Santa Igreja e que está sendo negada pelos hereges como foi o caso. E vejam bem, caríssimos leitores. Apesar de alguns papas sucessores de Honório I terem procurado dar a interpretação ortodoxa da exposição ambígua de Honório I, no entanto, a heresia continuou, alimentada sempre pela fraqueza de Honório I. A ambiguidade é como algo inflamável. Mas, se uma tubulação de gaz está com algum vazamento, é claro que as pessoas de bem evitarão qualquer faísca; mas, não faltará um terrorista para lançar de propósito a faísca.  Então, não é suficiente, colocar um aviso alertando para o perigo. Chama-se imediatamente o Corpo de Bombeiros para eliminar o vazamento. Na verdade, o papa Honório I fora ambíguo. Não resolveu o problema o fato de alguns papas sucessores de Honório alertarem para não se lançar nenhuma faísca herética. Mas a ambiguidade continuava. Consequentemente também o perigo. Então, que fez o Papa Leão II. Eliminou a causa, eliminou a mal pela raiz. Condenou o Papa Honório I pela sua ambiguidade e negligência. E, assim, a heresia do Monotelismo só acabou mesmo depois que São Leão condenou expressamente e de maneira enérgica, as falhas de Honório I. E, para sermos mais preciso, a heresia ainda sobreviveu alguns poucos anos após a condenação de Honório  feita pelo Papa São Leão II; mais ou menos como uma roda de uma máquina que, mesmo depois de desligada da energia elétrica, ainda trabalha mais um pouco pelo impulso anteriormente recebido. É bom, caríssimos leitores, para se avaliar melhor o mal que Honório I causou à Igreja, saber que a heresia do Monotelismo durou mais de 40 anos. O papa Honório I morreu no ano de 638 e o Papa São Leão II condenou-o no ano 680.
   2º- Além da ambiguidade, a segunda falha do Papa Honório I foi a imprudência.
   Se o pastor e guia, não vigia, ai do rebanho!!! Os hereges, sobretudo os saídos da própria hierarquia da Igreja (e a maioria o é) são astutos, são lobos com peles de ovelha. Então, o guia supremo da Igreja, o Papa, deve estar muito atento para não cair nas ciladas dos seus inimigos. Aliás, não é precisamente isto que a Santa Madre Igreja nos ensina a rezar?! ..."et non tradat eum in animam inimicorum ejus"? (Oração pelo Sumo Pontífice na bênção do SS. Sacramento). E pedimos a Deus na Ladainha de Todos os Santos: "Para que Vos digneis conservar em santa Religião o Sumo Pontífice". 
   Como diz São Leão II, a atitude de Honório I foi uma "traição sacrílega", porque, como papa, ele tinha obrigação de vigiar e, notando que a fumaça, ou melhor, a chama de Satanás estava começando, ele, como autoridade apostólica e suprema, tinha o grave dever de extingui-la inteira e imediatamente; e, não só não o fez, mas alimentou esta mesma chama com a ambiguidade e negligência e, sobretudo tendo a fraqueza de impor silêncio aos santos e doutos homens da Igreja, São Máximo e São Sofrônio que defendiam a verdade contra os bispos e patriarcas hereges. Ainda bem que estes homens, hoje canonizados pela Igreja, não obedeceram ao Papa Honório I. Não faltaram o respeito ao Papa Honório I, que favorecia a heresia; nem tão pouco caíram no SEDEVACANTISMO.
   Para terminar,vejamos as lições que nos dá São Máximo, o Confessor: Quando um papa, por sua negligência e/ou imprudência, favorece a heresia, em consciência diante de Deus, não podemos obedecer; não podemos segui-lo. Aí, devemos obedecer antes a Deus que aos homens. O Papa Honório I proibiu que se falasse em duas operações em Jesus Cristo. São Máximo não obedeceu e continuou pregando a verdade da Tradição. Talvez, na época, o monge Máximo fosse considerado desobediente e rebelde. Mas hoje sabemos que um papa e aliás, um papa santo, ou seja São Leão II condenou o Papa Honório I como Traidor da Tradição; e o monge Máximo foi canonizado pela Igreja e recebeu o epíteto de "o Confessor". De fato desobedeceu ao Papa, para confessar a Tradição.
   O que o Papa Honório I fez moralmente contra São Máximo, fê-lo também fisicamente o Imperador que era monotelita. Este também proibiu São Máximo de continuar pregando que em Cristo há duas operações e duas vontades. Como São Máximo não obedeceu, o imperador mandou o carrasco lançá-lo na prisão, açoitá-lo e finalmente mandou cortar-lhe a língua e a mão direita.
   São Máximo é venerado na Igreja como mártir e "o Confessor" no dia 13 de agosto.
   Caríssimos e amados leitores, invoquemos a São Máximo que nos obtenha junto a Nosso Senhor Jesus Cristo as luzes e a força necessárias para defendermos a Santa Madre Igreja contra as ciladas dos modernistas, contra a fumaça de Satanás, contra a autodemolição desta amada "Esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo". Peçamos, outrossim, a Nosso Senhor Jesus Cristo que nos livre do Sedevacantismo; que nos livre de toda rebelião contra a autoridade em si. Que nos dê a firmeza para obedecermos antes a Deus que aos homens, quando as autoridades legítimas nos mandarem algo contra a Lei de Deus. Mas, mesmo nestes casos de resistência às autoridades, que Deus, Nosso Senhor, nos guarde de qualquer desrespeito, insulto à autoridade em si mesma. Amém!

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O ATO SOBRENATURALMENTE MERITÓRIO


ATO MERITÓRIO SOBRENATURALMENTE é aquele que move a Deus Nosso Senhor a conceder-nos um prêmio sobrenatural.

DIVISÃO: Há o ato meritório DE CONDIGNO, isto é, quando seu valor é de algum modo (suposta a promessa de Deus) igual ao prêmio, de maneira que este fosse como que devido por justiça ao homem. Há o ato meritório DE CONGRUO, isto é, quando não há essa proporção e igualdade, nem se deve, por conseguinte, o prêmio ao ato senão por certa liberalidade.

Devemos dizer já inicialmente que os atos morais, pelos quais possamos chegar ao fim sobrenatural da vida eterna, devem ser sobrenaturais, e isto em razão da sobrenaturalidade interna do próprio ato, pela qual é elevado acima da natureza no seu próprio ser e quanto à substância deve ser sobrenatural: pois o caminho deve ser proporcionado ao término, e a obra ao prêmio. Ora, o fim da vida eterna é estritamente sobrenatural e é diverso essencialmente do último fim natural; logo também os atos pelos quais tendemos para este fim, devem, quanto à sua essência, ser sobrenaturais.

Vejamos, então, quais as CONDIÇÕES requeridas para que os atos humanos verdadeiramente sejam sobrenaturais. Quanto a isto há certas divergências entre os teólogos. Limitar-me-ei a expor o que todos admitem: a) É necessário que o ato seja MORALMENTE BOM; pois, o ato humano de si moralmente indiferente, não pode ser sobrenatural. Realmente o ato sobrenatural tem Deus por autor principal que move e ajuda pela graça; Deus, porém, não excita pela sua graça para a realização de atos indiferentes. Donde uma outra condição: b) É necessário que o ato proceda de um PRINCÍPIO SOBRENATURAL, ou seja, da potência elevada pela graça atual. Para o ato ser sobrenatural não basta só as forças naturais, mas é mister que seja realizado pelas forças sobrenaturais da graça. c) Autores de grande autoridade, como Santo Afonso, Suarez, Lehmkuhl e Mazzella exigem também que o MOTIVO seja SOBRENATURAL, ou seja, que proceda da fé. Mas como? Há várias explicações, mas o teólogo Noldin diz que se pode afirmar que o ato humano do homem fiel é sobrenatural e não se exige outra condição senão que seja etnicamente bom (honesto) e proceda da graça, ou seja, dum princípio sobrenatural.  Portanto, não é necessário  que o objeto do ato sobrenatural seja sobrenatural. Assim o objeto pode ser natural, desde que seja movido pelas forças da graça de Deus. É obvio que não queremos negar que o ato feito por um motivo sobrenatural de fé, seja de maior dignidade e valor. Daí, devemos aconselhar os fiéis a que se acostumem a fazer suas ações por motivos sobrenaturais de fé. Vamos dar o exemplo da esmola, e por ele podemos fazer aplicação às outras obras em si boas etnicamente. Aprendemos nas aulas de catecismo que a esmola é uma obra santa e muito agradável a Deus, como Ele mesmo revelou. Suponhamos que um fiel, sem no momento pensar nisso (que foi revelado por Deus como uma obra agradável a Ele) deu uma esmola ao pobre, fez na verdade uma obra sobrenatural meritória, embora só virtualmente este ato tenha procedido de um ato de fé. No entanto, suponhamos que, ao dar a esmola, lembrado dos ensinamentos da fé, pensou que o pobre foi remido por Jesus Cristo, que o pobre é irmão de Cristo; que Cristo assim preceituou a esmola porque por ela se consegue mais facilmente a vida eterna, então, digo, esta esmola teve muito mais merecimento diante de Deus.  Mas, no primeiro caso, não podemos negar que a obra foi também sobrenatural.  Daí devemos concluir que A RETA INTENÇÃO ATUAL, embora não seja necessário, no entanto, ela torna o ato sobrenatural mais digno e mais meritório.

Especificamente, quais as condições para o mérito DE CONDIGNO e DE CONGRUO? 1º - CONDIÇÕES PARA MERECER DE CONDIGNO: a) Da parte de quem merece se requer que  esteja na Igreja militante (procurando o caminho do Céu), que obre livremente, que seja justo (esteja em graça santificante) e que mereça para si. Agora, da parte da obra, que seja boa moralmente e também sobrenatural, isto é, que o ato seja realizado com o auxílio da graça atual. Da parte de Deus, que haja promessa de tal prêmio vinculado a tal obra. 2º - CONDIÇÕES PARA MERECER DE CONGRUO, são as mesmas condições, excetuando o estado de graça em quem merece para si, e a promessa certa de Deus.

Nós padres devemos exortar os fiéis a que façam toda manhã o ato de oferecimento do dia como é preceituado para o Apostolado da Oração: "Ofereço-vos, ó meu Deus, em união com o Santíssimo Coração de Jesus, por meio do Coração Imaculado de Maria, etc., e que façam com frequência orações jaculatórias de amor a Deus para atualizar os motivos sobrenaturais.

O teólogo Noldin explica esta palavra do Divino Mestre: "Quem ouve a minha palavra e crê em quem me enviou, tem a vida eterna" (S. João V, 24) isto é, tem, donde possa realizar obras de vida eterna, porque tem a condição, posta a qual, são fornecidas por Deus as graças sobrenaturais. Daí, continua Noldin, segue-se que a todos os fiéis, sejam justos ou pecadores, sempre está presente a graça atual, pela qual suas ações moralmente boas, se tornam sobrenaturais; mas com maior certeza pode-se afirmar que todas as obras moralmente boas dos JUSTOS sempre são executadas com o auxílio da graça de Deus e portanto, são sobrenaturais. Pois o Concílio de Trento assim fala sobre isto: "Porquanto Jesus Cristo mesmo dá a sua força aos justificados como a cabeça aos membros e a vide aos ramos. Esta força sempre antecede às suas obras que foram feitas em Deus, poderem plenamente, segundo o estado de vida, satisfazer à lei divina e a seu tempo (morrendo em estado de graça) conseguir a vida eterna" (Sessão VI, cap. 16. n. 809).


Terminemos com a advertência que o Sacrossanto Concílio de Trento faz no final do capítulo 16, nº 810: "Não se deve, todavia, omitir o seguinte: Embora na Sagrada Escritura se atribua tão grande valor às boas obras, que Cristo prometeu: Quem oferecer um copo de água fresca a um destes pequeninos, em verdade não ficará sem a sua recompensa(Mt. X, 14); e o Apóstolo testifique: O que presentemente é para nós uma tribulação momentânea e ligeira, produz em nós um peso de glória" (2 Cor. IV, 17); contudo, longe esteja o cristão de confiar ou se gloriar em si mesmo e não no Senhor (1 Cor. I, 31; 2 Cor. X, 17), cuja bondade é tanta para com todos os homens, que Ele quer que estes seus próprios dons se tornem merecimentos deles. E porque todos nós pecamos em muitas coisas (S. Tiago III, 2), cada qual deve ter diante dos olhos tanto a misericórdia e bondade de Deus, como a sua severidade e juízo, e não se julgar a si mesmo, embora nada lhe pese na consciência, porque a vida do homem há de ser toda examinada e julgada, não pelo tribunal humano, mas pelo de Deus, que há de alumiar as trevas mais recônditas e manifestar os desígnios dos corações, e então cada um receberá de Deus o louvor (1 Cor. IV, 4), que  -  como está escrito  -   dará a cada um conforme as suas obras (Rom. II, 6). 

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

NO PURGATÓRIO

Por Mons. Ascânio Brandão


Quando levamos nossos mortos queridos à sepultura, costumamos dizer: descansaram!... Sim, descansaram das fadigas e lutas desta vida que é um combate no dizer expressivo de Jó: "militia est vita hominis super terram - a vida do homem neste mundo é um combate. Porém, descansaram já no seio de Deus? Estão já no eterno repouso no céu? Ai! é tão grande a fragilidade humana, que bem poucos, raríssimos, são os que deixam esta vida e entram logo no céu. Os mortos entram, sim, na paz do Senhor, mas na paz da justiça, geralmente na paz da expiação do purgatório. O purgatório é o lugar da paz. Lá habita a doce paz dos eleitos, dos que resignados e cheios de amor e de dor cumprem a sentença e se purificam à espera do céu. Já se chamou ao purgatório, e com razão, o vestíbulo do paraíso. É o pórtico da eternidade bem-aventurada
   Sim, nossos mortos descansaram, mas sofrem, e sofrem muito mais do que tudo quanto padeceram nesta vida.... Não digamos comodamente: estão no céu! estão no céu!. Com isto padecem as almas do purgatório. A Igreja, pelas lições impressionantes da sua liturgia quer que associemos ao pensamento da morte o da eternidade. E diz o prefácio da Missa dos defuntos: se a condição da nossa morte nos entristece, console-nos a promessa da imortalidade futura.
   E depois, quantas vezes gemendo sobre nós, clama: Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno! Dai-lhes o descanso eterno! Implora misericórdia para nossa pobre alma, lembra o juízo tremendo de Deus, e quer nos aliviar nas chamas expiadoras do purgatório. Nunca meditemos na morte sem meditarmos no purgatório. É este o sentido da liturgia nos funerais.
   Estas preces tocantes e belas, estes ritos impressionantes e cheios de majestade, lembram-nos a nossa dignidade de cristãos, a dignidade de nosso corpo, sacrário de uma alma imortal e templo do Espírito Santo, destinado a ressuscitar um dia e comparecer no tribunal do juízo. Lembram-nos a triste condição de uma pobre alma ao comparecer diante de Deus, e implora misericórdia ao Juíz dos vivos e dos mortos. Sim, não podemos, como cristãos e filhos da Igreja, separar o pensamento da morte do da eternidade. E como sabemos qual é a justiça de Deus, não deixaremos de considerar que após a morte, aí vem o purgatório para quase todos nós, e que lá na expiação, há muitas almas queridas pelas quais somos obrigados a orar por dever de justiça e de caridade. Eis, pois, repito, o sentido da meditação da morte e da liturgia dos mortos. Não é um pensamento de morte, não estão vendo? É ao invés um pensamento de vida. Vita mutatur non tollitur, diz o prefácio dos defuntos. A vida não foi tirada, nem desapareceu, mudou-se apenas. De terrena passou a ser eterna. Eis como o cristão pensa na morte.
   É certo, diz um autor, a ingratidão não pode existir no purgatório. Aquelas benditas almas hão de proteger e socorrer os que as aliviam nesta vida com seus sufrágios...
   São Filipe Neri era devotíssimo das almas e cheio de caridade, nunca deixou de socorrê-las em toda sua vida. Muitas vezes lhe apareceram para lhe testemunhar uma gratidão profunda. Depois da morte do santo, um dos seus confrades o viu na glória do céu, cercado de uma multidão de bem-aventurados no esplendor da glória eterna. - Que corte é esta que vos cerca? pergunta o padre. - São as almas que livrei do purgatório e que salvei. Vieram me acompanhar na glória. (...) Na morte e depois da morte, seremos recompensados pelo que tivermos feito em sufrágio da benditas almas do purgatório. (...) A pobre criatura humana tão miserável nem sempre ao deixar a terra, é bastante pura e santa e merece a presença do Senhor, a visão beatífica. E também como há de ser condenada às chamas eternas a alma que, embora não tivesse pago a dívida dos seus enormes pecados na penitência desta vida, não é, todavia, merecedora do castigo eterno? Há de entrar no Céu? Não. Lá só se encontram os santos e os puros de coração. E que pureza angélica requer a divina justiça para o céu! Há, então, de ser condenada ao inferno? Oh!, também, não. A misericórdia divina jamais o permitiria. Faltas veniais, imperfeições, falta de penitência dos pecados graves, tudo isto, é bem verdade, exige castigo e sem a penitência não se há de entrar no céu. Porém, a justiça e a misericórdia divina se uniram - Justitia et pax osculatae sunt. - O pecado será castigado, a dívida exigida pela justiça será paga até o último seitil, mas a infinita misericórdia há de salvar a pobre alma culpada, há de lhe abrir um dia as portas do céu.
   Existe um purgatório! Não é consoladora e racional a doutrina da Igreja neste dogma?
   Sobre o Purgatório, há só dois pontos, perfeita e claramente definidos pela Igreja, e que, portanto, constituem objeto de nossa Fé: 1) - Existe um lugar de purificação temporária para as almas justificadas que saem desta vida sem completa penitência dos seus pecados. 2) Os sufrágios dos fiéis e especialmente o santo Sacrifício da Missa são úteis às almas.
   Já nos primeiros séculos, segundo o testemunho de Tertuliano e dos Santos Padres e os monumentos, os cristãos, sufragavam os mortos com orações, e pelo santo Sacrifício da Missa celebrado sobre as sepulturas. Nas inscrições, nos epitáfios se encontram nas catacumbas belas preces pelos mortos. No Século IV em 302, Santa Perpétua nos conta uma visão do Purgatório. Diz ela:
   "Estávamos em oração na prisão, depois da sentença que nos condenava a sermos expostas às feras, e de repente chamei por Demócrito. Era um meu irmão segundo a carne. Morrera com um câncer na face. A lembrança da sua triste sorte me afligia. Fiquei admirada de me ter vindo à lembrança este irmão e me pus a rezar por ele com todo fervor, gemendo diante de Deus. Na noite seguinte, tive uma visão na qual vi Demócrito sair de um lugar tenebroso no qual se acham muitas pessoas. Estava abatido e pálido, com a úlcera que o levou à sepultura. Tinha uma grande sede. Junto de mim estava uma bacia com água, mas ele em vão tentava beber e não conseguia. Conheci que meu irmão estava sofrendo e era preciso rezar por ele. Pedi por ele a noite com muitas lágrimas, para que fosse libertado. Alguns dias depois tive outra visão, na qual Demócrito me apareceu todo brando, brilhante e belo, e se inclinou e bebeu à vontade a água que antes não pôde tirar. Conheci por isto que estava livre do suplício".
   Eis um belo trecho que vem provar a antiguidade da crença do purgatório.
   Santo Agostinho reconhece a autenticidade das Atas de Santa Perpétua e nota que o irmãozinho da Santa deveria ter cometido alguma falta depois do batismo. (...).
   Vemos tantos entes queridos que deixaram esta vida, é verdade, em boas disposições, mas como eram culpados de certas faltas e não haviam feito uma penitência devida, receamos às vezes pela sua salvação. Todavia nos diz o coração que não podiam se perder. Eram bons, tinham qualidades apreciáveis, foram talvez caridosos e fizeram algum bem nesta vida. Admitir que esteja no céu depois de tantas faltas e defeitos e ausência de penitência, não o podemos. Dizer que estejam condenados, é muito duro, e, apesar de tudo, como poderiam ter se perdido almas tão caridosas e boas e que fizeram algum bem neste mundo? A ideia do purgatório se impõe necessariamente à nossa razão ou, antes, se impõe à nossa fé. (...).
   Havemos de chorar nossos mortos e a religião não nos pode proibir as lágrimas tão justas, quando sentimos nosso coração ferido pelo golpe duro da saudade. Todavia, havemos de chorar cristãmente nossos defuntos queridos. É mister lembrar-nos deles mais com orações e sufrágios do que com lágrimas estéreis. O pensamento do purgatório é um consolo. Sabemos que podemos ainda auxiliar, valer e socorrer nossos entes queridos. É bem possível que padeçam no purgatório.
   A Religião de Nosso Senhor Jesus Cristo não proíbe que choremos os nossos mortos queridos. Podemos, pois, render a estes o tributo de nossas lágrimas e de nossa saudades. Com esta pobre natureza, como ficarmos insensíveis ante a morte de um ente estremecido? Como nos custa ver arrebatados pela morte os entes com quem convivemos, nosso pai, nossa mãe, nosso filho, nosso irmão, nosso amigo"... A religião, se bem que nos ensine a ser fortes na dor e a meditar  na Paixão de Jesus Cristo, não nos veda aquelas lágrimas e saudades. Ela não tem o estoicismo pagão, estúpido e anti-natural. Pois, Jesus não chorou na sepultura de Lázaro? Não choraram, na Paixão, Maria Madalena e as Santas mulheres? A religião nos permite chorar do mesmo modo os nossos mortos. Quer apenas que o façamos, não como os pagãos, desesperados e desiludidos, mas como quem tem esperança na vida eterna e crê na imortalidade. Choremos a separação dolorosa, mas com a doce esperança de que, um dia, numa pátria melhor, onde não haverá nem luto, nem dor, ou sofrimento de qualquer espécie, nem separação, tornaremos a ver todos aqueles que amamos aqui na terra. Como esta esperança consola! O cristão não deve dizer com desespero, ante o cadáver gelado de um ente querido: - "Nunca mais te verei" Adeus para sempre!" Não! Embora em pranto, suas palavras devem ser estas: - "Até ao céu! Lá nos tornaremos a ver e seremos para sempre felizes".
   O dogma do purgatório, tão em harmonia com nosso coração, nos diz que podemos ainda ajudar nossos mortos queridos para podermos dizer-lhes: até o céu!.
   Deus revelou muitas vezes à Bem-avemturada Ana Taigi a sorte das almas do purgatório. Ela pedia continuamente pelas pobres almas, num misterioso sol que sempre lhe aparecia. Foi Ana Taigi uma grande mística do século XIX. Em 30 de maio de 1920, S. S. Bento XV declarava bem-aventurada a humilde e pobre mãe de família, que durante tanto tempo chamou a admiração de Roma e do mundo com tantos prodígios sobrenaturais. A beata Ana Taigi, romana de nascimento, via os acontecimentos futuros e a sorte dos mortos.
   Um homem, conhecido de Ana, morreu, e ela o viu nas chamas do purgatório, salvo do inferno pela divina Misericórdia, porque socorreu um pobre que o importunava muito pedindo esmola. Viu um conde cuja vida se passou em delícias e divertimentos, mas que na hora da morte teve um grande arrependimento e se salvou, mas deveria sofrer no purgatório tormentos incríveis tanto tempo quanto passou neste mundo sem se preocupar com a penitência e com a salvação eterna.
  Viu homens de grande virtude sofrendo porque se deixaram levar pela vaidade e amor próprio, muito apegados aos elogios e à amizade dos grandes da terra.
   Um dia Nosso Senhor lhe disse: levanta-te e reza, meu Vigário na terra está na hora de vir me prestar contas. Ana Taigi sufragou a alma do Papa e depois o viu como um rubi ainda não de todo brilhante, pois, lhe faltava se purificar mais.
   Faleceu em Roma o cardeal Dória, que deixou grande fortuna, e naturalmente celebraram-se por sua alma centenas de Missas. Foi revelado à beata Ana Taigi que as missas celebradas por alma do cardeal eram aproveitadas para as almas dos pobrezinhos abandonados e que não tinham quem mandasse celebrar por eles.
   Via-se assim a divina Justiça que não olha a riqueza nem as possibilidades dos ricos em arranjar sufrágios, com descuido às vezes neste mundo da verdadeira penitência.
   Viu Ana no purgatório um sacerdote muito estimado por suas virtudes e sobretudo pelas brilhantes pregações que fazia e o tornavam admirado de todos. Sofria muito este pobre padre. Foi revelado à beata Ana que ele expiava a falta de procurar com muito empenho a fama de bom pregador e um pouco de vaidade ao pregar a palavra de Deus, sobretudo nas complacências com os elogios.
   Viu dois religiosos muito santos no purgatório, em sofrimentos duros. Um deles expiava o seu apego ao próprio juízo e pouca submissão ao modo de ver de outros, e outro a dissipação, a falta de recolhimento e piedade no exercício do ministério sacerdotal.
   Enfim, a beata Ana trouxe com a sua bela e impressionante mensagem do sobrenatural no século XIX, muitas luzes sobre o purgatório e impressionantes lições da Justiça de Deus, e também não há dúvida, da Misericórdia que salva tantas almas pelas chamas expiadoras do purgatório.